Entre a pressão provocada pela inteligência artificial, a proliferação do shadow IT e a evolução dos modelos de licenciamento, a Vieira de Castro está a reposicionar a função de IT como um motor de transformação do negócio. A estratégia passa por combinar inovação, governação e cibersegurança para preparar a organização para uma nova fase de crescimento
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Corria o ano de 2024 quando Rui Vaz Lourenço assumiu o cargo de IT & ITS Director na Vieira de Castro, num momento-chave, em plena implementação do SAP S/4HANA. A missão inicial passava por garantir uma adoção consistente do SAP e a estabilização dos processos, num desafio que coincidiu, contudo, com um conjunto de fatores que têm contribuído para acelerar a transformação. O responsável de IT e ITS menciona, desde logo, o crescimento do shadow IT: “Nos últimos três anos, temos assistido a uma massificação de ferramentas de inteligência artificial, entre outras, que veio fragilizar os modelos tradicionais de controlo e governação e colocar novos desafios de proteção de dados”. Por outro lado, esta fase é também caracterizada por uma grande pressão nas equipas de IT e por uma transição de modelos de licenciamento para modelos de subscrição. Esta mudança em si, reforça Rui Vaz Lourenço, “trouxe maior flexibilidade, mas também alterou profundamente a relação com os fornecedores, tornando-a mais transacional e aumentando a pressão sobre os orçamentos de IT”. Tecnologia, risco e sustentabilidade financeira caminham na mesma direçãoNeste contexto, a Direção de Sistemas de Informação da Vieira de Castro procedeu a um conjunto de mudanças para “adotar uma abordagem mais estruturada à governação da tecnologia”, em especial numa era marcada pela Inteligência Artificial (IA). No entanto, a abordagem não implica, necessariamente, uma limitação. “O objetivo passa por criar contexto”, defende o responsável, que aponta para a importância da literacia digital, do sentido crítico e da sensibilização como ferramentas para “maximizar o valor e mitigar o risco associado” à adoção destas tecnologias. A Direção de Sistemas de Informação assume, assim, “uma postura mais proativa” e um “papel mais ágil” para disponibilizar as soluções “que respondam às necessidades do negócio com segurança e integração”. Adaptação à mudança abre caminho para transformação da Vieira de CastroAtualmente, o foco da empresa portuguesa passa pela “integração do ecossistema aplicacional com a nova unidade industrial”, ao mesmo tempo que tira partido da introdução de “equipamentos industriais de última geração”. Tudo para culminar no projeto de Indústria 5.0 e, assim, “afirmar a Vieira de Castro como uma referência best-in-class no setor alimentar”, destaca Rui Vaz Lourenço. A organização tem também procurado tirar o maior partido desta oportunidade numa ótica de redefinição de processos e no aumento do nível de automação e eficiência operacional. As soluções baseadas em IA generativa têm sido uma aposta na hora de apoiar e acelerar as tarefas administrativas, com recurso a assistentes digitais e soluções com tecnologia RPA. “Para além da evolução das aplicações de negócio, o nosso objetivo passa por proporcionar aos colaboradores um ambiente de trabalho mais eficiente, intuitivo e motivador, onde a tecnologia absorve tarefas de menor valor acrescentado, contribui diretamente para a produtividade e para uma melhor experiência no dia a dia”, explica o responsável. Introduzir mudanças que aportem valor ao negócioA Vieira de Castro tem feito o seu próprio caminho na integração de tecnologias emergentes onde, para além da democratização da IA generativa e do reforço de RPA, tem trabalhado para garantir a qualidade, a consistência e a acessibilidade da informação. Rui Vaz Lourenço é peremtório quando afirma que “a tecnologia não existe na organização para ser um custo sofisticado, mas um acelerador da evolução do negócio”. Neste âmbito, as equipas procuram, antes de mais, perceber onde é que estas tecnologias, como a IA generativa ou a automação inteligente, podem intervir para acrescentar valor para, desta forma, evitarem “abordagens big bang que não tragam impacto efetivo”, esclarece o profissional. A transformação dos processos e a integração dos sistemas está a permitir, sobretudo, à empresa portuguesa evoluir de uma abordagem mais centrada no “reporting corporativo” para uma “abordagem orientada ao insight e à decisão de negócio”. Para além da entrada de Rui Vaz Lourenço na equipa de IT, 2024 ficou igualmente marcado pela criação de uma área dedicada à cibersegurança.A jornada tem sido marcada pela estruturação de ciclos anuais do plano integrado de cibersegurança, assente numa abordagem contínua e sustentável. Para além deste plano, a abordagem incluiu uma camada de security by design, de forma a garantir que todos os projetos da empresa portuguesa, sejam eles tecnológicos ou de negócio, “incorporam a cibersegurança como um elemento estrutural”. O ‘Dia Vieira’ é outra das iniciativas – que surgiu recentemente – e que procura alinhar segurança e pessoas em torno do mesmo propósito, como refere Rui Vaz Lourenço: “É uma iniciativa interna, de dia completo, que visa reforçar a cultura de segurança a todos os níveis da organização e a responsabilidade partilhada entre utilizadores e parceiros”. Cultura, liderança e pessoas: os ingredientes que se alinham com a tecnologiaPara o responsável de IT, o principal fator-chave por detrás de um processo de transformação digital bem-sucedido assenta, sobretudo, numa “gestão de mudança eficaz”, que leva as pessoas no centro, para que se possa “eliminar resistências, esclarecer propósito e motivação, transferir conhecimento e ouvir e desenvolver soluções pela perspetiva de quem é especialista no processo”. Quando aplicada à realidade portuguesa, Rui Vaz Lourenço considera que esta dimensão é ainda “muitas vezes subvalorizada”, uma vez que os projetos continuam a erguer “muros organizacionais entre tecnologias e utilizadores”, ao invés de criarem pontes. Para fazer face a este cenário, o contributo do departamento de IT surge no desenvolvimento de um modelo operativo que fomente o diálogo entre IT e liderança e garanta o alinhamento da organização. “Evitamos depender sempre dos mesmos interlocutores e procuramos envolver as pessoas que melhor conhecem os processos no terreno”, uma vez que são estas que “trazem a realidade operacional para cima da mesa”, reitera. O futuro que assenta na disciplina (e na tecnologia)À semelhança de outras organizações, os desafios são uma parte inevitável da jornada de transformação digital da Vieira de Castro. Rui Vaz Lourenço destaca o “equilíbrio entre a dívida técnica e o valor gerado” como o aspeto mais preocupante, numa fase em que os modelos de custo em IT “estão em constante mutação”. O estado do mercado tem obrigado as equipas a questionarem a sustentabilidade das decisões a longo prazo versus o investimento que se limita a acompanhar tendências a curto prazo. Neste ponto, o responsável de IT e ITS frisa que um dos maiores desafios é “garantir a disciplina – de separar valor estrutural de hype”. Nos próximos anos, o maior impacto virá, considera Rui Vaz Lourenço, “da combinação de tecnologias, mais do que da sua aplicação isolada”, uma vez que “a verdadeira transformação será proporcionada pela forma como estas tecnologias são integradas para transformar operações, aumentar a eficiência, elevar a qualidade da decisão e tornar a experiência do consumidor mais transparente e próxima”. A IA, a automação, o IoT e as plataformas de dados vão assumir um papel central, ao permitirem evoluir de um “paradigma de operações reativas para operações preditivas”, com a antecipação das necessidades dos clientes. O CIO do presente e do futuroO papel do Diretor de IT é, na visão de Rui Vaz Lourenço, “cada vez mais híbrido”. “O CIO tem de ser cada vez mais um orquestrador da transformação, responsável por garantir que a tecnologia gera valor real, suporta a inovação e, com isso, se assume como contributo efetivo para o EBITDA da organização”, afirma. Para garantir este perfil, o diretor defende ser necessário um “jogo permanente de equilíbrios”, onde a inovação, a sustentabilidade, a velocidade e controlo, o valor estrutural e as tendências de curto prazo entram em campo. |