A concentração do investimento em IA, semicondutores e data centers pode agravar o fosso entre economias desenvolvidas e emergentes, alerta a UNCTAD
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O investimento global voltou a crescer em 2025, mas a recuperação está a beneficiar sobretudo as economias mais desenvolvidas e os setores tecnológicos estratégicos. O alerta parte da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), que considera existir o risco de uma nova divisão económica entre países capazes de captar investimento em Inteligência Artificial (IA), semicondutores e infraestruturas digitais e aqueles que poderão ficar excluídos destas cadeias de valor. De acordo com o World Investment Report 2026, o investimento direto estrangeiro (IDE) atingiu 1,6 biliões de dólares em 2025. No entanto, a maior parte desse crescimento concentrou-se em economias desenvolvidas e em setores intensivos em capital e tecnologia, como data centers, semicondutores, petróleo e gás. A United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD) destaca que os projetos greenfield em setores considerados estratégicos cresceram de 109 mil milhões de dólares em 2020 para 576 mil milhões em 2025, representando já 44% do investimento global neste tipo de projetos. Ainda assim, as economias de baixo e médio-baixo rendimento captam apenas cerca de 10% deste investimento, menos de metade da quota registada noutros setores. Segundo o relatório, esta transformação reflete a crescente importância da IA, da computação, da transição energética e da necessidade de cadeias de abastecimento mais resilientes. Paralelamente, os governos estão a desempenhar um papel cada vez mais ativo através de incentivos, subsídios, requisitos de conteúdo local e mecanismos de controlo do investimento. Em 2025 foi registado um número recorde de medidas de política de investimento. Embora a maioria continue favorável aos investidores, estas medidas tornaram-se mais seletivas, privilegiando tecnologias e indústrias consideradas estratégicas e reforçando simultaneamente restrições ligadas à segurança nacional. Para a UNCTAD, esta mudança representa uma transição de políticas centradas na abertura dos mercados para estratégias de investimento cada vez mais orientadas por objetivos industriais e geopolíticos. Contudo, nem todos os países dispõem da capacidade financeira para competir através de programas de incentivos semelhantes aos lançados pelas principais economias mundiais. O organismo alerta que este cenário poderá dificultar ainda mais o acesso das economias em desenvolvimento às cadeias globais de valor, numa altura em que os modelos tradicionais de industrialização assentes em mão de obra intensiva perdem relevância devido à automação, à digitalização e à reorganização das cadeias de produção. Apesar dos desafios, a UNCTAD considera que continuam a existir oportunidades para estas economias. Recursos minerais críticos, potencial para energias renováveis, mercados digitais em crescimento, população jovem e plataformas de integração regional são apontados como vantagens competitivas que podem ser exploradas em segmentos específicos das novas cadeias de valor, como o processamento de minerais, a produção de componentes, a manutenção de infraestruturas digitais, a logística ou a reciclagem. O relatório defende igualmente que os incentivos públicos devem estar associados a objetivos concretos de desenvolvimento, como a transferência de tecnologia, a formação de talento, o desenvolvimento de fornecedores locais e o cumprimento de metas ambientais. A UNCTAD conclui que a corrida global aos setores estratégicos é inevitável, mas alerta que uma concentração excessiva do investimento num número reduzido de economias poderá reduzir a diversificação da economia mundial e comprometer a sua resiliência. O desafio passa por criar condições para que mais países possam integrar as cadeias de valor que irão sustentar o crescimento económico nas próximas décadas. |