As cadeias globais de valor estão a entrar numa era de volatilidade estrutural, obrigando empresas e governos a repensar onde e como investem e produzem, segundo um novo relatório do Fórum Económico Mundial
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De acordo com o estudo Global Value Chains Outlook 2026: Orchestrating Corporate and National Agility, realizado pelo Fórum Económico Mundial, 74% dos líderes empresariais consideram agora a resiliência um motor de crescimento, o que reflete uma mudança profunda nas prioridades estratégicas face a um contexto marcado por fragmentação geopolítica, aceleração tecnológica, transição energética e restrições crescentes de recursos. O relatório, desenvolvido em parceria com a consultora Kearney e sustentado em consultas a líderes empresariais, decisores públicos e especialistas académicos, bem como em dados recolhidos junto de centenas de executivos seniores a nível global, conclui que a instabilidade deixou de ser um choque pontual para se tornar uma condição estrutural permanente da economia global. “A volatilidade já não é uma disrupção temporária; é uma condição estrutural para a qual os líderes têm de planear”, afirma Kiva Allgood, Managing Director do Fórum Económico Mundial. Segundo a responsável, a vantagem competitiva passa agora pela “antecipação, flexibilidade e coordenação de ecossistemas”, tanto ao nível empresarial como nacional. Os sinais desta transformação são evidentes. Só em 2025, o agravamento de tarifas entre grandes economias reorganizou mais de 400 mil milhões de dólares em fluxos comerciais globais, enquanto disrupções em rotas marítimas estratégicas levaram a um aumento de 40% nos custos do transporte marítimo de containers em termos homólogos. Em paralelo, a produção industrial nas economias avançadas cresce ao ritmo mais fraco desde 2009. O relatório destaca ainda a proliferação de políticas industriais e comerciais, sendo que mais de três mil novas medidas foram introduzidas globalmente em 2025, mais do triplo do registado há uma década, reforçando a ideia de que a resiliência das cadeias de abastecimento se tornou um fator central da competitividade económica. Como resposta, o Fórum Económico Mundial lançou o Manufacturing and Supply Chain Readiness Navigator, uma nova ferramenta digital que permite a governos e empresas avaliar riscos, lacunas e pontos fortes das suas cadeias industriais. A plataforma apoia decisões sobre política industrial, localização de investimento e desenho de cadeias de produção, com base em indicadores globais de competitividade e infraestruturas. O relatório apresenta também exemplos de abordagens nacionais que já estão a moldar a competitividade industrial. Na Irlanda, programas de requalificação profissional liderados por empresas, através da Skillnet Ireland, alinham formação com necessidades do mercado. Na China, investimentos massivos em infraestruturas digitais e redes 5G permitem conectividade industrial em tempo real. Já no Qatar, um sistema nacional de monitorização de bens alimentares essenciais reforça a segurança do abastecimento através de dados em tempo real e resposta rápida a disrupções. Para Per Kristian Hong, Partner da Kearney, o desafio deixou de ser prever crises, uma vez que “a disrupção das cadeias de abastecimento em 2026 será constante e estrutural”, sublinhando que fatores como fragmentação geopolítica, mudanças nas regras comerciais e escassez de mão de obra estão a redefinir a criação de valor. “A prioridade já não é a eficiência máxima, mas sim redes adaptáveis, capazes de se reconfigurar rapidamente perante a incerteza”, afirma. |