Estudo da BCG revela que 48,5% das empresas já estão numa fase avançada de utilização de IA. Até 2030, 42% esperam atribuir autonomia de decisão a agentes inteligentes, mas apenas 5% têm os mecanismos de controlo necessários
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A Inteligência Artificial (IA) está a passar da experimentação para uma fase de criação de valor nas empresas, acompanhada por um aumento significativo do investimento. Segundo o estudo “Applied AI Index 2026”, da Boston Consulting Group (BCG), as organizações duplicaram a despesa com IA em menos de um ano, passando de 1,7% para 3,3% das receitas. Contudo, a crescente autonomia dos sistemas está a criar novos desafios de governação, segurança e supervisão. O relatório, baseado num inquérito a 1.330 dirigentes de topo e líderes empresariais, revela que 48,5% das organizações analisadas já se encontram numa fase de utilização avançada ou de expansão da IA. A consultora considera que a tecnologia está a deixar de ser uma iniciativa experimental para assumir um papel mais abrangente na transformação dos processos empresariais. Apesar desta evolução, persistem diferenças significativas entre as organizações que conseguem integrar a IA nas operações e aquelas que continuam concentradas em projetos-piloto. A BCG identifica um grupo de empresas classificadas como preparadas para o futuro, que representa 7,5% da amostra e apresenta resultados financeiros superiores aos das organizações menos avançadas na utilização de IA. Segundo o estudo, estas empresas registam um retorno total para os acionistas 2,3 vezes superior, um crescimento das receitas 2,4 vezes maior e um crescimento do EBITDA 2,8 vezes superior ao das organizações com menor maturidade tecnológica. A este grupo juntam-se 41% das empresas que estão numa fase de expansão da utilização de IA e que também apresentam um desempenho superior ao das organizações menos preparadas. Em conjunto, os dois segmentos representam 48,5% da amostra, indicando que a utilização avançada da tecnologia já não está limitada a um pequeno número de pioneiros. Os resultados mostram uma associação entre maior maturidade na utilização de IA e melhor desempenho financeiro, embora não permitam atribuir exclusivamente à tecnologia as diferenças observadas. “Ficou para trás a fase em que quase todas as empresas experimentavam a IA, mas poucas viam o impacto nos resultados. Hoje, quase metade já gera valor significativo com esta tecnologia, e o que as separa das restantes é a capacidade de transformar processos e escalar com disciplina”, afirma Eduardo Bicacro, Managing Director & Partner da BCG Lisboa, em comunicado. Para o responsável, as empresas portuguesas devem concentrar-se no alinhamento entre tecnologia, talento e governação, evitando que os investimentos permaneçam limitados a iniciativas experimentais. Investimento cresce fora dos departamentos de ITO aumento da maturidade está a ser acompanhado por uma aceleração do investimento. A despesa empresarial com IA passou de aproximadamente 1,7% das receitas no final de 2025 para 3,3% em 2026, praticamente duplicando em menos de um ano. Uma das principais mudanças identificadas pela BCG está na distribuição destes recursos. Nas grandes empresas, mais de 80% do investimento em IA já é realizado fora dos orçamentos centrais de IT, refletindo uma maior integração da tecnologia nas diferentes áreas de negócio. Esta descentralização pode acelerar a adoção, mas também aumenta a importância de estabelecer mecanismos comuns de governação, supervisão e controlo dos sistemas utilizados pelas organizações. O desafio torna-se particularmente relevante com a evolução dos agentes de IA, capazes de executar tarefas e tomar determinadas decisões com níveis crescentes de autonomia. Segundo a BCG, 42% das empresas esperam atribuir autonomia de decisão a agentes de IA até 2030, mas apenas 5% dispõem atualmente do conjunto completo de mecanismos necessários para controlar a sua utilização. Entre esses mecanismos encontram-se a supervisão humana, a segurança, a auditoria das decisões, o controlo de custos e a capacidade de reverter ações executadas pelos sistemas. A consultora estima que os agentes de IA possam representar cerca de 40% do valor total gerado pela tecnologia até 2030, reforçando a necessidade de desenvolver modelos de governação adequados antes de aumentar a autonomia destes sistemas. IA deverá transformar funções e estruturas organizacionaisA expansão da IA deverá também ter consequências na organização do trabalho. Segundo o estudo, as empresas antecipam uma redução de aproximadamente 10% a 15% da força de trabalho até 2030, com maior impacto nas estruturas de coordenação e gestão intermédia. Estas estimativas refletem expectativas dos responsáveis inquiridos e não correspondem a reduções de emprego já verificadas. A BCG assinala que a maioria das organizações prevê igualmente a criação de novas funções relacionadas com a IA, tornando a requalificação profissional uma prioridade. Entre as empresas mais avançadas e aquelas que estão a expandir a utilização da tecnologia, sete em cada dez já investem na requalificação dos trabalhadores. O peso das funções especificamente dedicadas à IA deverá também aumentar. Atualmente, representam cerca de 7% da força de trabalho das organizações analisadas, mas a previsão aponta para 22% em 2030. Esta transformação implica não apenas a aquisição de competências técnicas, mas também a adaptação dos processos, das responsabilidades e dos modelos de colaboração entre trabalhadores e sistemas inteligentes. O relatório identifica características comuns entre as empresas que apresentam maior maturidade na utilização de IA. Estas organizações integram a tecnologia na estratégia global do negócio, selecionam áreas com maior potencial de criação de valor e procuram transformar processos completos, em vez de automatizar tarefas isoladas. A BCG destaca também a importância de desenvolver competências internas e mecanismos de governação em paralelo com os investimentos tecnológicos. Outro fator diferenciador é a capacidade de acompanhar diretamente o impacto da IA nos resultados financeiros, permitindo avaliar o retorno obtido. Para as empresas portuguesas, as conclusões globais do estudo apontam para desafios relacionados com a passagem de projetos-piloto para implementações mais abrangentes, a preparação das equipas e o estabelecimento de mecanismos de controlo. O relatório não apresenta, contudo, resultados específicos para Portugal, pelo que os indicadores globais não devem ser interpretados como representativos do mercado nacional. A principal conclusão da BCG é que o aumento do investimento em IA, por si só, não garante melhores resultados. À medida que a tecnologia assume maior autonomia e presença nas operações empresariais, a capacidade de reorganizar processos, desenvolver competências e assegurar uma governação eficaz torna-se determinante para transformar o investimento em valor. |