Continuidade de negócio: da prevenção à capacidade de resposta

Perante ciberataques, falhas tecnológicas e outros incidentes capazes de interromper as operações, a continuidade de negócio tornou-se numa prioridade para as organizações. IP Telecom, NetApp, Ricoh, VisionWare e Zscaler partilham a sua visão sobre o mercado de continuidade de negócio

Continuidade de negócio: da prevenção à capacidade de resposta
Rui Santos Jorge / MediaNext

Garantir a continuidade de negócio vai muito além de proteger os sistemas informáticos ou ter planos de recuperação. É necessário identificar os processos críticos, compreender as dependências tecnológicas e operacionais e preparar toda a organização para responder a situações de crise. Num contexto em que as interrupções podem ter consequências financeiras, operacionais e reputacionais, a capacidade de recuperação assume um papel central na resiliência das empresas.

Numa mesa-redonda dedicada à continuidade de negócio, a IT Insight reuniu especialistas para debater os principais desafios das organizações, as estratégias de prevenção e recuperação e o papel da tecnologia na manutenção das operações perante situações inesperadas.

Muitas organizações já não querem apenas recuperar depressa: querem continuar a funcionar durante o incidente. Nos vossos clientes, o que distingue as que conseguem das que não conseguem?

 

“Há um aumento da carga processual, mas há também uma procura de soluções para mitigar os problemas de segurança”


José Carlos Gonçalves, CISO, IP Telecom

José Carlos Gonçalves, CISO, IP Telecom: “Quem sobrevive hoje é quem testa, treina e quer manter o negócio operacional. Podemos ter técnicos muito bons, mas sem testes e simulações – do pior cenário possível – não é possível recuperar os sistemas e os dados com a velocidade necessária para o negócio”

Henrique Silva, Senior Client Executive, NetApp: “Quando nos relacionamos com cibersegurança, a situação é mais complexa. Podemos ter uma infraestrutura que disponibiliza os dados, mas precisamos de ter a certeza de que ela está ativa em segurança. Temos de garantir as aplicações e as interligações dessas aplicações para recuperar os dados. As empresas mais resilientes são aquelas que testam, que identificam as suas aplicações críticas e que viram e analisaram as suas dependências”

Bruno Castro, Founder & CEO, VisionWare: “Antigamente, o mundo digital estava nas catacumbas e não se queria saber da continuidade. Depois, até por questões como a NIS2 e cibercrime, há a ideia de que um dia vai acontecer a mim e a pergunta que se coloca é se consigo recuperar e continuar a operar. Temos de conhecer muito bem o que é efetivamente crítico para que não existam dúvidas num momento de crise”

Nuno Rodrigues, Senior Sales Engineer, Zscaler: “Hoje, já percebemos que não é uma questão de se, mas sim quando vamos ser atacados e temos de nos preparar para isso. Temos de trazer para os clientes os mecanismos e infraestruturas que fogem um pouco do tradicional para, quando o incidente acontece, a operação continue a operar com o mínimo de estrago possível e não se espalhe para toda a infraestrutura da empresa”

Os sistemas podem estar todos de volta e o negócio continuar parado. Nos incidentes que acompanharam, o que é que costuma ficar para trás quando a tecnologia já recuperou?

“Há pontos de preocupação que temos de endereçar. Um deles é a dependência de serviços e sistemas de cloud que não estão na União Europeia”


Marco Raposo, Head of Cybersecurity, Ricoh

 

Marco Raposo, Head of Cybersecurity, Ricoh: “Fica o próprio negócio. Ao que temos assistido, na quase totalidade dos casos, o negócio não recupera na totalidade. Muitas vezes é a confiança, que é base de muitos negócios e de relacionamento entre parceiros. Falamos muitas vezes da continuidade de negócio como um tema tecnológico, mas não é. É um conjunto de decisões que têm de ser tomadas para que o negócio não pare, ou que tenha o mínimo de impacto possível, mas suportado com a tecnologia”

Cada vez mais processos dependem de modelos e de serviços externos de Inteligência Artificial (IA). Já viram um cliente sentir na operação a falha de um desses serviços, ou resultados em que deixou de poder confiar? O que mudou depois?

Nuno Rodrigues, Zscaler: “Estamos numa fase em que a informação e o resultado que a IA nos devolve é mais impactante do que a falha do serviço. As empresas ainda não estão dependentes da falha da IA, mas sim da confiança que o sistema nos devolve. No futuro, se calhar com uma maior integração, isso vai inverter e as organizações vão estar mais dependentes da não falha do serviço porque a informação é mais confiável. Estamos, no entanto, ainda numa fase embrionária desta adoção”

As organizações controlam cada vez menos a cadeia tecnológica de que dependem. Quando um cliente vosso tem um incidente grave, o que costuma falhar primeiro que ninguém tinha previsto?

 

“Há peças no puzzle que já ninguém dá muita importância, mas quando deixam de funcionar fazem um efeito dominó violento na organização”


Bruno Castro, Founder & CEO, VisionWare

Bruno Castro, VisionWare: “Geralmente, o que falha não é o conhecimento da tecnologia interna porque já se conhece bem o que se tem. O que temos sentido é que o que falha são as dependências que ninguém vê e que, com o tempo, ninguém controla. Há peças no puzzle que já ninguém dá muita importância, mas quando deixam de funcionar fazem um efeito dominó violento na organização. É muito difícil, atualmente, ter controlo total de toda a infraestrutura e de tudo o que se usa. O mundo digital é cada vez mais complexo e as dependências invisíveis começam a aparecer”

A NIS2 e a DORA levaram a resiliência até à administração. Nas conversas com os vossos clientes, já veem decisões de negócio diferentes por causa disso ou sobretudo mais documentação?

Marco Raposo, Ricoh: “Estamos numa fase de compliance sintética, ou seja, a maioria das organizações que tem de cumprir a NIS2 foi às formações e, agora, vão a sistemas de IA generativa e produzem a compliance sintética. A resposta acaba por ser um ‘nim’, porque o objetivo da compliance é aumentar a capacidade de resiliência das organizações, especificamente no domínio digital. Diria que cerca de 95% das organizações que têm de cumprir a NIS2 ainda não têm o tema endereçado e ainda não chegou a ser um tema de negócio”

José Carlos Gonçalves, IP Telecom: “Há um aumento da carga processual, mas há também uma procura de soluções para mitigar os problemas de segurança. Mais do que estar focado na NIS2 ou DORA, é ter a capacidade de resiliência. Há clientes que telefonam a dizer que não estão abrangidos, mas perguntam como podem aumentar a sua resiliência. Há quem esteja simplesmente a criar papel para estar conforme”

Henrique Silva, NetApp: “O que estamos a constatar é que os nossos interlocutores estão a mudar. Antes seriam de infraestrutura e agora são as equipas de segurança e eventualmente são envolvidas as áreas de negócio. Há uma necessidade de escrever essa papelada, mas verificamos que os clientes que estão ao abrigo da NIS2 e também aqueles que, não estando abrangidos, se relacionam com essas entidades e querem estar num elevado nível de conformidade. Vemos uma necessidade de testar, não só tecnológico, mas ao negócio como um todo”

Durante um ciberataque, a segurança pode querer isolar sistemas que a operação precisa de manter a funcionar. Nos casos que acompanharam, quem acabou por decidir e essa decisão estava tomada antes do incidente?

José Carlos Gonçalves, IP Telecom: “Falando como CISO, a minha preocupação de segurança pode ser contraproducente com o que está a acontecer. Por exemplo: na saúde, não posso bloquear porque isso pode significar a vida ou a morte de alguém. Tem de existir alguém de cima a decidir; é a gestão de topo que decide o que vai orientar a decisão, como por exemplo segregar uma infraestrutura para continuar a operar. Isto tem de ser previamente preparado pela gestão de topo”

A autenticação é a porta de entrada para quase tudo. Quando falha num cliente, o que veem acontecer: a operação para ou abrem-se exceções que depois ficam abertas?

“Temos de colocar o sistema a funcionar e abrem-se exceções que depois ficam abertas. Isso pode ter de acontecer, mas essas exceções têm de ser muito bem documentadas para depois as retirar”


Nuno Rodrigues, Senior Sales Engineer, Zscaler

 

Nuno Rodrigues, Zscaler: “É um clássico. Temos de colocar o sistema a funcionar e abrem-se exceções que depois ficam abertas. Isso pode ter de acontecer, mas essas exceções têm de ser muito bem documentadas para depois as retirar. O utilizador autenticado não pode ser uma porta aberta para a infraestrutura. Também é preciso analisar a localização e o comportamento. Isso deve ter um score dinâmico que vá analisando o que o utilizador está a fazer para permitir ou não o acesso às aplicações”

A resposta a incidentes depende da monitorização, dos registos e dos alertas. Já viram casos em que a ausência de alertas escondia um problema? Como se percebe a diferença a tempo?

Henrique Silva, NetApp: “Somos uma parte do puzzle e uma parte importante porque estamos nas infraestruturas. Temos um papel fundamental na monitorização e, como tal, temos de implementar mecanismos de monitorização. A ausência de alertas não significa ausência de problemas; o problema pode já estar lá. O que temos é ausência de visibilidade. Temos de implementar mecanismos de identificação que, em conjunto com outros mecanismos, nos permitam proteger do desconhecido e conseguir perceber comportamentos anómalos”

Bruno Castro, VisionWare: “Infelizmente, sim. Os pressupostos base são dois: garantir que o SOC está a funcionar, seja qual for o fabricante, e consegue cobrir todo o ambiente digital da organização; depois, é a qualidade dos dados. Quando recolho evidências – e já se consegue processar milhões de registos por segundo – é preciso perceber o que aparece nos monitores. Ter um serviço de SOC não dá, por si só, segurança a ninguém; só dá se estiver bem montado”

Marco Raposo, Ricoh: “Temos de monitorizar e monitorização. O processo de monitorização é um processo em si próprio com diferentes níveis de maturidade, que vai crescer dentro da própria organização. Nunca vai crescer a 100% porque estamos a falar de milhares de milhões de logs que vão ser registados por dia. Os atacantes têm todo o tempo do mundo e nós não podemos falhar porque quando falharmos vamos ter um impacto que pode ser muito grande e custar muito dinheiro”

Que dependência tecnológica ou serviços legados vos preocupa mais nos próximos três a cinco anos?

Bruno Castro, VisionWare: “A dependência da tecnologia já não é um tema porque todos dependemos da tecnologia de alguma maneira. O que realmente me preocupa é aquela tecnologia que não controlamos, não conhecemos ou não vemos e aquelas que não compreendemos. Já a pensar num futuro a médio prazo, preocupa-me a perda de capacidade de entender porque é que estamos a falhar por causa da complexidade envolvida”

 

“Temos de implementar mecanismos de identificação que, em conjunto com outros mecanismos, nos permitam proteger do desconhecido e conseguir perceber comportamentos anómalos”


Henrique Silva, Senior Client Executive, NetApp

Henrique Silva, NetApp: “O tema bate sempre na IA e todos estão preocupados com a inteligência artificial. A mim preocupa-me tudo o que está relacionado com IA. Não consigo viver sem a IA porque se não será menos produtivo, mas quando falamos de IA falamos do passado, não do futuro. Também a velocidade que temos para reagir é cada vez menor, até por tudo estar conectado”

José Carlos Gonçalves, IP Telecom: “É complicado identificar um, mas, ao fazê-lo, é ter dependências de um único sistema, um único fabricante, algo que é único. O shadow IT ou shadow AI é algo que não conhecemos e não conseguimos controlar”

Marco Raposo, Ricoh: “Há pontos de preocupação que temos de endereçar. Um deles é a dependência de serviços e sistemas de cloud que não estão na União Europeia. Temos uma dependência grande das infraestruturas, mas há temas que podemos endereçar, como a cloud ou a identidade, e podem ser mais resilientes”

Nuno Rodrigues, Zscaler: “Vamos continuar a ver nos próximos tempos uma preocupação muito grande com a inteligência artificial, não só a evolução, mas também a sua economia. Também me incomoda a preocupação com a inteligência artificial quando estamos a descurar temas simples que já são problemas há muito tempo que não são endereçados pelas organizações”

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