Um estudo da Gartner revela que 23% dos responsáveis empresariais reduziram o número de trabalhadores devido à inteligência artificial, mas 17% aumentaram as equipas. A consultora alerta que o tempo poupado com a tecnologia só gera retorno financeiro quando é direcionado para atividades com impacto mensurável no negócio
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Os ganhos de produtividade proporcionados pela Inteligência Artificial (IA) não se traduzem necessariamente em melhores resultados financeiros ou na redução do número de trabalhadores. O alerta é da Gartner, que considera que os diretores financeiros (CFO) devem deixar de encarar a tecnologia sobretudo como um instrumento de redução de custos com pessoal e passar a utilizá-la como um fator de transformação da organização do trabalho. Segundo a consultora, embora a IA permita automatizar tarefas e libertar tempo dos colaboradores, os ganhos obtidos são frequentemente demasiado limitados ou dispersos para produzir um impacto significativo nos resultados financeiros. Sem mecanismos que permitam direcionar a capacidade adicional para atividades de maior valor, as organizações arriscam-se a não concretizar os benefícios económicos esperados dos investimentos na tecnologia. “Os CFO não devem assumir que os ganhos de produtividade da IA se vão refletir naturalmente no desempenho financeiro. A menos que as organizações redirecionem deliberadamente a capacidade criada pela IA, grande parte desse valor acabará por se perder”, afirma Grace Gstalder, Senior Specialist Analyst da área de Finance da Gartner, em comunicado. A análise baseia-se, entre outros dados, num inquérito realizado pela Gartner a 1.303 responsáveis seniores de diferentes áreas funcionais, entre janeiro e abril de 2026. Os resultados mostram que a adoção de IA está a produzir efeitos distintos na dimensão das equipas, contrariando a ideia de que a introdução da tecnologia conduz inevitavelmente à redução do emprego. IA reduz algumas funções, mas aumenta a procura por competências digitaisDe acordo com o estudo, 23% dos responsáveis inquiridos afirmam ter reduzido o número de trabalhadores como consequência direta da IA, enquanto 17% registaram um aumento das equipas. Os resultados demonstram que a tecnologia está simultaneamente a substituir determinadas tarefas e a criar necessidades de recrutamento em áreas que exigem competências digitais mais avançadas. “Existem forças a atuar nos dois sentidos. A IA está a impulsionar reduções de pessoal entre trabalhadores com competências digitais insuficientes, ao mesmo tempo que aumenta a procura por profissionais com conhecimentos sólidos de IA e tecnologias digitais”, explica Grace Gstalder. Para a Gartner, esta evolução significa que os benefícios financeiros da inteligência artificial dificilmente serão alcançados apenas através de cortes isolados no número de trabalhadores. A consultora defende que as organizações devem reconsiderar a forma como as atividades são estruturadas, distribuídas e executadas, aproveitando a capacidade libertada pela automação para melhorar processos e reforçar funções estratégicas. O desafio é particularmente relevante para os CFO, que enfrentam uma pressão crescente para demonstrar o retorno dos investimentos em IA. Embora a redução do tempo necessário para executar determinadas tarefas seja um indicador de eficiência, não representa, por si só, uma poupança financeira. Se os trabalhadores continuarem a desempenhar as mesmas funções e o tempo libertado não for utilizado de forma produtiva, os ganhos podem não se refletir nos resultados da organização. Gartner identifica três prioridades para transformar tempo poupado em valorA Gartner recomenda que os diretores financeiros adotem uma abordagem estruturada para garantir que os ganhos de produtividade se traduzem em resultados concretos. A primeira prioridade consiste em definir os objetivos de negócio para os quais deve ser direcionada a capacidade libertada pela IA, envolvendo a administração na identificação das áreas com maior potencial de criação de valor. Entre as possibilidades identificadas estão a internalização de atividades anteriormente asseguradas por prestadores externos, a reafetação de recursos para funções geradoras de receitas e o reforço das capacidades de análise e apoio à decisão. A melhoria da gestão de riscos, o aumento da precisão das previsões financeiras e o desenvolvimento de uma colaboração mais próxima entre as equipas financeiras e as restantes áreas do negócio são outras aplicações possíveis. A segunda recomendação passa por integrar a utilização do tempo libertado pela IA nos objetivos e indicadores de desempenho das equipas. Segundo a Gartner, não basta responsabilizar os departamentos pela obtenção de ganhos de eficiência: é igualmente necessário acompanhar de que forma esses ganhos são utilizados. Os responsáveis devem, por isso, estabelecer metas que permitam avaliar tanto a redução do tempo dedicado a determinadas tarefas como a sua reafetação a atividades de maior valor. A terceira prioridade consiste em relacionar os ganhos de produtividade com indicadores financeiros mensuráveis. Em vez de avaliar exclusivamente o número de horas poupadas, os CFO devem analisar o impacto da tecnologia em resultados como o crescimento das receitas, os custos evitados, a melhoria das previsões, a rapidez da tomada de decisões e a redução dos riscos empresariais. Esta abordagem exige maior visibilidade sobre o que acontece depois de uma tarefa ser automatizada ou simplificada. Para a Gartner, a capacidade adicional gerada pela IA deve ser tratada como um recurso que necessita de planeamento, acompanhamento e mecanismos de governação, tal como acontece com outros recursos empresariais. “A maioria das organizações não dispõe de mecanismos para converter as melhorias de eficiência proporcionadas pela IA em impacto financeiro. Para o conseguir, é necessário tratar o tempo poupado como um recurso sujeito a governação”, sublinha Grace Gstalder. A consultora considera, assim, que o retorno da inteligência artificial dependerá cada vez mais da capacidade das empresas para reorganizar o trabalho e direcionar os recursos disponíveis para prioridades estratégicas. “A capacidade criada pela IA é um recurso, não um retorno. Sem uma governação ativa, o tempo poupado continuará disperso e sem gerar valor económico”, conclui a analista. |