O National Cyber Security Centre do Reino Unido alerta que a inteligência artificial está a aumentar a velocidade e a escala dos ciberataques, enquanto muitas organizações continuam vulneráveis a falhas conhecidas. No último ano, a entidade recebeu 1.831 notificações de ataques, das quais 80 corresponderam a incidentes de importância nacional. O relatório antecipa ainda a utilização de malware com IA em ataques de ransomware contra infraestruturas críticas até 2028
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O National Cyber Security Centre (NCSC) considera que o Reino Unido enfrenta um momento decisivo na evolução da cibersegurança, marcado pela crescente utilização de Inteligência Artificial (IA) nas operações ofensivas e pela persistência de vulnerabilidades que poderiam ser evitadas. No relatório anual “The State of the Cyber Nation”, que assinala uma década de atividade da entidade, o organismo britânico conclui que a ameaça está a evoluir mais rapidamente do que a capacidade de defesa de muitas organizações. O principal desafio não reside apenas no aparecimento de novas técnicas de ataque, mas também na incapacidade de modernizar infraestruturas, corrigir vulnerabilidades e implementar medidas de proteção já conhecidas. Os dados operacionais ajudam a dimensionar o problema. Durante o período analisado, o NCSC recebeu 1.831 notificações de ciberataques contra organizações de diferentes setores, tendo prestado apoio em 337 incidentes, dos quais 80 foram classificados como nacionalmente significativos. O organismo notificou ainda 8.500 organizações através do serviço Early Warning, após identificar indícios de possível comprometimento dos seus sistemas. O relatório sublinha, contudo, que os números de incidentes não seguem necessariamente uma tendência linear de ano para ano, uma vez que a atividade e a gravidade dos ataques podem variar significativamente. Uma das conclusões mais relevantes é que 88% dos incidentes analisados em grandes organizações tiveram origem em apenas quatro mecanismos de acesso inicial: exploração de aplicações expostas à Internet, phishing, utilização indevida de contas legítimas e exploração de serviços de acesso remoto. O NCSC destaca que estas técnicas continuam a ser utilizadas tanto por grupos criminosos como por atacantes associados a Estados, demonstrando que a sofisticação de uma operação não implica necessariamente métodos avançados para obter o primeiro acesso. IA deverá acelerar os ataques, mas a autonomia total ainda não é dominanteA inteligência artificial ocupa uma posição central nas avaliações do NCSC para os próximos anos. Segundo o relatório, é praticamente certo que a tecnologia funcionará como um multiplicador das capacidades ofensivas, permitindo aos atacantes realizar operações com maior rapidez, eficiência e escala. As aplicações mais imediatas incluem reconhecimento de alvos, engenharia social, identificação de vulnerabilidades e desenvolvimento de código para exploração de falhas de segurança. Apesar desta evolução, o organismo considera altamente provável que os operadores humanos continuem a desempenhar um papel essencial na orientação e validação das operações. A utilização de IA por grupos maliciosos permanece desigual e os maiores ganhos de eficiência tendem a beneficiar os atacantes que já possuem conhecimentos técnicos avançados. O NCSC distingue, por isso, a automatização crescente das técnicas existentes da realização de ataques totalmente autónomos, de ponta a ponta, que ainda não constituem o padrão dominante dos incidentes observados. As previsões apontam, contudo, para uma intensificação significativa da ameaça até 2028. O NCSC considera altamente provável que a China, a Rússia e outros Estados utilizem regularmente capacidades ofensivas apoiadas por IA para atingir objetivos geopolíticos, aumentando a velocidade e a escala dos ataques sofisticados. A entidade prevê igualmente, com um elevado grau de confiança, que malware apoiado por IA seja utilizado num ataque de ransomware contra infraestruturas críticas britânicas até 2028. O relatório identifica também riscos associados à utilização não autorizada de ferramentas de IA nas organizações, habitualmente designada shadow AI. A transferência de informação empresarial sensível para dispositivos pessoais ou serviços não aprovados pode reduzir a visibilidade sobre o tratamento dos dados e aumentar a exposição a ameaças. O NCSC alerta ainda para a possibilidade de as empresas perderem conhecimento sobre as competências internas de cibersegurança quando determinadas tarefas passam a ser executadas sistematicamente através de ferramentas externas. O documento inclui um cenário pessimista para 2028, no qual sistemas autónomos de IA poderiam realizar ataques sem controlo efetivo dos operadores humanos. O NCSC esclarece, porém, que este exercício não constitui uma previsão, destinando-se antes a ilustrar as possíveis consequências de uma evolução tecnológica mais rápida do que a capacidade de adaptação das defesas. China e Rússia continuam entre as principais ameaçasNa avaliação das ameaças associadas a Estados, o NCSC identifica a China como o desafio de cibersegurança mais sofisticado e persistente para o Reino Unido. O relatório destaca a dimensão das capacidades tecnológicas chinesas, a utilização de empresas privadas e a importância atribuída à recolha de grandes volumes de informação. O organismo considera que o investimento do país em inteligência artificial poderá reforçar a identificação de vulnerabilidades e a eficácia das operações dirigidas a infraestruturas críticas e outros alvos estratégicos. A Rússia é descrita como a ciberameaça atualmente mais audaciosa para o Reino Unido, num contexto em que as operações digitais estão cada vez mais integradas em estratégias de pressão geopolítica e conflito. O relatório recorda uma comunicação conjunta publicada em julho de 2026 sobre atividades atribuídas a elementos do Centro 16 do Serviço Federal de Segurança russo, envolvendo a exploração de routers vulneráveis para atingir redes de infraestruturas críticas a nível internacional. O NCSC assinala também a atividade de grupos associados ao Irão, nomeadamente a sua capacidade para provocar perturbações em larga escala. O impacto económico destas ameaças constitui outra preocupação. De acordo com estimativas do Governo britânico citadas no relatório, a atividade cibernética maliciosa representa um custo anual de 14,7 mil milhões de libras para as organizações do Reino Unido. O NCSC considera ainda que a ciberespionagem poderá constituir a ameaça mais significativa para o crescimento económico britânico a longo prazo, devido à perda de informação estratégica, propriedade intelectual e vantagens competitivas. Como exemplo dos efeitos de um incidente sobre a economia real, o documento analisa o ciberataque que afetou a Jaguar Land Rover em 2025, provocando uma interrupção prolongada das atividades de produção e comercialização, com consequências para fornecedores e outras empresas da cadeia de abastecimento. A fabricante reportou aproximadamente 196 milhões de libras em custos diretamente relacionados com o ataque, que também contribuiu para o fraco crescimento da economia britânica no terceiro trimestre daquele ano. NCSC prepara defesa automatizada e alerta para uma vaga de atualizaçõesPerante a evolução das ameaças, o NCSC está a desenvolver uma abordagem de defesa baseada numa maior utilização de automatização e inteligência artificial. Entre as iniciativas destacadas encontram-se o Cyber Shield, orientado para a deteção, análise e resposta com recurso a sistemas de IA com agência, e a National Detect Strategy, atualmente em fase piloto, que pretende reforçar a capacidade coletiva de identificar e responder a ameaças em sistemas críticos. A National Detect Strategy estabelece objetivos para 2030, incluindo a melhoria da deteção de vulnerabilidades conhecidas e de técnicas utilizadas por atacantes, bem como o acesso dos defensores às ferramentas e competências necessárias para responder eficazmente. A estratégia envolve operadores de infraestruturas, fornecedores tecnológicos, entidades públicas e instituições académicas, procurando ultrapassar limitações que não podem ser resolvidas individualmente pelas organizações. O NCSC antecipa também uma possível vaga de atualizações de segurança, impulsionada pela capacidade crescente dos sistemas de IA para descobrir vulnerabilidades em grandes bases de código. O organismo alerta que as organizações poderão ter de aplicar correções com maior frequência e rapidez, incluindo em sistemas críticos e nas cadeias de abastecimento. Esta evolução poderá aumentar a pressão sobre as equipas de IT e segurança, sobretudo nas empresas que acumulam dívida técnica ou dependem de infraestruturas antigas. Apesar da importância atribuída à IA, o relatório insiste que as medidas fundamentais continuam a ser determinantes. A atualização de software, a configuração segura dos sistemas, o controlo de acessos, a proteção contra malware e a preparação para incidentes permanecem entre as recomendações prioritárias. O NCSC defende igualmente uma adoção mais generalizada de passkeys, consideradas mais resistentes ao phishing e ao roubo de credenciais do que os mecanismos tradicionais baseados em palavras-passe. Os resultados dos serviços preventivos britânicos demonstram o potencial destas medidas. O Early Warning conta com 19.922 organizações registadas, mais 52% do que no ano anterior, enquanto o serviço de notificações proativas enviou mais de 52 mil alertas sobre vulnerabilidades, tendo sido posteriormente resolvidos 70% dos problemas identificados. Um ensaio realizado pelo NCSC concluiu ainda que as organizações notificadas corrigiram determinadas vulnerabilidades até 45% mais rapidamente do que aquelas que não receberam os avisos. Criptografia pós-quântica exige preparação até 2028Além da inteligência artificial, o relatório identifica a transição para a criptografia pós-quântica como um dos principais desafios tecnológicos da próxima década. O NCSC recomenda que as organizações concluam as atividades de identificação dos sistemas criptográficos e o planeamento da migração até 2028, realizem as migrações prioritárias até 2031 e completem a transição até 2035. A entidade considera que esta preparação deve começar pelos sistemas críticos, pela informação sensível e pelas dependências tecnológicas existentes nas cadeias de abastecimento. A migração exigirá não apenas a substituição de algoritmos, mas também a identificação dos locais onde a criptografia é utilizada, a definição de responsabilidades internas e a articulação com fornecedores tecnológicos. O objetivo é reduzir a exposição futura de sistemas e informações a capacidades de computação quântica capazes de comprometer determinados mecanismos criptográficos atualmente utilizados. No balanço dos dez anos de atividade do NCSC, Richard Horne, CEO da entidade, reconhece que a resiliência do Reino Unido ainda não atingiu o nível necessário para acompanhar a evolução das ameaças. O responsável considera que a IA está a tornar os ataques mais rápidos, baratos e acessíveis, mas sublinha que a tecnologia não criou as fragilidades existentes: está sobretudo a expor problemas acumulados ao longo de anos de investimento insuficiente e modernização adiada. A principal conclusão do relatório é que a próxima fase da cibersegurança dependerá da capacidade das organizações para reduzir vulnerabilidades conhecidas, acelerar a recuperação após incidentes e integrar a segurança desde a conceção das tecnologias. Para o NCSC, a inteligência artificial poderá reforçar significativamente as capacidades defensivas, mas também aprofundar a distância entre as organizações que conseguem modernizar as suas infraestruturas e aquelas que permanecem dependentes de sistemas vulneráveis. |