Um estudo da ACEPI mostra o impacto crescente da economia digital em Portugal. A infraestrutura e o consumo estão a evoluir, mas as empresas e as competências continuam a limitar a competitividade.
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Hoje, restam poucas dúvidas sobre o impacto real que o setor das TIC está a gerar no âmbito nacional. A economia digital em Portugal atingiu um ponto de maturidade que já não permite tratá-la como um setor isolado, tornando-se hoje numa camada estrutural da economia, com impacto trans versal em praticamente todas as atividades e setores. O retrato recentemente feito pelo Instituto Nacional de Estatística, revela que só o setor das Tecnologias da Informação e Comunicação em Portugal gera mais de 21,1 mil milhões de euros. Apesar dos progressos e da crescente adoção de tecnologia, dados recentes revelam que existem e persistem assimetrias geracionais, territoriais e empre sariais, que impactam uma evolução mais fluida e forte do ecossistema digital a nível nacional. Competitividade Digital: aumenta a maturidade, mas desigualdades persistemUm estudo da ACEPI, em conjunto com a GoingNext e a Porto Business School, traça um retrato abrangente da forma como o digital se tornou uma infraestrutura económica transversal. A análise realizada estima que a economia digital gere 213 mil milhões de euros em produção, 90 mil milhões de euros em Valor Acrescentado Bruto (VAB) e quase três milhões de empregos. Os números em causa representam o equivalente a 39% da produção nacional, o que demonstra que o digital funciona já como uma infraestrutura económica transversal. O mesmo estudo revela que o setor pure digital gera 40 mil milhões de euros em produção, 17 mil milhões de euros em VAB e cerca de 500 mil empregos. No entanto, o maior impacto estará presente nos setores digital enabled, ou seja, nas atividades cuja principal função não é tecnoló gica, mas que incorporam tecnologias digitais nos processos. Neste caso, estes setores repre sentam 173 mil milhões de euros em produção, 73 mil milhões de euros em VAB e 2,5 milhões de empregos. Estes dados demonstram, assim, que a competiti vidade digital a nível nacional não depende apenas e exclusivamente das empresas tecnológicas; o foco reside essencialmente na capacidade de integração da tecnologia em setores tradicionais, como é o caso da indústria, do retalho, da logística, dos serviços, entre outros. Neste ponto, os dados indicam também que, para além dos processos mais tradicionais darem lugar a processos digi tais, a digitalização está, sobretudo, a expandir capacidades. O bom, o mau e o vilão da economia digital portuguesaNuma introdução ao estudo, Alexandre Nilo Fonseca, Presidente da ACEPI, sublinha que a adoção de tecnologias avançadas é ainda limi tada, principalmente junto das pequenas e médias empresas que compõem o grosso do tecido empre sarial português. Segundo a análise em causa, no que ao mercado da conetividade diz respeito, por exemplo, Portugal apresenta uma rede de comunicações avançada e uma infraestrutura digital competitiva. Em 2024, 91% dos agregados familiares tinham ligação à Internet, uma percentagem muito próxima da média da União Europeia (94%). No entanto, os desafios persistem quando o tema é adoção de 5G: a cobertura chegou a 99% dos agregados familiares em 2024, mas apenas 27% da população tinha cartões SIM 5G, contra 36% na média europeia. Neste caso, o problema deslo ca-se da infraestrutura – que existe – para a utili zação empresarial e social que ainda não acom panha totalmente a disponibilidade técnica. Este é um padrão que se repete noutros contextos, como é o caso do mercado de data centers, com Portugal a posicionar-se cada vez mais como um hub europeu para acolher projetos de grande escala com workloads intensivos. Não obstante, o verdadeiro reflexo e impacto deste investimento na economia dependerá da capacidade de integrar a infraestrutura no tecido empresarial português. Capital humano: o motor da competividade digital portuguesaNas competências digitais, os dados revelam que em 2023, 56% dos portugueses tinham pelo menos competências digitais básicas, em linha com a média da UE, mas apenas 30% tinham competências digitais avançadas. Alexandre Nilo Fonseca considera que o “futuro da economia digital portuguesa dependerá, em grande medida, da capacidade de desenvolver capital humano preparado para esta nova era tecnológica”. Existe, porém, uma evolução positiva naquilo que é o emprego espe cializado: entre 2019 e 2024, o peso dos profissionais TIC no emprego total subiu de 3,6% para 5,2%, ligeiramente acima da média europeia de 5,0%. Este é um indicador positivo, mas insuficiente face à procura crescente por perfis em Inteligência Artificial (IA), cibersegurança, cloud, análise de dados e automação. Consumidores estão mais digitais, mas empresas ainda estão em transiçãoNo que ao consumo diz respeito, Portugal apresenta níveis elevados de utilização digital. O estudo da ACEPI revela que cerca de 89% da popu lação utiliza Internet; também no setor público, o recurso a serviços públicos digitais ultrapassa a média europeia, com 85% dos utilizadores a interagirem com plataformas da Administração Pública. Já o comércio eletrónico continua a provar que há margem para crescer: em 2024, apenas 59% dos portugueses realizaram compras online, uma percentagem inferior à da média europeia (72%). Este indicador em parti cular funciona como proxy da maturidade transacional da economia digital porque demonstra que, apesar de existir utilização, a conversão em ativi dade económica estruturada ainda não acompanha a realidade. Economia de plataformas: o novo centro da economia digitalÉ neste contexto que a economia de plataformas ganha centralidade ao permitir a conexão entre empresas, consumidores e outros agentes. Segundo a OCDE, os mercados digitais caracterizam-se por efeitos de rede, economias de escala, custos marginais reduzidos e uso intensivo de dados. À medida que crescem, tendem a concentrar valor em poucos players, criando dinâ micas de winner takes most. No caso das empresas portuguesas, sobretudo PME, as plataformas digitais abrem portas para mercados globais, ferramentas avançadas e toda uma nova capacidade de competir. No entanto, esta mudança estrutural tem um custo: a economia de plataformas aumenta a capacidade de competir, mas também redefine quem captura o valor. E é precisamente esta concentração de poder que está a redefinir o papel da concorrência na economia digital. A União Europeia tem respondido com uma abordagem mais assertiva, posicio nando a regulação como uma ferramenta de competitividade. A Comissão Europeia reforçou recentemente o escrutínio sobre grandes plataformas digitais com o objetivo de tornar os mercados mais abertos. No caso português, a competitividade não passa, contudo, apenas pela adoção de tecnologias, mas implica principalmente compreender e gerir a relação entre plata formas, dados e ecossistemas digitais. PRR pode ser catalisador da competitividade, mas é preciso maisNeste enquadramento, o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) assume um papel relevante porque os investimentos previstos no plano visam colmatar algumas das fragilidades identificadas, como é o caso da adoção empresarial, das competências e da eficiência operacional. Ainda que a missão passe por reduzir as barreiras e incentivar projetos de transformação digital, a competitividade digital só estará consolidada se os investimentos forem acompanhados por mudança organizacional, qualificação e capacidade de medir retorno. Da digitalização à criação de valor: o próximo passoOs dados apresentados no estudo da ACEPI são reveladores. Portugal conta com uma boa infraestrutura, bons serviços públicos digitais e consumidores digitais ativos. Porém, continua condicio nado por uma adoção incompleta nas PME, por um défice nas competências avançadas e por assimetrias regionais. A nova fase mostra que digitalizar já não é suficiente, sendo por isso necessário apostar numa maior intensidade tecnológica nas empresas, em mais talento especializado e numa maior capaci dade para competir numa economia de plataformas fortemente dominada por escala, dados e ecossistemas globais. |