“A capacitação do país é a melhor forma de andar para a frente”

Sem conhecimento e sem valor acrescentado, o mercado nacional não será competitivo. Miguel Almeida, diretor-geral da Cisco Portugal, acredita que a capacitação que as academias de network da multinacional fazem, e continuarão a fazer, a diferença no desenvolvimento do talento em Portugal e no mundo

“A capacitação do país é a melhor forma de andar para a frente”

O pequeno país mais ocidental da Europa tem uma importância de peso no negócio global da Cisco. O escritório é o terceiro maior da Europa, emprega 1.100 pessoas, e foca o seu trabalho diário em projetos de valor acrescentado, para o país, e para a atividade global da multinacional.

Em conversa com a IT Insight, Miguel Almeida, diretor-geral da Cisco Portugal, há 17 anos na empresa, revelou as áreas prioritárias para o negócio em terras lusas, o reforço da aposta na criação e desenvolvimento de talento através das Academias Cisco, e deixou algumas mensagens de encorajamento aos gestores que ainda estão a percorrer o caminho da transformação digital.

Qual o posicionamento da Cisco em Portugal?

A Cisco tem três momentos de investimento em Portugal: um em 1995, com a abertura do escritório, um em 2008, com um projeto internacional que ganhámos com a abertura do Hercules Project, e um em 2019, com a abertura de um Customer Experience Center em Portugal. Somos hoje uma empresa grande em território nacional, com 1.100 colaboradores, que falam 24 línguas diferentes, dos quais 44% são mulheres, o que significa que vivemos o tema da diversidade de forma muito séria.

Em Portugal, não somos apenas uma operação de vendas, somos também uma operação do life cycle do cliente: durante a instalação, durante a adoção dos produtos, e durante os anos da sua utilização dos produtos. Ou seja, além de vendermos os nossos produtos e software – a Cisco está a fazer uma grande transformação do negócio, do hardware puro para a área de software –, reportamos à volta de 35% das nossas vendas na área de software. A Cisco Portugal é o terceiro maior escritório europeu, uma dimensão muito apetecível que atrai muito investimento internacional. Obviamente, a nossa perspetiva é continuar a crescer

Quais as áreas críticas para o negócio da Cisco em Portugal? 

Temos três áreas que são críticas: a questão do trabalho híbrido, que é uma tendência de mercado, a segurança, e a transformação das redes. Na vertente do trabalho híbrido, encontramos hoje os clientes com maior apetência pelo tema. Na Cisco já vivíamos esta realidade antes da pandemia, mas para grande parte dos clientes este não era o cenário do dia-a-dia. Acreditamos que o futuro é o trabalho híbrido, ou seja, estar uns dias no escritório, estar uns dias em casa, trabalhar no café, seja o que for. E, obviamente, o trabalho híbrido está intimamente ligado à vertente da segurança. Todas estas vicissitudes obrigam as pessoas a pensar na segurança de uma forma diferente. Depois, há um outro ponto que também é crítico, e que tem a ver com a transformação das redes. Há muitas coisas que se estão a transformar, porque hoje as redes têm de ser preditivas e ter uma automação muito maior que antes. Portanto, diria que estes três pilares são muito críticos para nós.

Estes três pilares são mais críticos em Portugal ou é uma tendência na Cisco de forma global?

Não, é uma tendência global. O que fazemos é agarrar as tendências globais, adaptar aos mercados, e vemos aquilo que nos traz mais valor.

Nesse aspeto, Portugal é um mercado típico ou atípico?

O mercado português é muito inovativo, há muitas soluções que vendemos primeiro em Portugal, a questão é que não é um mercado de dimensão. Isto é, nem de dimensão financeira, nem de dimensão do próprio mercado. Mas é muito bom para a Cisco quando vendemos algo nesta dimensão, porque se funciona em Portugal, então vai funcionar nos outros sítios. Acaba por ser um mercado de referência.

Como está a crescer o mercado do trabalho híbrido, e que desafios identificam nas empresas portuguesas?

Acho que é um mercado que está a crescer exponencialmente. Vimos que durante a pandemia tínhamos trabalho remoto, 99% do trabalho era feito em casa, e num ambiente montado em casa. Agora, já não é apenas em casa, podemos andar a trabalhar por vários locais diferentes. No entanto, as exigências das aplicações, da rede, ou dos dispositivos, são exatamente as mesmas.

É algo que tem vindo a crescer e acreditamos que isto não é apenas problema da tecnologia. Claro que a tecnologia tem de responder e já falámos até numa aplicação de vídeo, numa aplicação de colaboração, e na questão da segurança. A questão da segurança, por exemplo, é muito crítica porque estamos a ligar-nos a diversas redes Wi-Fi.

Mas há um ponto muito importante que tem a ver com a cultura da organização. Isto é, o trabalho híbrido não é só a tecnologia, porque esta, mal ou bem, vai resolver os problemas que possa haver. Mas se a minha organização tiver uma cultura de rigidez que obriga as pessoas a ir ao escritório, então é um problema que nem se coloca.

“Há certas funções que não requerem a presença no escritório. Acho que as pessoas que têm esse tipo de funções devem perceber a necessidade, também dentro daquilo que é a cultura e a saúde mental. Ou seja, não acho que a divisão se deva fazer por verticais, mas sim por funções”

 

Portanto, acaba por haver duas visões do que é o trabalho híbrido, e isto em Portugal às vezes é difícil. Para uma empresa como nós, é muito fácil, já o era antes da pandemia, mas muitas empresas não funcionavam assim. Esta é uma aculturação que as pessoas têm de agarrar, mas uma coisa é certa: acho que é impossível voltarmos ao trabalho remoto ou ao trabalho 99% no escritório. Agora, nas nossas entrevistas de emprego perguntam- -nos sempre se precisam de vir ao escritório todos os dias.

Além de ter a coisa boa da pessoa poder gerir um bocado melhor a sua vida, também é importante perceber que vivemos uma economia de escassez de talento. Ou seja, o trabalho híbrido é hoje uma arma muito importante para conseguirmos recrutar.

Há dois anos, por exemplo, tínhamos as pessoas quase todas concentradas em Lisboa e todas vinham ao escritório, mesmo que não fosse todos os dias. Atualmente, estamos a recrutar pessoas no Norte e nas ilhas, por exemplo. 

Na sua visão, é uma tendência igual em todos os setores?

Não. Veja-se, por exemplo, a questão da indústria em que devido às linhas de montagem e etc., há muita gente que tem de estar a trabalhar presencialmente. É normal que as pessoas que estejam na área de suporte à indústria também sintam que têm de ir ao escritório. 

Mas, realmente, há certas funções que não requerem a presença no escritório. Acho que as pessoas que têm esse tipo de funções devem perceber a necessidade, também dentro daquilo que é a cultura e a saúde mental. Ou seja, não acho que a divisão se deva fazer por verticais, mas sim por funções, que é o que fazemos aqui.

Quando abordada por empresas a propósito do trabalho híbrido, que tipo de respostas dá a Cisco?

Acho que, em primeiro lugar, as empresas têm que perceber como é que recriam o seu ambiente de segurança com uma pessoa que não está dentro do escritório. Portanto, não é apenas a questão do dispositivo, embora isso também seja importante.

Isto é, como é que garanto a segurança do meu dispositivo, como é que garanto a segurança da ligação de casa até à empresa, e como é que garanto que este ecossistema não prejudica a aplicação A ou B que estou a usar. Portanto, este modelo de disponibilização de aplicações e segurança das mesmas é hoje o driver deste paradigma. 

A segurança é a principal preocupação das empresas?

Sim, porque a segurança hoje é infraestrutura. Essa também é a grande mudança. Antigamente, a segurança era uma parte do vertical de IT, mas hoje é tudo. Isto tem tudo a ver com a forma como nos ligamos às redes. Ou seja, se me ligo a um Wi-Fi de um operador, mas depois entro na rede que tenho noutro sítio qualquer, o mecanismo de segurança não pode ir só no PC ou na entrada, tem de haver outros mecanismos a controlar a coisa. Portanto, concordo a 100% que, neste momento, a segurança é a coisa mais importante que temos no que diz respeito ao trabalho híbrido. 

As empresas têm estado a adaptar-se bem ao facto de a rede já não ser uma entidade estática, mas sim dinâmica? Até que ponto é que um cenário de trabalho híbrido também não é potenciado pela evolução da flexibilidade do lado da rede?

Claro que sim. Houve uma evolução muito grande na questão das redes durante os últimos anos e, realmente, agora não podemos olhar para as redes como algo que fica 20 anos a trabalhar da mesma forma. As redes têm de se adaptar a duas coisas críticas: às aplicações, porque todos os clientes querem otimizar as suas aplicações e a rede tem de responder a isto, e a questão da automação.

Estou aqui há 17 anos e quando vim para cá, os engenheiros eram inacreditáveis, tinham de trabalhar horas e mexer nas redes todas. Atualmente, as coisas já não são assim, porque a automação veio trazer capacidade de adaptação rápida a alterações.

Aliás, quando ligamos isto à inteligência artificial, ao machine learning e etc., as redes têm de estar preparadas para responder a isto imediatamente, e não para ter 40 engenheiros a configurar e mudar redes. É engraçado que não é uma alteração que tenha chegado agora, já vem de antes, mas as empresas agora, e até com a transição para modelos cloud, têm uma visão muito clara de que é preciso acelerar fortemente este caminho. 

Estamos a falar do cenário empresarial, mas tradicionalmente a Cisco tem sido muito forte do lado dos operadores. Também notam essas transformações nos operadores e que impactos tem?

Obviamente que sim. Há aqui um ponto importantíssimo a que as pessoas, por vezes, não dão o devido valor: a digitalização de processos não é só um processo tecnológico, nada se faz sem as pessoas. Mas o ponto é que, enquanto empresa, podia alterar todo o meu digital, mas quando quero conversar com os meus clientes ou vender algo, não há outra coisa que não seja uma rede.

 


Houve uma aceleração muito grande do digital que, antigamente, costumava ser apenas um braço, mas hoje é o corpo. Realmente, há aqui uma importância muito grande do digital e do CTO em todas as organizações


 

Na minha opinião, os operadores em Portugal têm feito um trabalho muito bom neste aspeto. Não apenas na área do consumo, mas mesmo na área empresarial, os tipos de redes que estão a montar para responder às necessidades do mundo empresarial, são incríveis. Acho que na transformação digital que o país está a fazer, há uma quota parte muito importante de responsabilidade dos operadores. Basta ver o investimento enorme que estão a fazer com o 5G. Realmente, os operadores em Portugal ajudam a levar o país para a frente, e acho que isso é mesmo muito importante. 

Tradicionalmente, a Cisco também tem estado ligada às escolas e à área da administração pública. Essas áreas também têm sido reforçadas com estas exigências que surgiram na pandemia?

Sim, claro que sim. Nesse contexto, há duas áreas muito importantes para nós: as nossas academias, chamam-se network academies, para formar as pessoas que possam vir para o mercado de trabalho, e também a tratar da questão do upskilling. Aliás, esta semana fizemos 25 anos deste programa, e isto é mesmo muito importante para nós, porque acreditamos que a capacitação do país é a melhor forma de o levarmos para a frente.

Em termos da educação propriamente dita, temos uma rede muito grande no Ministério da Educação, temos muitas universidades que trabalham com a Cisco há muitos anos e, de facto, as necessidades que existem hoje nada têm a ver com as que existiam há dez anos. Os miúdos, atualmente, têm múltiplos dispositivos, há uma dinâmica muito grande em termos de conteúdos. Por exemplo, tenho filhos na universidade que vêm vídeos no YouTube sobre a matéria, ou seja, já não é apenas ler livros. É muito importante que as universidades e as escolas tenham esta capacidade de dar aos seus alunos esta infraestrutura. 

Anunciaram recentemente o objetivo de formar 25 milhões de pessoas em dez anos, em todo o mundo. Desses 25 milhões, quantas tencionam formar em Portugal?

A grande questão é que não olhamos as academias apenas na área do público, mas também olhamos para a área privada. Por exemplo, há muitas empresas que recorrem às academias para dar formação em segurança aos seus colaboradores, há muita gente a recorrer a isto. A capacitação é a única forma de crescermos. Infelizmente, ou felizmente, temos a dimensão que temos, e quanto mais nos especializarmos em coisas de valor alto, melhor vai ser para Portugal. O que queremos é criar impacto na sociedade em geral, através do conhecimento. 

Na sua opinião, quais seriam as prioridades para os gestores no próximo ano, tendo em conta todas as incertezas e desafios que enfrentaremos?

Já trabalho neste mercado há mais de 20 anos, mas a grande coisa atualmente é não haver pessoa mais importante na definição de uma estratégia de negócio do que o CTO (Chief Technology Officer). O negócio hoje é impossível de fazer sem tecnologia.

Houve uma aceleração muito grande do digital que, antigamente, costumava ser apenas um braço, mas hoje é o corpo. Realmente, há aqui uma importância muito grande do digital e do CTO em todas as organizações. O que diria é que não há que ter vergonha. Há que assumir que a tecnologia é importante, que é a base do negócio, e que temos de conseguir ter estas conversas com o CEO, com o CFO, seja com quem for. Temos de subir na cadeia de valor de todas as organizações, não há negócio que se faça sem tecnologia, e o que precisamos é de definir budgets que respondam às necessidades do negócio. Diria que um sentimento de afirmação e coragem, é um ponto mesmo muito importante.

Depois, há uma segunda coisa que defendemos na Cisco e que tem a ver com a diversidade. Isto é, ouvir ideias e pessoas muito diferentes de nós. É muito importante que nas organizações possamos ouvir pessoas diferentes de nós, porque estamos habituados a trabalhar da mesma forma e a ouvir as mesmas coisas. A inovação é estas duas coisas: termos a coragem de nos afirmarmos como pessoas de negócio e termos a capacidade de ouvirmos pessoas diferentes. 

Outubro é o mês da segurança: estão a promover algumas iniciativas junto do mercado empresarial?

Sim, temos estado em muitos eventos internos e externos. Olhamos para a segurança como um processo, não é apenas a tecnologia, e achamos que a segurança é muito das pessoas e a tecnologia ajuda-as a cumprir o desígnio da segurança. 

Acho, por exemplo, que é um grande desafio colocar as questões de IT e especialmente de segurança, às crianças. Temos de as educar para estas questões e isto tem de começar logo nas escolas.

 

“Se pararmos uma rede de produção de uma fábrica grande, leva pelo menos dois dias para recuperar o ritmo normal, e isso é logo um prejuízo gigante”

Temos de pensar que a questão dos cibercriminosos, por exemplo, já não tem nada a ver com pessoas curiosas. Tem a ver com uma de duas coisas: ou são pessoas que querem ganhar dinheiro, ou são pessoas que, por alguma razão, querem chatear um Estado ou uma entidade.

Devo dizer que há muitos ataques em Portugal, há muitas empresas atacadas e que até acabam por pagar e não dizem nada. Apesar de se ter criado um grande awareness com todos os ataques que têm acontecido, os budgets de segurança das empresas ainda não são suficientes. 

As empresas mais pequenas, que constituem o grosso do tecido empresarial nacional, são as que ainda têm mais trabalho pela frente nesse sentido?

É formação, é necessária formação. E não é formação de segurança pela tecnologia, é formação da segurança do modo de viver. Qualquer empresa, por mais pequena que seja, se tiver um negócio online, tem de ter uma enorme preocupação com a segurança.

Na área industrial, por exemplo, a segurança é muito crítica. Se pararmos uma rede de produção de uma fábrica grande, leva pelo menos dois dias para recuperar o ritmo normal, e isso é logo um prejuízo gigante.

Este ponto é de educação e é verdadeiramente prioritário. E acho que aí o Centro Nacional de Cibersegurança tem investido muito no lado da educação. 

Também têm sentido o impacto desta disrupção das cadeias de abastecimento?

Não somos uma ilha no mundo, obviamente que sim. Tem causado algum atraso na aceleração digital dos clientes, não apenas no fabrico, mas também na logística. Existe a questão das cadeias de abastecimento e depois a questão da logística.

Se olharmos hoje, a nível mundial, há muito menos barcos a viajar do que havia antes da pandemia e isso, obviamente, tem impacto. Depois, há também a questão dos microprocessadores e etc.

O que é engraçado perceber, é que a indústria que mais consumia este tipo de material, se calhar não é a mais impactada. Isto não é apenas um problema das empresas de IT, é um problema generalizado.

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