Empresas apostam na IA, mas falta preparação

Um estudo da AESE Business School e do Instituto Superior Técnico revela que o compromisso das lideranças com a IA ainda não é acompanhado pela preparação dos dados, das competências e dos processos organizacionais

Empresas apostam na IA, mas falta preparação
buraratn / AdobeStock

A adoção da Inteligência Artificial (IA) está a ganhar espaço nas organizações que operam em Portugal, mas o investimento e o envolvimento da gestão de topo nem sempre se traduzem em estruturas e processos preparados para tirar partido da tecnologia. A conclusão é de um estudo da AESE Business School e do Instituto Superior Técnico, que identifica fragilidades na qualidade dos dados, na formação e na governação da IA.

O estudo AI Use and Organizational Capabilities: A Framework for Readiness and Development, da autoria de Jorge Costa da Silva, da AESE Business School, e de Miguel Mira da Silva e Francisco Lima, do Instituto Superior Técnico, baseia-se em 103 entrevistas a 106 executivos e profissionais de 81 organizações que operam em ou a partir de Portugal.

A investigação identifica dez padrões na adoção da tecnologia, revelando que, apesar do interesse das lideranças, a utilização da IA continua frequentemente dependente da iniciativa individual dos colaboradores.

Lideranças empenhadas, mas sem estruturas definidas

Cerca de três em cada quatro entrevistas descrevem uma gestão de topo comprometida com a adoção da IA. No entanto, na maioria das organizações, este envolvimento ainda não se traduz na existência de equipas, comités ou responsáveis dedicados à tecnologia.

A adoção acontece frequentemente de forma individual, sem uma estratégia de implementação transversal à organização.

Outra das conclusões aponta para a dificuldade em adaptar os processos de negócio. Em vez de repensarem os fluxos de trabalho para integrar a IA, muitas organizações limitam-se a acrescentar novas ferramentas aos processos existentes.

Segundo os investigadores, as organizações com projetos mais avançados são, em geral, aquelas que começam por redesenhar os processos antes de introduzir a tecnologia.

O estudo identifica também uma atitude predominantemente positiva perante a IA, com o interesse nas suas capacidades a superar os receios relacionados com as consequências da adoção.

Qualidade dos dados é o principal obstáculo

A preparação dos dados surge como uma das maiores dificuldades identificadas na investigação. Cerca de dois terços dos entrevistados consideram que os dados das suas organizações ainda não estão preparados para suportar a utilização da IA.

O problema está sobretudo relacionado com a qualidade e a organização da informação, e não com a quantidade de dados disponível.

A formação constitui outra limitação porque, embora cerca de metade das organizações tenha realizado esforços nesta área, os investigadores identificam uma concentração em competências básicas, insuficientes para acompanhar utilizações mais avançadas da tecnologia.

O estudo destaca ainda a escassez de profissionais com competências híbridas, capazes de combinar conhecimento dos processos de negócio com domínio das tecnologias de IA.

Esta combinação assume particular importância na identificação de oportunidades de utilização e na transformação das capacidades tecnológicas em resultados operacionais.

Investimento não é o principal entrave

Ao contrário do que poderia ser esperado, a disponibilidade financeira e o acesso à tecnologia não surgem como os principais obstáculos à adoção da IA.

Segundo a investigação, as organizações tendem a disponibilizar investimento quando existe um caso de negócio credível. A dificuldade está sobretudo em identificar utilizações que justifiquem esse investimento e permitam demonstrar resultados.

A segurança da informação surge como um dos principais critérios de avaliação dos projetos, particularmente devido às preocupações com a proteção de dados e à utilização de ferramentas gratuitas de IA sem controlo organizacional.

O estudo revela também que a pressão externa para a adoção da IA permanece limitada. Quando existe, é frequentemente exercida pelos fornecedores de tecnologia, mais do que pelos clientes ou concorrentes.

Preparação depende da utilização pretendida

Uma das principais conclusões da investigação é que não existe um modelo único de preparação das organizações para a IA.

Os investigadores distinguiram dez tipos de tarefas realizadas com recurso à tecnologia e três âmbitos de utilização: pessoal, quando a IA apoia o trabalho individual; processo, quando está integrada em fluxos de trabalho partilhados; e produto, quando altera a oferta disponibilizada aos clientes.

Foram ainda identificadas 17 capacidades organizacionais, agrupadas nas dimensões estratégica, pessoas, operacional e governação.

Segundo Jorge Costa da Silva, cada âmbito de utilização exige uma combinação específica de capacidades. A utilização individual depende sobretudo de competências relacionadas com pessoas e governação, enquanto a integração nos processos mobiliza as quatro dimensões e coloca maiores exigências à preparação dos dados.

Já a utilização da IA em produtos destaca as capacidades estratégicas e operacionais, incluindo a relação com fornecedores externos.

Os investigadores concluem que, à medida que a IA passa da utilização individual para os processos e produtos, as exigências organizacionais acumulam-se, em vez de se substituírem.

“A pergunta relevante deixa de ser ‘a nossa organização está preparada para a IA?’ e passa a ser ‘de que capacidades precisamos para os usos que queremos?’”, sublinha Jorge Costa da Silva, da AESE Business School.

Para os decisores de IT, os resultados apontam para a necessidade de avaliar a preparação das organizações em função dos projetos concretos que pretendem desenvolver, identificando previamente as capacidades tecnológicas, operacionais e de governação necessárias.

A investigação, de natureza fundamentalmente qualitativa, foi realizada a partir de entrevistas conduzidas entre fevereiro e março. Os participantes foram contactados através da rede de Alumni da AESE Business School, pelo que os resultados refletem as experiências relatadas e não pretendem ser representativos do conjunto das organizações portuguesas.

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