A transformação digital da Maiambiente está a colocar o IT no centro da estratégia, com foco na eficiência operacional e no serviço ao cidadão
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Da digitalização de processos para uma abordagem orientada a dados, automação e inteligência operacional. Este é o caminho que a Maiambiente tem percorrido, numa lógica que pretende ligar a tecnologia à eficiência da recolha, ao serviço prestado ao cliente e à sustentabilidade ambiental. Sérgio Esteves lidera a área de IT da empresa pública de recolha de resíduos urbanos da Maia desde 2021, numa fase que representou um motor de transformação do negócio. “Do ponto de vista estratégico, houve uma mudança clara: o IT deixou de ser reativo e passou a ser um parceiro ativo na definição da estratégia da organização”, começa por esclarecer o Head of IT. Tecnologia e inovação ao serviço da comunidadeA Maiambiente adotou uma gestão mais ágil, conectada à realidade do terreno, e sobretudo ao valor e impacto real que a empresa procura garantir ao nível de operação e serviço ao cidadão. Sérgio Esteves garante que a abordagem não passa apenas por “testar tecnologia”, mas sim integrá-la “de forma consistente nos processos operacionais”. A empresa conta com serviços totalmente digitalizados ao nível da recolha de resíduos e limpeza urbana que abrangem um universo de cerca de 63.600 clientes, traduzindo-se em, aproximadamente, 143 mil habitantes. “Gerimos atualmente mais de 30 mil pontos de recolha georreferenciados e cerca de 124 mil contentores equipados com tecnologia RFID. Este ecossistema permite-nos registar e analisar cerca de 2,5 milhões de recolhas de contentores por ano, correspondendo a um volume anual de cerca de 65.600 toneladas de resíduos”, refere o responsável de IT. A organização tem apostado em pilotos e provas de conceito de forma a compreender o impacto da tecnologia na operação. A inovação passou a ser presença assídua no dia-a-dia, permitindo articular o IT e as áreas operacionais. “Ao assumirmos uma posição de liderança no setor, muitas vezes o mercado e as soluções disponíveis não acompanham o nível de maturidade digital que pretendemos atingir. Isso obriga-nos, em várias situações, a desenvolver internamente ou a adaptar soluções existentes para responder às nossas necessidades específicas”, revela. Investimento tecnológico com provas dadas no terrenoA estratégia de transformação tecnológica da Maiambiente está assente na criação de uma operação inteligente, eficiente e sustentável, “suportada por dados em tempo real e pela digitalização integral dos processos operacionais”. A instrumentação das viaturas de recolha é um dos pilares em destaque, uma vez que “permite uma monitorização rigorosa da operação e uma recolha de dados altamente fiável”, sublinha Sérgio Esteves. A capacidade de digitalização também tem permitido implementar o modelo PAYT (Pay-As-You- Throw), onde cerca de 70% dos clientes da Maiambiente estão abrangidos pelo sistema. Estas iniciativas, onde se inclui a evolução da rede de infraestruturas, têm, segundo o responsável de IT, “um impacto direto na eficiência operacional, na otimização de recursos e na melhoria da qualidade do serviço prestado ao cidadão, enquanto reforçam a transparência e promovem comportamentos mais sustentáveis”. Incorporar novas tecnologias na era dos dadosA empresa tem procurado acompanhar as tendências do mercado ao implementar um conjunto de tecnologias numa ótica de operação e serviço ao cidadão. Na área de dados, Sérgio Esteves explica que o trabalho tem passado por “reforçar a capacidade de análise operacional e preditiva”. Exemplo disso são os modelos de previsão sobre o enchimento dos contentores, que permitem melhorar a eficiência da operação através da evolução de rotas de recolha, da otimização de recursos e da redução de custos operacionais. A Inteligência Artificial (IA) tem sido outra das apostas da Maiambiente, nomeadamente através da monitorização do espaço público – onde existem provas de conceito em curso – e da implementação destas soluções no atendimento telefónico. A aposta na IA está a contribuir igualmente para o desenvolvimento do “primeiro ecocentro autónomo e inteligente do país”, que, segundo o responsável, “permitirá uma nova abordagem à gestão e utilização deste tipo de infraestruturas”. Esta evolução tecnológica é também suportada através da cloud híbrida, considerada “um elemento-chave”, uma vez que garante a “flexibilidade e escalabilidade necessárias, especialmente em projetos com elevado volume de dados e necessidades de processamento”. O caminho de adaptação à NIS2A prevenção, a monitorização e a resposta a incidentes são passos essenciais quando o tema é cibersegurança – “é tratada como um pilar estrutural da nossa estratégia tecnológica, e não como uma camada adicional”, reforça Sérgio Esteves, que não esquece o trabalho feito na sensibilização dos colaboradores. A organização encontra-se na jornada de adaptação à Diretiva NIS2, um caminho feito de forma progressiva, estruturada, mas que implica, no entanto, “um reforço das práticas de gestão de risco, governação e resposta a incidentes”. Colaboração e formação: a importância do todo na organizaçãoA evolução da transformação digital e tecnológica da Maiambiente não está completa sem a mudança cultural necessária, não só do departamento de IT, mas também na colaboração de outras áreas da empresa. A aposta tem sido, sobretudo, numa “lógica de proximidade com as áreas operacionais, envolvendo-as desde o início nos projetos. Promovemos uma cultura de colaboração onde o IT não entrega soluções “fechadas”, mas co-cria com as equipas, e isso facilita a adoção e aumenta significativamente a probabilidade de sucesso”, esclarece Sérgio Esteves. O responsável acredita que esta jornada não se faz apenas de tecnologia, mas também de pessoas. Ainda sim, a gestão da mudança pode revelar-se um desafio. A formação e capacitação contínua das equipas operacionais entra ao serviço para “assegurar a fiabilidade dos dados recolhidos”. “Para além da componente humana, destacaria também o desafio da integração de sistemas e tecnologias distintas, garantindo coerência e interoperabilidade num ecossistema cada vez mais complexo. Existe aqui uma necessidade constante de equilibrar inovação com robustez e fiabilidade dos sistemas, assegurando que a evolução tecnológica não compromete a continuidade e qualidade do serviço”, reitera o responsável. O futuro pertence ao valor, à eficiência e ao impacto da gestão das tecnologiasA inteligência artificial, aplicada à análise de dados, visão computacional e otimização, continuará a ser determinante para melhorar a eficiência e a qualidade do serviço. A Internet das Coisas, presente na mais recente instalação de sondas de nível de enchimento em contentores semi-enterrados, deverá “reforçar significativamente a capacidade de monitorização em tempo real”, enquanto as plataformas de dados e analytics vão permitir uma tomada de decisão mais informada, preditiva e orientada a resultados. Por outro lado, a evolução para gémeos digitais será especialmente relevante no caso da Maiambiente, uma vez que permitirá “simular cenários operacionais complexos e testar diferentes planos antes da sua execução”, uma capacidade que oferece um melhor planeamento e contribui para aumentar a eficiência dos serviços. O Diretor de IT será, por isso, o elemento híbrido e agregador que liga a transformação tecnológica ao negócio: “deixará de ser apenas o gestor de tecnologia para assumir um papel de facilitador da transformação e da criação de valor para o negócio”, assevera Sérgio Esteves. O especialista acredita que o futuro da função passa por “combinar conhecimento tecnológico com uma forte compreensão operacional e estratégica da organização”, com “a tecnologia sempre alinhada com os objetivos do negócio”. O papel de um Diretor de IT implicará, sobretudo, equilibrar tecnologia e operação, inovação e sustentabilidade financeira e eficiência interna e valor para o cliente. “A capacidade de demonstrar valor, eficiência e impacto será decisiva na gestão futura das áreas tecnológicas”, conclui. |