A maioria dos governos (80%) inquiridos no âmbito do estudo da Gartner admite recorrer a agentes de IA até 2028. A automação de decisões exige novos modelos de governação e foco na transparência
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Pelo menos 80% dos governos vão implementar agentes de Inteligência Artificial (IA) para automatizar decisões do dia-a-dia até 2028, segundo previsões da Gartner. O objetivo passa por aumentar a eficiência operacional e melhorar a prestação de serviços públicos. A consultora indica que os CIO enfrentam pressão crescente para integrar IA nos processos de decisão de forma rápida, mas também responsável. A evolução de tecnologias como IA multimodal, sistemas conversacionais e agentes autónomos está a expandir as capacidades de automação e análise nas organizações públicas. Apesar deste avanço, persistem desafios estruturais. Um inquérito da Gartner, realizado entre julho e setembro de 2025 junto de 138 organizações governamentais, aponta para estratégias fragmentadas, com 41%, e sistemas legacy, com 31%, como os principais obstáculos à adoção de soluções digitais. Neste contexto, a Gartner defende uma mudança no modelo de governação da IA. Em vez de se focarem apenas em modelos, dados e algoritmos, as organizações devem evoluir para uma abordagem centrada na decisão, conceito designado por Decision Intelligence (DI). Esta abordagem implica governar todo o ciclo de decisão, desde o desenho à execução, monitorização e auditoria, com especial relevância no setor público, onde a transparência e a equidade são fatores críticos. Segundo o estudo, 39% das organizações indicam a melhoria dos serviços e da satisfação dos cidadãos como principal motivação para investir na confiança digital. A DI surge como base estrutural para tornar os processos de decisão mais transparentes e auditáveis. A necessidade de explicabilidade está também a ganhar relevância. A Gartner prevê que, até 2029, 70% das agências governamentais exijam mecanismos de Explainable AI e human-in-the-loop em todas as decisões automatizadas com impacto nos cidadãos. Estas abordagens permitem inspecionar, explicar e contestar decisões, mantendo intervenção humana em casos críticos. A experiência do cidadão assume igualmente um papel central, com cerca de 50% dos inquiridos a identificarem a melhoria da experiência como uma das três principais prioridades. Com a automação crescente, a interação direta com serviços públicos tende a diminuir, tornando a confiança nos sistemas digitais um fator determinante. Neste cenário, a DI permite às organizações públicas evoluir de modelos reativos para abordagens proativas e personalizadas, antecipando necessidades e melhorando a consistência dos serviços. Daniel Nieto, senior director analyst da Gartner, afirma que a adoção de IA na administração pública exige equilíbrio entre automação e supervisão humana, especialmente em decisões com impacto direto nos cidadãos. O relatório conclui que a transformação digital no setor público dependerá da capacidade de alinhar inovação tecnológica com modelos de governação robustos, garantindo transparência, responsabilidade e confiança na utilização de inteligência artificial. |