As aplicações empresariais entram numa nova fase, impulsionada pela inteligência artificial, automação e uso de dados em escala, que reforça o seu papel na transformação das organizações. No live event da IT Insight, Claranet Portugal, Microsoft, SAP e UiPath analisaram esta evolução e discutiram se o setor já vive uma verdadeira “era do negócio inteligente” ou se ainda se encontra numa fase de transição
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A nova fase das aplicações empresariais resulta da convergência entre Inteligência Artificial (IA), automação e dados em escala, o que dá origem a sistemas mais inteligentes, integrados e orientados para a ação. À medida que as organizações procuram acelerar a criação de valor, torna-se crítico escalar a IA, garantir interoperabilidade e evitar a fragmentação dos processos através da integração de tecnologias. Foi neste contexto que a Claranet Portugal, a Microsoft, a SAP e a UiPath se reuniram numa mesa-redonda virtual promovida pela IT Insight, para discutir se estamos já perante uma verdadeira era do negócio inteligente ou ainda num momento de transição entre modelos operacionais e estratégicos. Em 2026, o que distingue uma aplicação empresarial estratégica de uma aplicação meramente operacional? Estamos realmente numa “era do negócio inteligente” ou ainda numa fase de transição?
Armanda Mealha, Executive Director, Commercial Solutions Sales Lead for Europe South MCC, Microsoft: “Passámos das aplicações operacionais que executavam tarefas para o que, para nós, são aplicações estratégicas, em que essas tarefas passam a existir em contexto de dados e inteligência das organizações e, agora, com a introdução de IA, evoluímos para sistemas de ação. Neste contexto, a introdução de agentes permite que, no âmbito das tarefas que têm de ser executadas, dos workflows e dos processos de negócio de uma organização, os dados, os insights e a informação coletiva existente dentro da organização deem origem a sistemas que permitem executar ações, apoiar a decisão ou, em alguns casos, tomar decisões de alguns roles que temos nas organizações”. José Tavares, Chief Operating Officer, SAP: “A adoção da IA e o enriquecimento de aplicações empresariais, já é uma componente central na estra tégia global de qualquer empresa, quer seja uma empresa privada, um organismo público local ou central, ou mesmo uma instituição do setor social. Este processo de transformação, quer seja por digitalização, automação, ou por dar um outro tipo de capacidade de decisão, é algo que já acontece. Quando olhamos para o tema da IA, é óbvio que representa a maior mudança tecnológica desde a internet e está a transformar profundamente o software empresarial”. Vladislav Michkov, Change Management Consultant, Claranet Portugal: “Quase todas as empresas têm projetos de IA a decorrer. Nem todas conseguem escalar esses projetos além dos pilotos, porque não estão realmente a reimaginar o negócio, mas sim a executar os mesmos processos mais depressa. O problema, curiosamente, não é tecnológico e também não é a falta de investimento. É organizacional e humano. É a falta de clareza para onde caminhamos e a pouca inclusão da gestão na mudança consis tente. Há projetos que derrapam, não na fase da implementação técnica, mas sim na fase da adoção”. As aplicações estão hoje a liderar a transformação do negócio ou continuam dependentes da estratégia definida fora do departamento de IT?
José Tavares, SAP: “Não podemos olhar para o IT como algo separado, mas sim como um capacitador. Algo muito importante é também garantir que não passamos simplesmente a ter sistemas de registo, mas que existe investimento em pessoas, no próprio change manager e na formação das pessoas, o que muda radicalmente. E onde, porventura, nos temos focado nos últimos tempos, no tema da produtividade e do acelerar da execução de tarefas, que têm de ser aceleradas e serão automatizadas, seguramente”. Vladislav Michkov, Claranet Portugal: “Já não faz muito sentido olhar para as aplicações apenas como executoras de uma estratégia que foi definida fora do IT. A inovação começa a surgir dentro das equipas de tecnologia e só depois a subir para a gestão. A própria capacidade tecnológica abre portas a modelos de negócio que a estratégia ainda não tinha considerado. As aplicações passam daquilo que é o suporte para a alavanca. Isso mudou o papel das equipas, porque deixam de ser executoras e passam a cocriar. Há muitas organizações que cooperam com uma separação entre o negócio e a tecnologia e isso cria uma barreira”. Ao falarem com os clientes, que fatores mais pesam na decisão de escolha de uma plataforma? Como é que se responde a esses fatores? Armanda Mealha, Microsoft: “Os clientes escolhem a tecnologia que lhes permite tirar valor mais rápido e com menos risco, maior confiança e impacto para o seu cenário concreto. A tecnologia para a IA e para sistemas de ação e de inteligência já existe. A sua adoção à escala é onde ainda temos um caminho a percorrer. Quanto à tomada de decisão sobre qual a plataforma que se quer atingir, é importante saber como conseguir tirar partido destas novas tecnologias em escala”.
João Oliveira Diniz, Sales Account Director, UiPath: “Há já algum tempo que a decisão das plataformas tecnológicas deixou de ser uma decisão técnica. É uma decisão estratégica com impacto no crescimento, na eficiência operacional e gestão de risco. A velocidade a que toda esta mudança está a acon tecer, cria um conjunto de oportunidades para as organizações, mas também cria tensão nos departamentos de IT, que também têm de acompanhar essa velocidade em produzir resultados e na entrega da solução”. Vladislav Michkov, Claranet Portugal: “Toda a gente pretende ter uma plataforma funcional que consiga integrar diferentes aplicações, funcionalidades, a questão de custo, escalabilidade e segurança. No entanto, aquilo que tenho visto é que não é apenas isso que decide. O que também decide são os medos. O primeiro medo é errar a escolha de uma plataforma. Quem conseguir tornar o futuro mais previsível acaba por ganhar confiança”. José Tavares, SAP: “O maior risco não é chegar tarde, é construir mal, adotar ferramentas de IA isoladas, que criem silos em vez de os eliminar ou de os resolver. Temos de escolher plataformas que realmente integrem aplicações, dados, IA, embebidas naquilo que é a sua lógica. Não é simplesmente acrescentar mais uma ferramenta num ecossistema já fragmentado. Aos dias de hoje, isso é possível, garantindo sempre uma boa semântica dos dados ao longo de todas as cadeias de valor dos diferentes setores de atividade”. O RPA foi durante muito tempo a solução para ligar sistemas que não comunicavam. com a chegada da ia generativa e dos agentes de ia, o RPA vai desaparecer ou vai tornar-se mais inteligente? João Oliveira Diniz, UiPath: “Há clientes que pegaram em robôs, em processos de negócio e identifi caram os gaps de execução manuais e estão a substituir por IA. Outros clientes têm uma abordagem distinta em que estão a começar com processos de base. A inteligência artificial é o cérebro e os robôs continuam a ser os braços mecânicos que executam. Na verdade, há uma coisa fundamental em tudo isto que é a camada de orquestração para coordenar tudo”. Armanda Mealha, Microsoft: “Não acho que haja um caso de substituição completa dos RPA porque tudo tem o seu propósito e as ferramentas estão para servir esse impacto. Os agentes podem trazer essa camada quando a ação que se está a querer automatizar não é determinística. Fazer triagem de casos, qualificação de leads, são exemplos de como os agentes podem entrar dentro do processo de negócio, mas também trazer uma nova layer de automatização para o processo ou de aceleração naquilo que é o processo". Onde está hoje o impacto real da inteligência artificial nas business applications?
Vladislav Michkov, Claranet Portugal: “O impacto real da IA é concentrado, mas também é desigual e invisível para o top management. E não está tipi camente nos grandes projetos ou programas de transformação, mas sim em algumas equipas dispersas. O impacto é real, sim, mas diria que é disperso porque ainda não é totalmente governado e torna-se difícil de medir. Isso cria um problema de visibilidade estratégica. O desafio é transformar o impacto em algo intencional, escalável e que melhora as decisões reais”. José Tavares, SAP: “Ainda estamos nas fases de pilotos. Independentemente do setor e dimensão, as empresas procuram ter uma IA que compreenda o negócio e que proteja a propriedade intelectual, que são os dados e processos, de forma segura e fiável. Se não se entender aquilo que são as cadeias de valor, se não tem em conta as regras de conformidade e de compliance que regem qualquer tran sação, não consegue tratar as exceções". João Oliveira Diniz, UiPath: “Vemos que a IA já está a ter impacto nas aplicações empresariais, mas este impacto não está apenas nas interfaces conversacionais e nos agentes digitais. Está na forma como os processos funcionam. A parte da automação da decisão, não só a questão de os sistemas fazerem recomendações da next best action a tomar num determinado processo, mas também em alguns casos já a tomar decisões. Se não tivermos informação, nem feedback informacional, corremos o risco de ter problemas de adoção”. Armanda Mealha, Microsoft: “Temos casos em Portugal onde a redução das chamadas que eram atendidas por agentes humanos no contact center foi reduzida em 80%, com a introdução desta tecnologia. É um impacto imenso para as organizações e para uma gestão de um contact center. Quando falamos em escala, falamos de sair de processos que já estão definidos nas aplicações core e empresariais para aquilo que é o resto dos workflows que fazem parte de uma organização, que é onde ainda vemos muito espaço para alargar o impacto da inteligência artificial”. Como é que se garante o equilíbrio num ecossistema cada vez mais distribuído? João Oliveira Diniz, UiPath: “As organizações modernas operam num ambiente cada vez mais distribuído: múltiplas aplicações, diferentes fornecedores, cloud híbrida e soluções especializadas. As boas e más notícias é que isto vai piorar. Todos os dias vai surgir uma aplicação, um modelo que resolve uma parte do desafio de uma organização. Isto traz f lexibilidade e potencial, mas aumenta a complexidade. O verdadeiro desafio não é o número de aplicações, é garantir que elas conseguem funcionar de forma coerente”. Que modelo vai dominar o futuro próximo: um modelo dominado por grandes plataformas ou por ecossistemas modulares? Que tendências e inovações podemos esperar ver nos próximos anos? Vladislav Michkov, Claranet Portugal: “Passa a haver mudança como capacidade organizacional contínua. As empresas não falham por escolhas tecno lógicas ou plataformas erradas. Falham porque adotaram tecnologia nova com comportamentos antigos. O futuro não vai ser dominado por grandes plataformas, nem pelos ecossistemas modulares, mas sim por quem souber tirar o melhor dos dois e por quem tiver a cultura e as pessoas para se adap tarem mais rápido”. Armanda Mealha, Microsoft: “Os clientes pedem-nos opções, que lhes sejam entregues de forma segura, e informação que lhes permita tomar decisões. Alguns componentes básicos de plataforma que esperam que os fornecedores entreguem são: segurança, governance, monitorização. A decisão entre adotar uma plataforma única ou modular depende da estratégia de cada organização porque há vantagens em ter uma solução que já vem integrada e que tem parte dos processos. É um acelerador imenso para uma organização”. José Tavares, SAP: “Não acredito que os agentes de IA vão substituir o software empresarial. O vencedor não será aquele que tem um modelo base melhor do que o outro. Serão aqueles que conseguem entregar valor na cadeia de valor, em todas as aplicações, e ter um impacto no negócio, resultante do conhecimento do setor de atividade, da sua função, da responsabilidade e perfilagem, sendo governados de acordo com a regulação e a escala. No futuro, as soluções empresariais serão o sistema operativo da autonomia confiável de todas as organizações”. João Oliveira Diniz, UiPath: “As grandes plataformas vão continuar a ser o core dos negócios porque garantem estabilidade, consistência e escala. Estas inteligências artificiais vão surgir a uma velocidade grande, com especialidades muito úteis para as organizações. Isto só se consegue ao garantir que a tecnologia funciona toda em conjunto, que não se desperdiçam recursos e que todas estas aplicações conseguem funcionar em conjunto. Os sistemas core vão continuar a existir, assim como a capacidade de inovação rápida que, sim, tem de aparecer mais, e um controlo transversal a tudo”. |