Para além das previsões: os erros na adoção de IA

Com base no relatório “Gartner’s Top Strategic Predictions for 2026 and Beyond”, a consultora prevê transformações radicais até 2027, mas os dados revelam padrões sistemáticos de falha em organizações que adotam inteligência artificial

Para além das previsões: os erros na adoção de IA

As previsões estratégicas da Gartner para 2026-2027 revelam que a velocidade de adoção de Inteligência Artificial (IA) está a criar falhas estruturais que podem custar caro às organizações. Mais importante que saber o que vem aí, é entender onde as organizações estão a falhar.

O paradoxo das competências

Até 2027, 75% dos processos de recrutamento vão exigir certificação em proficiência de IA. Ao mesmo tempo, 50% das organizações vão implementar avaliações “AI-free” obrigatórias.

A Gartner identifica o problema como uma dependência excessiva ligada à erosão mensurável de competências. Estudos sobre os knowledge workers mostram que maior confiança em IA generativa prevê redução no esforço do pensamento crítico. Na educação, os utilizadores intensivos registam quedas de dois dígitos em pontuações de raciocínio. O mecanismo é “cognitive offloading”: transferir raciocínio multietapa de humanos para máquinas, atrofiando capacidades como decomposição de problemas e avaliação de evidências.

Os mais vulneráveis são os profissionais em início de carreira que saltam etapas de validação rigorosa, criando custos para voltar a fazer o mesmo trabalho, em compliance e na qualidade de decisão. A recomendação é implementar avaliações “AI-free” no recrutamento, auditar workflows onde a confiança excessiva degrada decisões baseadas em evidência e investir em treino de resiliência cognitiva.

Até ao fim de 2026, a Gartner prevê mais de dois mil processos legais por mortes causadas por inteligência artificial devido a guardrails insuficientes. O número parte da extrapolação de padrões em setores críticos como transporte, saúde, finanças ou setor público.

O problema fundamental são os sistemas black- -box que não podem ser explicados, interpretados ou auditados. Quando os modelos ou os agentes não são transparentes, os problemas não podem ser diagnosticados antes (ou depois) de causaram danos fatais. Os dados de má qualidade vão dar lugar ao “garbage in, tragedy out”. Os falsos positivos (identificar situação segura como perigosa) e os falsos negativos (falhar em identificar ações potencialmente fatais) tornam-se em questões de vida ou morte.

A falha não é tecnológica, mas sim de governança. As organizações não têm estabelecido procedimentos rigorosos de revisão de casos de uso avaliando os riscos técnicos, legais, éticos e de segurança. Não ativaram princípios de segurança. Não construíram frameworks de gestão de risco que endereçam especificamente o dano humano.

A recomendação passa por criar procedimentos de revisão rigorosos, institucionalizar frameworks de compliance legal, melhorar a qualidade e a governança dos dados em áreas onde os erros de IA são catastróficos e combinar fail-safes de IA e humanos – uma decisão aumentada em vez de automação pura.

Fragmentação regulatória

Entre o primeiro trimestre de 2024 e 2025, os países propuseram mais de mil ações legislativas sobre inteligência artificial, uma ordem de magnitude mais rápida do que o RGPD. Até 2027, a regulação fragmentada vai cobrir 50% das economias globais, forçando cinco mil milhões em investimento de compliance.

A complexidade é estrutural: 62% é regulação geral de IA, 14% setorial, 24% ocupacional. Três camadas sobrepostas, mas uma variação geográfica em grande escala, até porque as multinacionais enfrentam um compliance diferente em cada região e sem um framework unificado.

O investimento médio em software de governança de IA é de cem mil dólares anuais, mas isto não resolve a fragmentação. A falha comum é tratar o compliance como um checkbox e não como governança integrada. A Gartner recomenda uma abordagem unificada que reduz regulações múltiplas de forma uniforme de características e obrigações, foco em casos de uso de alto risco e garantir que as unidades de negócio têm responsabilidades claras de governança.

Falhas organizacionais

As previsões da Gartner não são apenas sobre tecnologias, mas também sobre falhas organizacionais previsíveis. Os early adopters já estão a cometer erros, como a atrofia cognitiva ou falhas de governança. A questão é se as restantes organizações vão aprender com eles.

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