Um estudo da BCG antecipa uma desaceleração do crescimento das receitas globais de pagamentos até 2029, num setor que está a ser reconfigurado pela IA em agência, pelas moedas digitais e pelos pagamentos em tempo real, também em Portugal
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O setor global dos pagamentos deverá entrar numa nova fase de crescimento mais lento nos próximos anos, apesar da continuidade da inovação tecnológica. De acordo com o estudo Global Payments Report 2025: The Future is (Anything but) Stable, da Boston Consulting Group (BCG), as receitas mundiais de pagamentos devem atingir 2,4 biliões de dólares até 2029, mas a taxa de crescimento anual deve abrandar de 8,8% para cerca de 4%. O relatório, baseado no Modelo Global de Pagamentos da BCG e em previsões para mais de 60 economias, identifica uma reconfiguração estrutural do setor, impulsionada por tecnologias como a IA em agência, os pagamentos em tempo real entre contas (A2A) e a emergência de novos modelos de negócio no ecossistema fintech. Apesar da desaceleração global, as receitas baseadas em transações devem manter-se resilientes, de acordo com o documento. O crescimento da utilização de cartões, a expansão dos pagamentos instantâneos e a evolução do comércio eletrónico continuam a sustentar a atividade, num contexto em que as margens associadas a depósitos tendem a perder peso. Dinâmica regionalA nível regional, a América Latina lidera o crescimento das receitas, com uma taxa média anual de 7,9% entre 2024 e 2029, seguida do Médio Oriente e de África, com 6,8%. Na Europa, o crescimento estimado situa-se nos 3,5%, em linha com a América do Norte, com 3,4%, e com a região da Ásia-Pacífico, com 3,3%. Portugal acompanha esta tendência de desaceleração. A BCG estima que o crescimento anual das receitas de pagamentos no país abrande para 1,8% até 2029, o que reflete receitas mais fracas associadas a depósitos. Ainda assim, as receitas baseadas em transações devem manter-se estáveis, apoiadas pelo aumento das compras online e pela adoção contínua de pagamentos instantâneos, cuja conveniência e rapidez são cada vez mais valorizadas pelos consumidores. Tendências emergentesSegundo a consultora, o setor está a entrar numa fase decisiva, marcada pela convergência entre bancos, fintechs e grandes plataformas tecnológicas. A integração da inteligência artificial nos sistemas de pagamento, a maior utilização de stablecoins e a consolidação de infraestruturas de pagamentos em tempo real estão a redesenhar as cadeias de valor. Pedro Pereira, managing diretor e senior partner da BCG em Lisboa, afirma que “este é um ponto de viragem para o setor dos pagamentos”, e sublinha que apenas as organizações capazes de integrar rapidamente inteligência artificial, moedas programáveis e inovação tecnológica nos seus modelos de negócio e operacionais conseguirão sustentar o crescimento no médio prazo. Entre as principais tendências identificadas no relatório estão a crescente influência da IA em agência na tomada de decisões de consumo, o aumento da utilização de stablecoins, que movimentaram cerca de 26 biliões de dólares em 2024, o crescimento acelerado das fintechs de pagamentos e a expansão dos pagamentos A2A, cujo volume global aumentou 40% no último ano. A eficiência de custos surge igualmente como um fator crítico, com potencial para reforçar margens operacionais num contexto de maior pressão sobre o crescimento. |