IDC: 60% das grandes empresas terão a maioria dos processos orientados para a IA até 2029

O “IDC FutureScape 2027” antecipa uma transformação profunda dos processos empresariais, impulsionada pela adoção de agentes de IA. Apesar da aceleração tecnológica, a consultora alerta para os desafios de governação, os custos de utilização e a fragmentação regulatória, que obrigarão as organizações a repensar as suas estratégias de investimento e gestão de risco

IDC: 60% das grandes empresas terão a maioria dos processos orientados para a IA até 2029
tippapatt / AdobeStock

Até 2029, 60% das empresas Global 2000 (G2000) terão a maioria dos seus processos de negócio organizados segundo uma abordagem que dá prioridade à Inteligência Artificial (IA), face aos 13% registados em 2026. A previsão consta do “IDC FutureScape 2027”, o exercício anual de análise prospetiva da consultora, que antecipa uma transformação dos modelos operacionais das organizações à medida que os agentes de IA assumem responsabilidades na execução de tarefas e nos processos de decisão. A IDC estima ainda que, até 2028, 70% das empresas G2000 terão capacidade para validar continuamente as decisões destes agentes, uma evolução significativa relativamente aos atuais 14%.

Sob o tema “The Great Rewrite — Winning in the Agentic Economy”, o “IDC FutureScape 2027” reúne 250 previsões distribuídas por 25 áreas de investigação, incluindo software empresarial, infraestruturas de IA, computação quântica, serviços financeiros, saúde e administração pública. A análise identifica tendências com diferentes horizontes de concretização e procura ajudar os responsáveis tecnológicos a distinguir as áreas em que os primeiros investidores já estão a consolidar vantagens competitivas daquelas em que ainda existe margem para influenciar a evolução do mercado.

A consultora organiza estas transformações em três categorias: oportunidades cujo período de atuação está a terminar, áreas em que as empresas ainda podem definir o seu posicionamento e mercados emergentes nos quais começam a surgir novas possibilidades de criação de valor. Para Meredith Whalen, diretora de investigação e inteligência de dados da IDC, a questão central já não é apenas a velocidade de adoção da tecnologia, mas a capacidade de supervisionar os sistemas autónomos. A responsável defende que as organizações mais bem posicionadas serão aquelas que conseguirem validar as ações dos agentes de IA à mesma velocidade a que os colocam em funcionamento.

Adoção de agentes de IA avança mais depressa do que a governação

Um dos principais alertas do “FutureScape 2027” diz respeito ao desfasamento entre a implementação de agentes de IA e a evolução dos mecanismos de controlo. Analistas de dez áreas de investigação da IDC identificaram esta tendência de forma independente, concluindo que as organizações estão a acelerar a utilização de sistemas autónomos sem desenvolver, ao mesmo ritmo, os processos necessários para supervisionar as suas decisões e limitar comportamentos inesperados.

Segundo a IDC, até 2028, as empresas G2000 que não implementarem mecanismos de interrupção de emergência para agentes de IA em produção poderão enfrentar prémios de seguros de responsabilidade civil 25% superiores e o dobro das constatações relevantes em auditorias. Estes mecanismos, habitualmente designados por kill switches, permitem interromper a atividade de um agente quando são identificados comportamentos anómalos ou operações que ultrapassam os limites definidos pela organização.

Os dados apresentados pela consultora ilustram a rapidez da adoção. De acordo com o inquérito “Future Enterprise Resiliency and Spending Survey”, em julho de 2026, 95,4% das empresas abrangidas pelo estudo já tinham agentes de IA implementados numa média de 11 fluxos de trabalho em produção, com orçamentos mensais de inferência próximos de 118 mil dólares. A IDC não detalha, no documento divulgado, a distribuição geográfica desta amostra, pelo que os resultados não devem ser interpretados como representativos do mercado europeu.

A evolução prevista coloca novas exigências às equipas de IT, segurança e gestão de risco, sobretudo porque os modelos tradicionais de aprovação manual, auditorias periódicas e correção posterior de incidentes podem revelar-se insuficientes perante sistemas capazes de executar operações de forma autónoma. A IDC considera que a supervisão contínua terá de acompanhar a expansão destes agentes, tornando-se parte integrante da arquitetura tecnológica e dos processos de governação empresarial.

Custos e contratos de software entram numa nova fase

A crescente autonomia dos agentes de IA deverá também alterar a relação entre as empresas e os fornecedores tecnológicos. A IDC prevê que, até 2028, 75% das empresas G2000 incluam nos contratos com fornecedores cláusulas específicas sobre a responsabilidade por ações iniciadas autonomamente por agentes de IA. A ausência destas disposições poderá passar a representar um fator de risco nos processos de avaliação e seleção de soluções tecnológicas, à medida que as organizações procuram clarificar quem responde pelas consequências de decisões e operações automatizadas.

A transparência dos custos constitui outro desafio. Segundo a consultora, a percentagem de empresas que enfrentam aumentos efetivos das despesas associadas aos agentes de IA, mesmo sem alterações públicas aos preços dos fornecedores, deverá passar dos atuais 20% para 55% até ao final de 2027. Esta evolução reflete a necessidade de acompanhar custos variáveis associados à execução de tarefas e ao consumo de recursos de inferência, para além dos modelos tradicionais de licenciamento e subscrição de software.

A IDC antecipa igualmente mudanças na escolha dos modelos de IA utilizados pelas organizações. Até 2028, 60% dos workloads empresariais de IA devem ser transferidos de grandes modelos de linguagem proprietários para modelos open source, recorrendo a estratégias de encaminhamento entre diferentes modelos para reduzir despesas e limitar a dependência de fornecedores. A consultora considera que as organizações que avançarem mais rapidamente nesta direção estarão em melhores condições para controlar os custos de inferência, identificados como um dos obstáculos à expansão das aplicações de IA com agência.

O valor dos dados empresariais representa uma dificuldade adicional. A IDC prevê que, até 2028, 60% das organizações não consigam transformar eficazmente os dados que possuem em resultados de negócio mensuráveis, devido ao crescimento da informação a um ritmo superior à capacidade de a classificar, gerir e governar. Neste contexto, o investimento em armazenamento e recolha de dados terá de ser acompanhado por mecanismos que permitam determinar a sua qualidade, utilização e contribuição efetiva para os objetivos empresariais.

Fragmentação regulatória obriga a repensar arquiteturas globais

A divergência das exigências regulamentares entre países e regiões surge como outro fator de transformação das estratégias tecnológicas. Analistas de nove áreas de investigação da IDC identificaram dificuldades crescentes na manutenção de arquiteturas globais uniformes, à medida que diferentes jurisdições estabelecem requisitos próprios para a proteção de dados, a segurança e a governação da inteligência artificial.

A consultora prevê que, até 2029, 35% das empresas G2000 tenham implementado registos de modelos de IA e mecanismos de controlo específicos para diferentes jurisdições. Esta tendência é particularmente relevante para as organizações multinacionais com operações na Europa, que terão de conciliar a utilização de plataformas tecnológicas comuns com obrigações regulatórias distintas entre os mercados onde desenvolvem atividade.

Embora o “FutureScape 2027” apresente previsões de âmbito internacional e não disponibilize estimativas específicas para Portugal ou para a União Europeia, a fragmentação regulatória identificada pela IDC tem implicações para as decisões de arquitetura e contratação de serviços de IA. A capacidade de adaptar modelos, políticas de acesso e mecanismos de supervisão às exigências locais poderá tornar-se um critério relevante na seleção de fornecedores e na definição das estratégias de implementação.

IA deverá transformar funções profissionais e operações físicas

A IDC antecipa que a expansão dos agentes de IA terá consequências na organização do trabalho, mas não necessariamente através de uma redução generalizada dos postos de trabalho. Até 2029, 30% das funções de execução de nível inicial e intermédio nas empresas G2000 deverão evoluir para atividades relacionadas com a supervisão e orquestração de agentes de IA, transferindo parte das responsabilidades dos profissionais da execução direta de tarefas para a definição de objetivos, coordenação de sistemas e validação de resultados.

Os dados do “Future of Work Survey” mostram diferenças nas expectativas de contratação. Entre as empresas com mil a 4.999 trabalhadores, 49% antecipam um aumento do número de profissionais em funções de entrada nos próximos 18 meses, enquanto 17% esperam uma redução. Estes resultados sugerem que a adoção de IA poderá coexistir com a criação de oportunidades profissionais, embora acompanhada por alterações nas competências exigidas e na distribuição de responsabilidades.

A transformação deverá estender-se também às operações físicas. A IDC prevê que, até 2030, 40% das empresas de serviços públicos de eletricidade adotem modelos de autorização por níveis que permitam aos agentes de IA executar autonomamente determinadas operações de controlo da rede elétrica. A consultora estima que esta evolução possa reduzir em 25% a necessidade de intervenção dos operadores humanos nessas tarefas, aumentando simultaneamente a importância dos mecanismos de autorização, segurança e supervisão.

Empresas de média dimensão lideram implementação transversal de agentes

O “FutureScape 2027” identifica ainda diferenças entre organizações de média e grande dimensão na adoção de agentes de IA. Num inquérito a 1.146 responsáveis empresariais, a IDC concluiu que 46% das empresas com mil a 4.999 trabalhadores já tinham implementado agentes de IA em vários departamentos, uma percentagem superior aos 40% registados nas organizações com cinco mil ou mais colaboradores.

A relação inverte-se quando se analisa a maturidade dos mecanismos de governação. Apenas 31% das empresas de média dimensão afirmaram dispor de um centro de excelência de IA plenamente operacional, destinado a coordenar e supervisionar a utilização da tecnologia, enquanto nas grandes organizações essa percentagem atingia 43%. Os resultados apontam para uma maior rapidez de implementação nas empresas de menor dimensão, mas também para uma capacidade relativamente superior das grandes organizações na formalização de estruturas de controlo.

Para a IDC, a próxima fase da transformação empresarial será marcada pela necessidade de equilibrar estes dois fatores. A adoção de agentes de IA poderá proporcionar ganhos de eficiência e novas formas de organização dos processos, mas a capacidade de gerir custos, atribuir responsabilidades e validar decisões será determinante para transformar a utilização da tecnologia em resultados sustentáveis. O “FutureScape 2027” aponta, assim, para uma mudança em que a vantagem competitiva dependerá não apenas da velocidade de implementação da IA, mas também da maturidade dos mecanismos que permitem controlar a sua atuação.

Tags

NOTÍCIAS RELACIONADAS

RECOMENDADO PELOS LEITORES

REVISTA DIGITAL

IT INSIGHT Nº 64 NOVEMBRO 2026

IT INSIGHT Nº 64 NOVEMBRO 2026

NEWSLETTER

Receba todas as novidades na sua caixa de correio!

O nosso website usa cookies para garantir uma melhor experiência de utilização.