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“A tecnologia não proporciona soluções mágicas”

Ensinar e aprender é uma atividade intrinsecamente humana. As tecnologias são instrumentos que complementam e ajudam a melhorar essa tarefa, tornando-a mais eficaz e mais rica. O grande desafio continua a ser o acesso universal aos meios digitais

“A tecnologia não proporciona soluções mágicas”

O setor da educação foi um dos mais afetados pela pandemia tendo, contudo, revelado uma capacidade de adaptação e de resiliência sem precedentes. Alunos e professores foram obrigados a deixar as suas zonas de conforto, e a embarcar numa aventura de aprendizagem remota, na qual a tecnologia teve um papel essencial. Sem estas ferramentas de apoio à comunicação à distância e ao ensino, a escola não teria sido capaz de manter-se em funcionamento, prejudicando mais ainda a população escolar.

O primeiro grande desafio foi, na opinião de Rita Miguel, a reação a uma crise inesperada que “obrigou a passar do tradicional ensino presencial para um ensino remoto”. Mas, ultrapassada a primeira onda de choque, “multiplicaram- se os exemplos práticos de como a tecnologia poderá ser utilizada para apoiar a educação”, diz a diretora de marketing, comunicação e cidadania da IBM Portugal. “O que todos aprenderam ao longo desse processo vai seguramente influenciar o futuro próximo da educação, tornando-a mais flexível, inclusiva, autónoma e personalizada”, complementa Rui Grilo, diretor de educação da Microsoft Western Europe.

Já Pedro Coelho, lead de computação pessoal na HP Portugal, acredita que “o período pandémico criou uma janela única de oportunidade para repensar a educação”. Na sua opinião, a pandemia veio reforçar que o ensino e a aprendizagem não devem ocorrer apenas no espaço físico da escola. “Foi possível verificar que o ensino à distância pode complementar o ensino presencial, e que a tecnologia pode potenciar, em ambas as modalidades, um conjunto de experiências que enriquecem os contextos de ensino e aprendizagem”, reforça.

A comprovar esta ideia, o estudo YouGov Teacher, apoiado pela Microsoft, revela que 83% dos professores sente que a aprendizagem não está limitada por uma hora e local específicos. A mesma pesquisa revelou ainda que 71% dos professores sente que a tecnologia ajudou a capacitá-los em formas que melhoram o ensino e as suas capacidades, e que 82% considera que o último ano acelerou o ritmo no qual a tecnologia impulsionou a inovação no ensino e na aprendizagem. Contudo, como alerta David Justino, professor catedrático na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, “a tecnologia não nos proporciona soluções mágicas”. Para o também ex-ministro da educação, a tecnologia é um instrumento decisivo para melhorar as aprendizagens, mas o fundamental do processo de ensino terá de continuar a basear-se “numa relação humana rica, entre alunos e professores, e em ambientes estimulantes de aprendizagem”. Com novos instrumentos, reforça, não é possível continuar a ensinar da mesma maneira. “É urgente pensar em novas abordagens pedagógicas de forma a permitir que todos os alunos possam usufruir das mesmas oportunidades de aprendizagem”. Uma opinião partilhada por Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), que recorda a importância do acesso universal aos meios informáticos, plataformas digitais e rede de Internet. “Estes são alguns dos objetivos, mas também desafios, para o pós-pandemia”.

Aprender com as lições da pandemia

Aproveitar as aprendizagens que o período pandémico permitiu reunir para potenciar e tirar maior partido das tecnologias enquanto ferramentas no processo educativo são, para Pedro Coelho, lições a reter e a não esquecer. “Só assim podemos continuar a evoluir na adoção de novas (ou reformuladas) estratégias de ensino, potenciadas pela tecnologia, seja em sala de aula ou assumindo a casa e outros espaços exteriores como uma extensão natural da Escola”. Rui Grilo acrescenta: “O que todos aprenderam ao longo desse processo vai seguramente influenciar o futuro próximo da educação, tornando-a mais flexível, inclusiva, autónoma e personalizada”. O responsável da Microsoft defende que a tecnologia é fundamental porque torna possível ensinar de forma diferente, utilizando recursos que não existiriam sem estas ferramentas. E exemplifica: “a quantidade de recursos educativos digitais que estão disponíveis permite que, com a orientação do professor, os alunos possam explorar de forma autónoma novos conteúdos, utilizando depois o tempo em aula para explorar as aplicações desses conceitos”.

Menos otimista, David Justino acredita que o stock de conteúdos educacionais continua a ser muito reduzido. “Nestes domínios seria bom que olhássemos com atenção para a necessidade de apetrecharmos as escolas com esses instrumentos, que tanto poderão ajudar no ensino à distância como no presencial”. Para o professor há, no entanto, outros ensinamentos a retirar desta situação. “A infraestrutura tecnológica estava obsoleta, a disponibilidade de computadores era limitada, e a desigualdade de acesso acabou por marcar diferenças substanciais”.

Na opinião de Filinto Lima, não fosse a resiliência demonstrada pela comunidade educativa - alunos, professores/educadores, pessoal não docente, pais e encarregados de educação… -, as carências e as desigualdades entre alunos teriam sido ainda mais evidentes. “A solidariedade, através da disponibilização de material digital e rede Wi-Fi para todos os discentes, ou a entrega de cabazes alimentares e outros bens essenciais, foram das lições mais importantes que a pandemia concedeu à educação”, diz o presidente da ANDAEP. Já do lado institucional, Filinto Lima critica as decisões governamentais, “manifestamente remediativas e pouco antecipatórias”. Como exemplo, o professor destaca a decisão reativa do Governo ao anunciar a universalização do acesso e utilização de recursos didáticos e educativos digitais por todos os alunos e docentes, uma promessa que, acredita, será cumprida somente no próximo ano letivo.

Precisamente com o objetivo de reduzir as desigualdades, Rita Miguel destaca a importância da estratégia europeia que pretende dotar 80% dos europeus de competências digitais ao longo da próxima década. Uma meta que, por cá, conta com a ajuda do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) que, para a Educação Digital e a promoção da inovação educativa e pedagógica, conta com um orçamento de 559 milhões de euros. “O desenvolvimento das competências digitais, a sua integração transversal nas diferentes áreas curriculares, e a modernização do sistema educativo, com vista ao desenvolvimento de competências em tecnologias digitais, é um dos objetivos do PRR”, salienta a diretora de marketing da IBM.

Equilíbrio digital é um dos desafios

Aproveitar a motivação e o interesse que a utilização das tecnologias e das ferramentas digitais promove junto dos alunos será um dos desafios do pós-pandemia. “O grande desafio que se coloca hoje a professores, alunos e famílias é perceber como continuar a tirar partido destes novos recursos com os quais ganharam familiaridade durante a pandemia”, aponta Rui Grilo. Filinto Lima é mais cauteloso. O responsável da ANDAEP acredita que estes recursos devem integrados nas aulas, “mas apenas por decisão ponderada do professor, tendo em conta a matéria a lecionar, o projeto a empreender, o trabalho a apresentar e a turma em causa”. O professor alerta para o perigo de acreditar que a utilização destas ferramentas é sempre vantajosa, uma vez que isto não acontece em todos os contextos. David Justino concorda e defende a importância de generalizar o uso das TIC em sala de aula. Mas, para que seja eficaz, “é preciso inovar ao nível da pedagogia, da produção e conteúdos e da integração das diferentes soluções em ‘packages’ multifuncionais”, acrescenta.

A personalização e centralidade do aluno é, na opinião de Pedro Coelho, uma das possibilidades desta inovação e mudança. “A tecnologia continua a ser um meio para uma educação mais completa, mais rica e centrada no aluno”. Na sala de aula, defende, a tecnologia, na forma de computadores pessoais, quadros interativos ou outros equipamentos e soluções de colaboração, “permitirão ao professor reinventar as suas metodologias de ensino ou a adoção de atividades que irão estimular que cada aluno faça o seu caminho de aprendizagem, ao seu ritmo, em interação com recursos digitais que o professor selecionará previamente”.

Mas o equilíbrio no recurso à tecnologia aplica- se também quando o tema é o ensino à distância. Para o ex-ministro da educação, este modelo pode ser uma boa solução como complemento do ensino presencial, “mas torna-se mais valioso em situações especiais”, destaca. Por exemplo, na educação de adultos, permitindo o acesso ao ensino a partir de casa, na utilização por parte de populações itinerantes, ou em locais com dificuldade de acesso à escola.

Já Filinto Lima recorda que a escola é um ‘elevador social’ que, quando movido com recurso ao não presencial “sobe muito lentamente para alguns, e desce (de forma abrupta) diversos patamares para outros, principalmente para aqueles alunos sem retaguarda familiar ou condições socioeconómicas estáveis”. É por isso que o presidente da ANDAEP defende a utilização do ensino remoto apenas em situações pontuais, de emergência, como aconteceu durante a pandemia. No entanto, acredita que as competências digitais desenvolvidas à distância por força da pandemia deverão ser rentabilizadas “ao serviço do processo de ensino-aprendizagem, pelo contributo que podem acrescentar para potencializar oportunidades de progressos na procura e aquisição de conhecimentos e saberes”. Rita Miguel partilha de opinião semelhante. “O ensino à distância e as potencialidades das ferramentas tecnológicas que o suportam, não se esgotam nesta opção entre presencial e remoto”, diz. A inovação educativa e pedagógica - possível através do desenvolvimento de competências em tecnologias digitais -, bem como os efeitos positivos ao nível do sucesso escolar e do abandono escolar precoce, são disso exemplo, defende a responsável de comunicação da IBM Portugal. “Diria que o futuro da educação assentará numa estreita articulação entre diferentes metodologias de ensino, com uma forte componente de trabalho prático e colaborativo, sendo fundamental assegurar uma maior proximidade entre aquilo que é ensinado (e o que os alunos aprendem), e as competências que o mercado de trabalho necessita e procura”, reforça.

Numa perspetiva puramente tecnológica, mas igualmente importante, Vasco Sousa destaca a importância do armazenamento de dados, que considera um dos grandes desafios do presente e do futuro. “Fruto da adoção de novos formatos de conteúdos nas escolas, nomeadamente de imagens e de vídeos, o ritmo de crescimento de dados é exponencial e levanta várias questões”. Para o channel account manager da StorageCraft, empresa especializada em soluções de armazenamento e cloud, as principais [questões] passam por saber como, onde e durante quanto tempo será necessário armazenar estes dados, ou se o arquivo histórico deverá passar de imediato para a cloud, mantendo apenas os dados mais recentes dentro de portas. A par com a segurança, a escalabilidade dos dados são temas que tendem agora a entrar em todos os setores, de forma transversal. E a educação não é exceção. “Hoje já tomamos por adquirido que as ferramentas de colaboração assentem em modelos cloud, pela simplicidade e rapidez de utilização, mas o mesmo não se aplica ao tema da salvaguarda de dados”, salienta o responsável da Storage Craft que, recorda que a responsabilidade de salvaguarda e cópias de segurança de longa duração dos dados em plataformas colaborativas como o Office 365 ou o Google Workspace é dos utilizadores. “E cabe-lhes a eles assegurar que têm ferramentas para realizar essas cópias de segurança de forma regular, até pelo seu valor ao nível da propriedade intelectual”, reforça.

IA, realidade aumentada, IoT e 5G na escola

Serão a qualidade do ar ou a temperatura fatores determinantes para a atenção dos alunos? Como nos podemos adaptar às caraterísticas pessoais de cada aluno quando aprende? Será possível prevenir o abandono e aumentar o sucesso e a motivação com recomendações personalizadas para cada aluno? A resposta a estas questões pode, já hoje, ser dada com o apoio de tecnologias exponenciais como a Inteligência Artificial (IA) e está longe de ser ficção científica. Por exemplo, a Microsoft está a trabalhar num projeto piloto com a Cidade de Helsínquia precisamente para otimizar o processo educativo utilizando IA e “Learning Analytics” para melhorar o ensino.

Também por cá, a IA já está presente, discretamente, quando pedimos ao telefone para traçar a rota para o destino, ou quando vemos a tradução automática de um sítio Internet. E na escola, refere Rui Grilo, também é possível recorrer a esta e outras tecnologias. E exemplifica: “ao utilizar plataformas educativas como o Microsoft 365 na sala de aula, ao equipar os espaços físicos da escola com dispositivos IoT inteligentes, e ao garantir um acesso permanente de qualidade à Internet (com uma ligação 5G ou outra tecnologia), estamos a gerar dados sem precedentes sobre o processo educativo”. De forma ética e responsável, acrescenta o diretor de educação da Microsoft, é possível tirar partido da IA para descobrir padrões que, até agora, são invisíveis para quem ensina.

Rui Grilo defende também a inclusão da IA nos currículos das escolas e universidades, em todas as áreas, “para preparar esta geração para um mundo no qual os computadores se programam a si próprios”. Só assim, acredita, será possível preparar essa geração para os empregos que ainda não foram inventados, mas nos quais muitos trabalharão.

Na perspetiva de Pedro Coelho, iremos igualmente assistir à exploração de novas tecnologias que, além de interativas, são também imersivas, como a Realidade Aumentada ou Realidade Virtual, e que permitem experienciar situações e conteúdos que, de outra forma, se limitariam a uma página de um livro e que dificilmente seriam assimilados pelos alunos. “A Realidade Aumentada pode tornar numa experiência um simples conteúdo”, completa Rui Grilo.

Rita Miguel vai ainda mais longe. “A nanotecnologia, a inteligência artificial, a Internet das Coisas, as ciências da computação, a automação e robótica fornecem múltiplas soluções para os problemas atuais da sociedade e são aplicáveis em vários setores como a indústria, a saúde, ou a banca, pelo que constituem uma oportunidade única ao nível da educação e formação, mas também ao nível profissional”. A diretora de comunicação e marketing acredita que é fundamental promover, desde cedo, o interesse e a exposição dos estudantes a profissões ligadas a áreas mais tecnológicas, com vista a contribuir de forma eficaz para um aumento da empregabilidade. No entanto, para tal, continua a ser necessário dar o primeiro passo: garantir um acesso universal aos equipamentos, rede e ferramentas tecnológicas. A este nível, defende Rita Miguel, a colaboração entre entidades dos setores público e privado terá um papel chave.

Voltando a referir-se ao PRR, a responsável da IBM aponta a reforma da educação digital, com vista a reduzir as desigualdades sociais e educativas no acesso ao mundo digital, como essencial para atingir estes objetivos. “Garantindo o acesso de todos ao uso das tecnologias e a ferramentas que contribuam para o desenvolvimento de competências digitais, estaremos a contribuir para diminuir os riscos de exclusão e as desvantagens nos processos de aprendizagem, numa ótica de equidade e inclusão”. Contudo, alerta, isto só será possível se todos os participantes neste ecossistema - empresas, setor público, organizações do setor educativo, sociedade – forem capazes de trabalhar em conjunto e assegurar as condições necessárias para que os projetos e ferramentas educativas estejam acessíveis a todos. “Este é certamente o caminho para a educação do futuro”, conclui.

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