High Speed Wireless

Wi-Fi 6 e 5G: a chave para os novos modelos de trabalho

Com os modelos de trabalho remoto e híbrido a chegarem para ficar, em conjunto com o processo de digitalização dos negócios acelerado pela pandemia, as tecnologias wireless de última geração são a base na qual assentam processos de negócio eficazes, ágeis e seguros

Wi-Fi 6 e 5G: a chave para os novos modelos de trabalho

Hoje, mais do que nunca, vivemos numa era em que a velocidade é a chave, não só para a inovação e competitividade, como para o próprio funcionamento das organizações. Mesmo antes da pandemia esta tendência já se fazia sentir: a capacidade de rápida adaptação às tendências e condições de mercado era já um elemento central, não só da narrativa dos líderes tecnológicos como das conclusões todos os estudos de mercado. Desde a crescente procura por serviços digitais e experiências de cliente convenientes e personalizadas até à digitalização dos processos operacionais das empresas, os dados – gerados em grande volume e processados rapidamente – já se tinham estabelecido como eixo fulcral da estratégia das empresas para fazerem frente à inevitável onda da transformação digital.

A chegada da pandemia veio, naturalmente, a acelerar esta necessidade– os serviços digitais deixaram de ser uma preferência para se tornarem, em muitos casos, a única opção, e a automação e agilização dos processos passaram de fator de sucesso para uma necessidade de sobrevivência.

No entanto, algo mais aconteceu que, apesar de muito falado, estava ainda muito atrasado face aos restantes aspetos da digitalização. Os modos de trabalho remoto e híbrido, para os quais até muitas grandes empresas ainda não tinham as condições necessárias, tornaram-se parte do quotidiano de qualquer organização cuja atividade não requer a presença física dos colaboradores.

Torna-se, então, essencial que todos os colaboradores, onde quer que estejam, disponham automaticamente das mesmas condições de trabalho – e, como tal de conetividade.

O 5G e o Wi-Fi 6 trazem ambos, nas suas respetivas áreas de aplicação, benefícios muito semelhantes que, se antes já tinham grande relevância, agora se tornarão essenciais para suportar os novos modos de trabalho. O maior throughput e largura de banda, baixa latência e maior capacidade destas tecnologias são obviamente essenciais para garantir condições perfeitas de conetividade.

Em casa e no escritório: Wi-Fi 6

A nível local, o Wi-Fi 6 traz consigo maior eficiência e performance na transmissão de dados, com velocidades até 10 Gbps, menor latência, até 30% maior cubertura e volume de tráfego até quatro vezes superior comparativamente à geração anterior. Juntamente com estas melhorias quantitativas, traz também novas funcionalidades vitais para os novos requisitos de conetividade, como a gestão inteligente dos dispositivos conectados, proteção contra interferência e focalização do sinal (beamforming), bem como melhorias de segurança da rede com a utilização do protocolo WPA3.

Tudo isto, segundo a ANACOM, “oferece maior capacidade, eficiência e qualidade, com potencial de redução no OpEx e oportunidades de utilização da tecnologia Wi-Fi em contextos empresariais e de negócio em que anteriormente não seria viável, (quase) alcançando a paridade entre as redes cabladas e as redes sem fios”.

Desejáveis num ambiente empresarial ‘tradicional’, estes benefícios revelam-se essenciais no contexto de novos modelos de colaboração – não só por darem resposta ao maior volume e complexidade de dados gerados em ambientes cada vez mais digitais, como também ao oferecerem condições de conetividade adequadas fora do ambiente de escritório, como em ambientes de co-working, espaços públicos e nas próprias residências dos colaboradores. Aqui, as melhorias

de segurança tornam-se particularmente relevantes, permitindo, em conjunção com as soluções e medidas de proteção adequadas, salvaguardar as redes empresariais mesmo com o crescente esbatimento dos perímetros de segurança.

Quando o escritório é o mundo: 5G

O 5G, com velocidades de até 20Gbps, torna- -se particularmente relevante para o uso a longo prazo das aplicações cloud necessárias para os novos modelos de trabalho, otimizando o seu desempenho, capacidade e experiência de utilizador. A latência e limitação de velocidade no acesso a estas aplicações, explica Paulo Coelho, Multicloud Services and Solutions Director da IBM, forçaram à decisão de deixar alguns dos workloads mais próximos de quem os consome. “Aparecem agora novas áreas para desenvolver aplicações focadas em microserviços que podem ser levados ao edge e mais próximos do consumidor”, conclui o responsável.

Outra mais valia desta tecnologia é, como já referido, a baixa latência, dez vezes inferior ao 4G, o que se tornará essencial, não só em novas aplicações críticas como a cirurgia remota e condução autónoma, como também nas aplicações quotidianas das empresas como o file-sharing e videoconferências.

“Isto irá permitir que o trabalho remoto e híbrido não esteja limitado às periferias urbanas, mas que possa ser alargado a outras localizações no território nacional e ilhas”, refere Paulo Coelho. “As limitações das larguras de banda para as reuniões virtuais deixam de existir. O acesso rápido às redes das empresas e aos sistemas corporativos, de uma forma segura, permitirá aceder a partir de qualquer dispositivo o que irá criar inclusive novas formas de acesso.”

Também importante será a funcionalidade de network slicing que esta nova geração de comunicações móveis trará consigo, permitindo implementar várias redes virtuais sobre uma única infraestrutura de rede, ajustadas às necessidades de cada serviço. Como tal, “os investimentos em redes serão mais eficientes, promovendo a inovação e o desenvolvimento de novos negócios”, refere a ANACOM.

Nuno Roso, Head of Digital Services da Ericsson Portugal, acrescenta também que, “com um crescente número de pessoas a mudar o seu local de trabalho, cada vez menos no escritório, cada vez mais em casa, e, com isso, a habituar-se a novas rotinas, os comportamentos digitais também mudam, o que exige impecáveis recursos de comunicação digital”.

Um todo maior do que a soma das partes

Apesar dos respetivos benefícios do 5G e Wi-Fi-6, o seu potencial completo para os novos modelos de negócio e trabalho só poderá ser alcançado com a complementaridade entre ambas as tecnologias. Ao fim de contas, a transferência de dados dentro de qualquer dada empresa está e continuará a acontecer ao longo de várias e diversas redes, de forma dinâmica e complexa, requerendo, para dada operação, conetividade local e a longa distância, pelo que não podem existir ‘bottlenecks’ de dados – a rapidez e baixa latência das redes locais de pouco servirão se o mesmo não se verificar entre as mesmas e, simultaneamente, os mesmos benefícios na transmissão de dados transmissão de dados a longas distâncias não terá expressividade na experiência de utilizador se o mesmo não se verificar no início e/ou final desta viagem, entre o router e o dispositivo.

A maior necessidade de flexibilidade e mobilidade para os trabalhadores beneficiará da capacidade de fazer roaming entre estas duas tecnologias, podendo assim garantir uma conetividade continua e ininterrupta ao entrar e sair do alcance de redes locais.” Num futuro próximo podemos estar a trabalhar em casa ou no escritório ligados por Wi-Fi 6 e ao sairmos desse espaço o roaming é feito para o 5G de uma forma seamless”, prevê Carlos Assunção, Consulting Services Solutions Architect - Networking & Infrastructure da Warpcom.

Juntamente com isto, outro benefício inerente destas duas tecnologias, individualmente e em complementaridade, é a capacidade de – se corretamente implementadas – oferecer ao utilizador uma experiência consistente. Num mundo em que um colaborador pode estar a trabalhar em casa num momento, no escritório noutro, e no seu telemóvel num espaço público no seguinte, é fundamental que este consiga sempre a mesma experiência de conetividade sem que tenha de pensar no mesmo ou configurar definições para o conseguir. “Ter uma qualidade de experiência, políticas e segurança comum a todas estas redes é essencial. Cada vez mais, para o utilizador, a experiência tem de ser transparente independentemente da tecnologia de comunicação usada. A arquitetura de Wi-Fi e 5G tem se ser a mesma independentemente do local ou dispositivo”, explica André Rodrigues.

“Com o novo paradigma do nominado work from anywhere, a interconectividade entre dispositivos (pessoais e profissionais) irá desenvolver-se exponencialmente com o desenvolvimento e maturação das tecnologias 5G e Wi-Fi-6”, acrescenta ainda Carlos Cunha, Sales Director da Dynabook Portugal. “Estas tecnologias terão um enorme impacto no negócio das empresas, surgirão seguramente novos segmentos e modelos, especialmente com o desenvolvimento e disponibilidade do 5G”.

Boas-práticas na integração

Se há uma lição que vários anos de transformação digital trouxeram consigo é que, ao adotar uma nova solução tecnológica, deve haver sempre o cuidado de não o fazer como um simples add-on, tendo sempre em conta as infraestruturas, arquiteturas e processos envolvidos, sob o risco de, na melhor das hipóteses, não tomar devido proveito do seu potencial e, em último caso, introduzir problemas operacionais e de segurança. Exemplos disto não faltam: desde a analítica, que requer a total restruturação das infraestruturas de dados, ou aplicações de inteligência artificial, que sem uma estratégia de gestão e manutenção a longo prazo têm utilidade e longevidade extremamente limitadas, até à IoT, que em muitas empresas introduziu graves riscos de segurança.

As tecnologias wireless, naturalmente, não são exceção: para alcançar o seu potencial pleno, e garantir o retorno do investimento, a simples aquisição de equipamentos e endpoints não é suficiente.

“Deve ser posto um grande foco numa arquitetura end-to-end pensando em todos os pontos de conetividade e acesso”, alerta Paulo Coelho.

Outro fator a ter em consideração é, sem dúvida, a segurança. Consideramos aqui novos modos de acesso, a partir de diversos tipos de equipamentos, em ambientes cada vez mais complexos e dispersos, alargando e esbatendo os perímetros de segurança muito além da capacidade de resposta das soluções pensadas para ambientes tradicionais de escritório. Como tal, não só devem estas tecnologias – ou, mais corretamente, os modelos de networking que estas potenciam – ser acompanhadas por um conjunto se soluções de segurança adequadas às novas necessidades.

“Já não é possível proteger uma organização, as suas pessoas e dados, simplesmente implementando soluções ou processos de segurança num edifício, data center ou dispositivos dos utilizadores”, refere Francisco Teixeira, Partner Technology Manager da Microsoft Portugal. “A segurança tem que ser implementada ao nível de cada indivíduo, tendo sempre em conta que pode ou não se encontrar dentro da organização e da sua rede e que pode ou não utilizar um dispositivo da sua organização para aceder a informação de trabalho”.

“As empresas devem estar preparadas para o futuro. Não basta apenas evoluir a infraestrutura, descurando dos equipamentos que a ela se conectam, pelo que se deve evoluir num todo”, alerta também Carlos Assunção. Outro fator a ter em consideração, acrescenta André Rodrigues, Systems Engineer Leader & CTO da Cisco Portugal, é a necessidade de ter sempre em mente o caso de uso ao implementar estas tecnologias, e se, em suma, as ver como um meio e não um fim.

“O Wi-Fi 6 e 5G por si só não são nada. Se não compreendermos qual é o use case, quais são os objetivos da implementação, podemos gastar imenso dinheiro num projeto muito interessante, mas ao final do dia não o estamos a pôr ao serviço da organização”, alerta o responsável. “Temos de ter em mente qual é o nosso propósito: é maior mobilidade, melhor performance, novos serviços? Só aí é que podemos definir a tecnologia que queremos usar e como é que a vamos implementar para alcançar estes objetivos”.

Por último, conclui André Rodrigues, é essencial incorporar a tecnologia na rede existente, evitando a criação de silos, e com a premissa da segurança nascida de base.

5G: o estado (litigioso) da nação

O elefante em qualquer sala na qual se fale de 5G é, naturalmente, o forte atraso da sua implementação em Portugal, o qual, juntamente com a Lituânia, está entre os dois únicos países na União Europeia que não dispõe atualmente de qualquer oferta comercial 5G.

A fase principal do leilão para a atribuição de direitos de utilização de frequências nas faixas dos 700 MHz, 900 MHz, 1800 MHz, 2,1 GHz, 2,6 GHz e 3,6 GHz está a decorrer desde dia 14 de janeiro deste ano, e tinha originalmente data de conclusão planeada para o fim do primeiro trimestre. No entanto, acabou por se prolongar, tendo inclusivamente sofrido uma alteração no regulamento com o fim de acelerar o processo, tendo passado de seis para 12 rondas de licitação diárias. Até à data presente, já foram realizadas 700 rondas de licitação, resultantes num valor total de 407,115 milhões de euros, e o leilão continua sem fim à vista.

Em comunicado, a ANACOM atribui este atraso à abordagem conservadora dos licitantes, que recorrem sucessivamente a incrementos de preço mais reduzidos (na ordem do 1% a 3%), potenciando uma progressão mais lenta do processo, indicando que o valor atual teria sido alcançado em cinco dias se a evolução dos preços tivesse ocorrido com incrementos de 20%, ou em dez dias com incrementos de 10%, e indicando a possibilidade de alterar mais uma vez as regras de licitação para subir o limito mínimo destes incrementos por licitação.

As operadoras nacionais, por seu lado, atribuem este atraso às regras de licitação implementadas pela A ANACOM, falta de clareza das mesmas, ausência de um estudo aprofundado sobre os mecanismos aplicados com sucesso noutros países, alterações do regulamente no decorrer do processo e favorecimento de novos players pela não obrigação de investimentos em cobertura completa do país.

Na comissão parlamentar de Economia, Inovação, Obras Públicas e Habitação que decorreu a 16 de junho no âmbito da audição da entidade reguladora, João Cadete de Matos atribuiu estas críticas à renitência das operadoras em aceitar a entrada de concorrência no mercado.

Este crescente conflito resultou inclusivamente no pedido de afastamento do presidente da ANACOM, João Cadete de Matos, por parte de Alexandre Fonseca, presidente da Altice Portugal, processos jurídicos por parte da Vodafone e da NOS, à qual a Altice se promete juntar.

Face a estas acusações, a ANACOM afirma apenas que todas as regras aplicadas durante o leilão serão disponibilizadas ao público após a sua conclusão. Para quando esta está prevista é, no entanto, incerto, mas o consenso geral entre operadoras e players tecnológicos é que, com muito otimismo, os portugueses só começarão a dispor de 5G em 2022.

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