Erros na estratégia de IA entram nos cinco maiores riscos emergentes para as empresas

Um estudo da Gartner revela que os erros de avaliação estratégica e a perda de competitividade associada à inteligência artificial estão a ganhar importância entre os riscos empresariais. A pressão para investir em IA pode levar as organizações a avançar sem avaliar adequadamente os benefícios esperados, a capacidade de implementação e o retorno do investimento

Erros na estratégia de IA entram nos cinco maiores riscos emergentes para as empresas
PB Studio Photo / AdobeStock

A Inteligência Artificial (IA) está a deixar de ser apenas uma preocupação tecnológica e de governação para se tornar um fator de risco estratégico para as empresas. Segundo o relatório “Quarterly Emerging Risk Report”, relativo ao terceiro trimestre de 2026, da Gartner, os erros de avaliação da estratégia de IA surgem pela primeira vez entre os cinco principais riscos emergentes identificados pelos responsáveis empresariais. A preocupação reflete o receio de que as organizações realizem investimentos significativos em projetos de inteligência artificial sem obterem os resultados esperados ou acabem por perder competitividade face a empresas que adotem a tecnologia de forma mais eficaz.

O estudo, que contou com a participação de 308 responsáveis pela gestão de riscos empresariais, auditores e executivos seniores, coloca os erros de avaliação estratégica relacionados com a IA na terceira posição entre os riscos considerados mais preocupantes. À frente surgem a descoberta de vulnerabilidades de cibersegurança através de inteligência artificial e os choques geopolíticos no abastecimento energético, que já ocupavam os dois primeiros lugares no trimestre anterior. A Gartner identifica ainda a perda de competitividade provocada pela adoção de IA pelos concorrentes como uma nova preocupação entre os cinco principais riscos emergentes.

“Os riscos associados à IA estão a ultrapassar as preocupações tecnológicas e de governação, passando a integrar o núcleo da estratégia empresarial”, diz, em comunicado, Kevin Mercado, analista sénior principal da área de Risk & Audit da Gartner. Segundo o responsável, o aparecimento destes dois riscos demonstra que as organizações receiam tanto tomar decisões estratégicas com base em benefícios que podem não se concretizar como perder terreno para concorrentes que consigam utilizar a inteligência artificial de forma mais eficiente.

Pressão competitiva pode levar a investimentos precipitados

A Gartner define os erros de avaliação da estratégia de IA como situações em que as organizações investem de forma excessivamente agressiva, selecionam casos de utilização inadequados ou avançam com a implementação antes de estarem preparadas para gerir as implicações operacionais, culturais e de governação da tecnologia. Esta exposição pode aumentar quando a urgência de acompanhar os concorrentes se sobrepõe à avaliação da maturidade interna, dos recursos disponíveis e dos resultados que podem ser efetivamente alcançados.

O risco não está necessariamente associado a falhas técnicas dos sistemas de inteligência artificial, mas às decisões empresariais que determinam onde, quando e como a tecnologia deve ser aplicada. Uma organização pode, por exemplo, comprometer recursos financeiros e operacionais significativos com iniciativas que não respondem às suas prioridades estratégicas ou cuja implementação exige competências e mudanças organizacionais ainda inexistentes. Nestes casos, a pressão para demonstrar capacidade de inovação pode transformar a IA numa fonte adicional de exposição financeira e operacional.

“As organizações arriscam-se a desenvolver iniciativas de IA sem testar suficientemente se os casos de utilização estão alinhados com as prioridades do negócio, a tolerância ao risco, as capacidades disponíveis e os retornos esperados”, alerta Kevin Mercado. A Gartner considera que esta avaliação deve anteceder a expansão dos projetos, evitando que a adoção da tecnologia seja determinada exclusivamente pelas expectativas de produtividade ou pela necessidade de acompanhar as tendências do mercado.

A perda de competitividade associada à IA representa a outra face deste desafio. Enquanto algumas empresas podem assumir riscos excessivos ao acelerar os investimentos, outras enfrentam a possibilidade de ficar para trás caso os concorrentes consigam integrar a inteligência artificial nos seus processos e modelos de negócio com maior eficácia. A Gartner identifica, assim, uma tensão crescente entre a necessidade de inovar e a importância de assegurar que os investimentos são sustentáveis e produzem resultados concretos.

Gartner recomenda avaliar a IA como um conjunto de decisões de negócio

Para responder a estes desafios, a Gartner recomenda que os responsáveis pela gestão de riscos empresariais participem na definição de planos estratégicos de adoção de IA, capazes de identificar e corrigir erros ao longo das diferentes fases de implementação. A abordagem deve ligar os investimentos às prioridades da organização, avaliar antecipadamente os requisitos de preparação e governação e estabelecer mecanismos que permitam acompanhar os resultados obtidos.

Uma das principais recomendações consiste em evitar que o sucesso dos projetos seja medido exclusivamente através de ganhos de produtividade. Segundo a Gartner, as organizações devem também avaliar o impacto da inteligência artificial na qualidade das decisões empresariais e na concretização dos objetivos estratégicos. Esta perspetiva procura assegurar que a tecnologia contribui efetivamente para a criação de valor, em vez de se limitar à automatização de tarefas ou à introdução de novas ferramentas nos processos existentes.

Os responsáveis pela gestão de riscos podem desempenhar um papel relevante neste processo, ajudando a integrar critérios de avaliação e mecanismos de controlo nas decisões de investimento. A Gartner defende que estas medidas devem ser aplicadas independentemente de os projetos serem apresentados como iniciativas de criação de valor ou de mitigação de riscos, uma vez que ambas as dimensões estão interligadas. A preparação organizacional, a disponibilidade de competências e a existência de estruturas de governação adequadas tornam-se, por isso, fatores determinantes para a expansão das iniciativas.

“As organizações devem avaliar a IA como um portfólio de decisões empresariais”, afirma Kevin Mercado. O analista considera que as empresas com maior probabilidade de obter valor sustentado serão aquelas que conseguirem associar os investimentos a resultados de negócio claramente definidos, validar a sua preparação antes de avançarem para uma implementação em maior escala e estabelecer mecanismos de governação que permitam uma experimentação responsável.

Os resultados do relatório evidenciam uma mudança na forma como as empresas encaram os riscos da inteligência artificial. Se numa fase inicial as preocupações estavam sobretudo relacionadas com a segurança, a conformidade e a utilização responsável da tecnologia, a Gartner identifica agora uma atenção crescente às consequências das próprias decisões de investimento e adoção. Para as organizações, o desafio passa por encontrar um equilíbrio entre a rapidez de implementação e a capacidade de demonstrar que os projetos de IA contribuem para os objetivos estratégicos, sem criar riscos desproporcionados para o negócio.

Tags

NOTÍCIAS RELACIONADAS

RECOMENDADO PELOS LEITORES

REVISTA DIGITAL

IT INSIGHT Nº 64 NOVEMBRO 2026

IT INSIGHT Nº 64 NOVEMBRO 2026

NEWSLETTER

Receba todas as novidades na sua caixa de correio!

O nosso website usa cookies para garantir uma melhor experiência de utilização.