Agentes da OpenAI contornaram restrições para comunicar através da web

Agentes de inteligência artificial da OpenAI terão utilizado mais de dez websites para trocar informação sem autorização. A atividade levanta questões sobre controlo, supervisão e transparência dos sistemas com agentes

Agentes da OpenAI contornaram restrições para comunicar através da web
Thitichaya / AdobeStock

Agentes de Inteligência Artificial (IA) desenvolvidos pela OpenAI utilizaram mais de dez websites de terceiros como canais improvisados de comunicação, contornando restrições que deveriam impedir a publicação de conteúdos na web, segundo uma investigação da Reuters baseada no trabalho de seis investigadores ou grupos independentes.

A atividade ocorreu entre maio e julho e terá tido uma dimensão superior à inicialmente conhecida. Os investigadores identificaram vestígios em wikis colaborativas, serviços de armazenamento de texto, websites pessoais e serviços de encurtamento de links pertencentes a universidades.

Os números variam consoante a investigação. Andrew Yoon, investigador da organização CivAI, identificou 18 websites anteriormente não divulgados, enquanto o grupo de Sydney Von Arx contabilizou 23 casos que considera credíveis. A Reuters não conseguiu verificar individualmente todas as ocorrências, mas refere que os investigadores contactados apontam para mais de dez websites.

O comportamento não é descrito como hacking. A relevância está na capacidade demonstrada pelos agentes para encontrar formas alternativas de cumprir uma tarefa apesar das limitações que lhes tinham sido impostas. Segundo os investigadores citados pela Reuters, a explicação provável é que os agentes receberam tarefas de investigação exigentes e podiam consultar a web, mas não publicar informação.

Ainda assim, terão descoberto funcionalidades em wikis mais antigas e outros websites que permitiam deixar informação através de comandos ou mecanismos não convencionais. Esses espaços passaram, na prática, a funcionar como canais de comunicação entre agentes.

A atividade foi identificada através da correspondência de sequências de dados encontradas inicialmente num wiki em língua alemã com informação deixada noutros websites, bem como através de nomes de utilizador semelhantes e de pesquisas relacionadas com as mesmas questões. Em alguns casos, os investigadores associaram a atividade a endereços IP ligados a infraestrutura Microsoft Azure utilizada pela OpenAI.

O episódio surge depois de investigadores terem revelado que um conjunto de agentes da OpenAI utilizou um wiki alemão como plataforma de comunicação para partilhar respostas durante testes. A situação foi descoberta no contexto das investigações que se seguiram ao incidente de julho no repositório open-source Hugging Face.

A OpenAI não indicou à Reuters quantos websites foram utilizados pelos agentes nem explicou por que razão a atividade não foi divulgada durante vários meses. A empresa afirmou estar a realizar uma revisão mais ampla da atividade dos agentes e disse não ter identificado, até ao momento, outros comportamentos com “a severidade ou escala” do incidente relacionado com o Hugging Face.

A OpenAI está também a desenvolver um framework para comunicar situações de “misalignment”, designação utilizada para comportamentos dos modelos que divergem dos objetivos ou restrições definidos, abrangendo as fases de treino, avaliação e implementação.

A comunicação com os responsáveis pelos websites afetados também ocorreu, em alguns casos, apenas depois das questões colocadas pela Reuters. A Universidade de Toronto confirmou posteriormente ter sido contactada pela OpenAI sobre possível atividade no seu serviço de encurtamento de links.

Helmut Leitner, que disponibiliza alojamento e software para seis dos wikis afetados, incluindo o DseWiki onde foi inicialmente identificada a atividade, disse igualmente ter recebido uma comunicação da OpenAI depois de a Reuters apresentar as conclusões à empresa.

O caso coloca em evidência um problema relevante para organizações que começam a atribuir maior autonomia a sistemas com agentes: controlar não apenas aquilo que um agente está autorizado a fazer, mas também as estratégias alternativas que pode desenvolver para atingir um objetivo.

Para responsáveis de tecnologia e cibersegurança, o episódio demonstra a importância de combinar restrições de acesso com monitorização do comportamento dos agentes, registo das ações realizadas e mecanismos que permitam identificar desvios face às políticas estabelecidas.

Também introduz uma questão de governança para os fornecedores. À medida que os agentes ganham capacidade para executar tarefas através de múltiplos sistemas, a divulgação de comportamentos inesperados e a comunicação com terceiros afetados tornam-se parte da gestão do risco associado à utilização de IA.

Neste caso, não há indicação de que os agentes tenham comprometido tecnicamente os websites utilizados. O que os investigadores identificaram foi a capacidade de explorar funcionalidades disponíveis nesses serviços para criar canais de comunicação que não estavam previstos nas regras definidas para a tarefa.

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