A consultora prevê que as empresas possam ter de voltar a contratar trabalhadores dispensados devido à inteligência artificial, frequentemente com custos superiores. Um estudo revela que apenas 19% das organizações dispõem de práticas eficazes de planeamento da força de trabalho para responder às mudanças provocadas pela tecnologia
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Até 2029, 30% dos trabalhadores despedidos e substituídos por Inteligência Artificial (IA) poderão ser recontratados, muitas vezes com custos superiores aos anteriores, segundo uma previsão da Gartner. A consultora alerta que as organizações estão a tomar decisões sobre a redução das suas equipas sem compreenderem plenamente como a tecnologia irá transformar o trabalho e quais as competências necessárias para concretizar os objetivos de negócio. A previsão reflete os riscos de uma abordagem à adoção de IA centrada na redução imediata de custos com pessoal, em vez de uma avaliação das necessidades futuras da organização. “Muitas organizações estão a tomar decisões sobre IA e recursos humanos pela ordem errada. Decidem quantas pessoas vão dispensar antes de compreenderem o que será necessário para realizar o trabalho”, afirma Caitlyn McDonough, Vice President Analyst da Gartner. Segundo a analista, as empresas devem começar por identificar as atividades mais importantes para a sua estratégia, compreender como estas estão a mudar e determinar a combinação adequada de profissionais e tecnologia para alcançar os resultados pretendidos. Apenas 19% das organizações planeiam eficazmente o impacto da IAUm inquérito realizado pela Gartner em julho de 2026, junto de 297 responsáveis máximos de recursos humanos (CHRO), revela que apenas 19% das organizações dispõem de práticas de planeamento da força de trabalho consideradas eficazes. Estas práticas permitem compreender como as atividades estão a evoluir, avaliar o impacto da IA e alinhar as estratégias de talento com os objetivos empresariais. A investigação indica ainda que as organizações com um planeamento eficaz da força de trabalho têm 1,4 vezes mais probabilidade de superar os objetivos de receita e 1,5 vezes mais probabilidade de superar os objetivos de custos. Para a Gartner, estes resultados reforçam a importância de integrar as decisões sobre pessoas e tecnologia no planeamento estratégico, em vez de tratar a automatização como uma oportunidade isolada de reduzir o número de trabalhadores. A consultora considera que os modelos tradicionais de planeamento apresentam limitações porque partem, geralmente, dos postos de trabalho existentes, das competências atuais e do número de colaboradores. A partir dessa informação, as empresas procuram identificar as funções que poderão ser alteradas ou substituídas pela IA. No entanto, o facto de uma tecnologia conseguir executar determinada tarefa não significa necessariamente que essa seja a melhor opção para a organização. Empresas devem avaliar o trabalho antes de decidir sobre os postos de trabalhoA Gartner defende uma abordagem que comece pela estratégia empresarial e pelas atividades necessárias para a concretizar, antes de determinar os recursos humanos e tecnológicos que deverão ser utilizados. Esta mudança torna-se particularmente relevante num contexto em que os custos associados à IA estão a aumentar, levando as organizações a concentrar os investimentos nas áreas com maior impacto nos objetivos de negócio. Para apoiar esta transição, a consultora desenvolveu um modelo de planeamento estratégico da força de trabalho assente em cinco fases. A primeira consiste em identificar as capacidades mais importantes para executar a estratégia empresarial. Segue-se a previsão da procura futura de trabalho e dos recursos necessários para responder a essa procura. Numa terceira fase, as organizações devem avaliar a capacidade disponível, considerando tanto os profissionais como os recursos proporcionados pela IA. O modelo prevê depois a identificação das diferenças entre as necessidades futuras e os recursos disponíveis, bem como a avaliação de possíveis soluções em função dos custos, riscos e rapidez de implementação. Por último, a Gartner recomenda a criação de mecanismos de governação que permitam estabelecer prioridades e financiar os investimentos necessários na força de trabalho. Um dos elementos centrais desta abordagem é a capacidade de quantificar o trabalho que será necessário realizar no futuro e determinar que parte poderá ser executada por pessoas e que parte poderá ser assegurada pela IA. Segundo a consultora, esta análise permite tomar decisões mais fundamentadas sobre contratação, requalificação profissional, automatização e reorganização das equipas. Adoção gradual pode reduzir riscos de transformaçãoEm vez de implementar imediatamente um novo modelo de planeamento em toda a organização, a Gartner recomenda que os responsáveis de recursos humanos comecem por testar a abordagem numa ou duas capacidades de negócio consideradas prioritárias. Os resultados destes projetos iniciais poderão depois servir de base para alargar o modelo a outras áreas, incorporando as aprendizagens obtidas e ajustando os critérios de avaliação. A consultora considera que este processo permitirá aos responsáveis de recursos humanos apresentar à administração uma visão mais clara das competências necessárias para executar a estratégia empresarial, bem como dos investimentos exigidos para desenvolver essas capacidades. “Para se prepararem para um futuro impulsionado pela IA, os líderes devem deixar de planear a força de trabalho que têm e começar a planear aquela de que a sua estratégia necessita”, defende Caitlyn McDonough. A analista acrescenta que, ao deslocarem o foco dos postos de trabalho para as atividades e para a procura futura de trabalho, as organizações poderão evitar decisões dispendiosas e distribuir os recursos de forma mais eficaz. A previsão de que uma parte dos trabalhadores substituídos por IA venha a ser recontratada até 2029 evidencia, assim, os potenciais custos de decisões de automatização tomadas sem uma avaliação abrangente das necessidades do negócio. Para a Gartner, a questão central não é apenas determinar quantos postos de trabalho a IA poderá substituir, mas compreender como o trabalho será realizado e quais as competências humanas e tecnológicas necessárias para o assegurar. |