A rede empresarial nem sempre aparece nas conversas da administração, até ao dia em que falha. Conectividade, SD-WAN, Wi-Fi 7 e convergência com segurança são temas que vivem nos relatórios técnicos, mas cujas consequências chegam à margem operacional, à experiência do cliente e à velocidade de execução do negócio
|
A rede não é apenas uma infraestrutura, mas sim uma estratégia das organizações. Para os CIO e CTO que gerem organizações em plena transformação digital, as decisões sobre conectividade empresarial têm hoje implicações que vão muito além da largura de banda ou do alcance do sinal Wi-Fi. Segurança, resiliência operacional, suporte a modelos de trabalho híbridos e preparação para Inteligência Artificial (IA) passa tudo pela rede. Em 2025, o mercado global de SD-WAN valia cerca de 8,9 mil milhões e deverá mais do que duplicar até 2030, com uma taxa de crescimento anual composta superior a 12%, segundo a Data Intelligence. O Wi-Fi 7, a mais recente norma de conectividade sem fios, representava já 31% das receitas do segmento enterprise de access points no terceiro trimestre e 2025, face a apenas 11% no início do mesmo ano, de acordo com a IDC. Convergir não é opcionalO tema central desta geração de soluções de networking empresarial é, antes de mais, convergência. Convergência entre rede e segurança, entre gestão central e execução distribuída e entre conectividade com fios e wireless. A adoção de uma visão fragmentada (em que a rede, a segurança e a gestão vivem em silos separados) é cada vez mais identificada como um fator de risco operacional e financeiro. A Gartner estima que, até 2026, 60% das novas aquisições de SD-WAN vão fazer parte de uma oferta Secure Access Service Edge (SASE) de fornecedor único, comparado com apenas 15% em 2022. O mercado está a apontar para ter menos consolas de gestão, menos zonas cinzentas entre produtos de diferentes fabricantes e mais responsabilidade consolidada.
Para a Fortinet, esta convergência é a espinha dorsal da proposta de valor. Hugo Azevedo, Business Development Manager e LAN Edge Specialist da Fortinet Portugal, resume a abordagem da empresa: “no centro desta estratégia está o conceito de Site Controller, suportado por um equipamento FortiGate, que funciona como plano de gestão unificado para todo o site. Isto permite consolidar num único dispositivo como Secure SD-WAN, routing, firewall de próxima geração, controlo de switching e wireless, bem como capacidades de controlo de acessos”. A simplificação que este modelo promete tem consequências diretas na operação, uma vez que leva a menos intervenções manuais, visibilidade end-to-end e uma superfície de ataque mais controlável. No entanto, também implica uma aposta num ecossistema fechado, com os trade-offs a que isso obriga. A Cisco apresenta uma lógica semelhante, ainda que o portfólio seja mais extenso. Ricardo Silva, CTO & Leader, Sales and Solutions Engineering da Cisco Portugal, defende que a diferenciação está na profundidade da integração. “Somos a única empresa com uma arquitetura verdadeiramente convergente que une SD-WAN, Wi-Fi, switching, routing e segurança nativa, sem compromissos de funcionalidade ou capacidade”, explica Ricardo Silva, acrescentando que “a cada solução Cisco que o cliente adiciona, tem o benefício específico da própria, assim como o efeito composto que acrescenta vantagens adicionais”. Wi-Fi 7 está a chegar ao mercadoA norma Wi-Fi 7 (IEEE 802.11be) obteve certificação oficial em janeiro de 2024. Desde então, a curva de adoção em ambiente enterprise tem sido mais rápida do que a geração anterior: a IDC apontava para que o Wi-Fi 7 representasse 17% das receitas enterprise de access points até ao final de 2025, mas os números reais acabaram por superar essa projeção, chegando aos 31% no terceiro trimestre de 2025. Em Portugal, o cenário tem especificidades próprias, até porque o Wi-Fi 6E nunca chegou a ter uma adoção expressiva. A maioria das organizações ainda opera em Wi-Fi 6, mas a procura pelo Wi-Fi 7 começou a acelerar de forma clara no segundo semestre de 2025.
Marilyne Michel, Head of D-Link Iberia and France, confirma que “a procura pelo Wi-Fi 7 está a acelerar desde o segundo semestre de 2025, impulsionada pela explosão dos usos da nuvem e da IA, bem como pelos preços cada vez mais competitivos. Esta procura provém principalmente de setores pioneiros como o turismo e as universidades”. Há, no entanto, um constrangimento técnico que os decisores precisam de incorporar nos seus planos de investimento: a infraestrutura de switching existente. A maioria dos switches de edge instalados nas organizações portugueses e europeias, de uma forma geral, opera a 1 Gigabit. O Wi-Fi 7 pode atingir velocidades até 7.200 Mbps, mas esse potencial pode ficar estrangulado se os access points estiverem ligados a portas gigabits. A recomendação dos fabricantes é portas de, pelo menos, 2,5G, idealmente 10G. “90% dos switches de extremidade são gigabit, o que representa um estrangulamento para o Wi-Fi 7”, alerta Marilyne Michel. Esta realidade transforma o que parecia ser uma simples troca de access points num projeto de modernização mais abrangente, e com o correspondente impacto no TCO. Hugo Azevedo identifica um padrão de substituições diretas, sem revisão da arquitetura. “Existe uma tendência para substituições like-for-like que geram sobreprovisionamento. A adoção de uma estratégia Wi-Fi first implica reduzir infraestrutura fixa e redimensionar corretamente o switching, evitando substituições diretas desnecessárias”, aconselha. SD-WAN: da racionalização de custos à plataforma de IAO argumento original do SD-WAN era, sobretudo, económico: substituir ou complementar circuitos MPLS dispendiosos por ligações de Internet com gestão inteligente de tráfego. Esse argumento mantém-se, mas ficou para segundo plano face a uma agenda mais ampla. No mercado português, a Fortinet observa que o SD-WAN continua a ser impulsionado pela migração para serviços cloud, mas que a procura mais forte é, atualmente, pelo Wi-Fi enterprise seguro, que Hugo Azevedo designa como o movimento Secure Wi-Fi First. “O wireless tornou-se na principal tecnologia de acesso em escritórios modernos, suportando forças de trabalho móveis, aplicações colaborativas em tempo real e elevada densidade de dispositivos. Muitas organizações estão a otimizar infraestrutura, reduzindo switching fixo e direcionando investimento para Wi-Fi de alto desempenho”, explica.
A Cisco aponta para a inteligência artificial como o vetor que redefine o valor do SD-WAN. As capacidades de IA que lançou no início de 2025 (que incluem o AgenticOps e a integração com ThousandEyes) são apresentadas como operacionais e não como promessas futuras. “Antecipa e evita degradação de aplicações, deteta anomalias e acelera a sua resolução, até de forma autónoma, reduzindo o MTTR de horas para minutos”, descreve Ricardo Silva. “Não é uma buzzword – são funcionalidades operacionais que os nossos clientes já usam diariamente para ter redes mais resilientes, com menos intervenção manual e melhor experiência das aplicações e dos utilizadores”. A Fortinet tem uma abordagem equivalente com o FortiAIOps, uma componente que a empresa considera verdadeiramente diferenciador para 2026: análise proativa baseada em inteligência artificial e machine learning, com identificação de causas raiz antes de qualquer disrupção chegar aos utilizadores finais. Posicionamentos distintos, necessidades distintasUm dos aspetos mais relevantes para os decisores portugueses é perceber que os três fabricantes aqui presentes não competem exatamente no mesmo espaço e que essa distinção tem implicações práticas. A Cisco domina o mercado de Wi-Fi enterprise com uma quota de 37,4% das receitas globais no terceiro trimestre de 2025 (segundo a IDC) e é reconhecida como líder no Magic Quadrant da Gartner para SD-WAN. A proposta para o mercado português assenta em dois vetores principais: a plataforma Meraki, vocacionada para organizações que preferem gestão SaaS e máxima simplicidade operacional, e o ambiente Catalyst, para quem quer controlo total on-premises e elevada capacidade de configuração. Ricardo Silva explica que “é muito simples e resolvido numa pergunta”: se é pretendido uma gestão SaaS, ou se se quer uma plataforma de gestão on-premises e totalmente controlada pelo cliente. A Fortinet, também reconhecida como líder no Magic Quadrant para SASE, para SSE, para SD-WAN e Enterprise Wired and Wireless LAN Infrastructure da Gartner, apela a organizações que valorizam a convergência nativa de rede e segurança acima de tudo. O cliente típico português, de acordo com Hugo Azevedo, é “uma organização em processo de digitalização que procura consolidar networking e segurança num modelo mais eficiente e resiliente, evitando soluções baseadas em múltiplos produtos isolados e estruturas fragmentadas”. Setores como indústria, retalho e serviços financeiros são referidos como casos de uso privilegiados. A D-Link ocupa um espaço diferente. Presente junto das PME, ganha cada vez mais quota junto das grandes empresas e no setor industrial. Marilyne Michel rejeita a etiqueta de ‘marca de baixo custo’ e reivindica o que chama de “pragmático premium”, ou seja, a D-Link oferece “o mesmo poder tecnológica que os fabricantes premium, mas sem a carga orçamental frequentemente associada às empresas globais. Se ser ‘Value’ significa permitir que um hotel na Madeira ou uma fábrica em Braga se equipem com um Wi-Fi 7 ultrarrápido sem sacrificar a sua margem operacional, então somos esse ator e reivindicamo-lo com orgulho”. Em Portugal, onde a larga maioria das empresas são PME, este argumento tem alcance real. A D-Link identifica hotéis, alojamentos locais, escolas e administração pública como clientes prioritários, setores onde a conectividade é crítica para a experiência do cliente ou para operações, mas onde os recursos internos de IT são tipicamente limitados. O que os projetos ensinamPara além dos posicionamentos de mercado, interessa perceber o que acontece quando estas soluções são implementadas. Portugal tem sido historicamente um early adopter em SD-WAN e SDN; Ricardo Silva refere explicitamente que “Portugal sempre foi reconhecido internacionalmente como um early adopter de sucesso nas tecnologias de SD-WAN, DAS e ACI”, o que significa que há experiência acumulada no mercado. Um aspeto que os três fabricantes sublinharam é a importância do planeamento prévio. As falhas nas implementações raramente se devem a limitações tecnologias, mas sim a planeamento insuficiente, ao mau dimensionamento do ambiente RG, à subestimação da complexidade de integração com sistemas legados ou à falta de envolvimento executivo para remover bloqueios operacionais. A D-Link apresenta um caso concreto: uma empresa parceira que gere redes de hotéis em Portugal e Cabo Verde implementou uma solução 100% wireless com Wi-Fi 7 e ligações 10G PoE num edifício de escritórios: dez access points DAP-E9560 e três switches DXS-1210-10MP, geridos pelo controlador Nuclias Connect. “A solução é praticamente plug and play, não houve nenhuma dificuldade na implementação e o cliente continua extremamente satisfeito após todos estes meses sem nenhuma paragem”, refere Marilyne Michel. Nos projetos de maior escala, a abordagem da Fortinet passa por uma arquitetura modular baseada em templates dimensionados por tipologia de site, de XS a XXXL, com pilotos validados antes do rollout total. A componente de governação executiva é explicitamente identificada como fator crítico: sem envolvimento da liderança para remover bloqueios, os projetos alinham. Por sua vez, a Cisco salienta os ganhos de automação que distinguem os seus projetos: “o tempo de projeto é muito menor versus a nossa concorrência pela nossa capacidade de criação de perfis e automação completa da rede, logo desde a sua implementação. Sendo ainda mais notório em projetos de grandes dimensões”. Segurança, o fio que liga tudoNão existe hoje uma conversa sobre next-gen networking que não passe, inevitavelmente, pela segurança. A adoção massiva de cloud e SaaS, o modelo híbrido de trabalho, a proliferação de dispositivos IoT e OT nas instalações, tudo isto aumentou a superfície de ataque de forma significativa. A Cisco aponta para o seu investimento em segurança nativa como elemento diferenciador, começando no desenho dos próprios chips, com uma visão zero-trust universal e políticas centralizadas aplicáveis a componentes de segurança de diferentes fabricantes. “O objetivo é eliminar um dos maiores problemas: as zonas cinzentas entre uma solução de segurança e outra”, explica Ricardo Silva. Na Fortinet, a segurança não é um módulo adicional, mas é o princípio organizador de toda a plataforma. O protocolo FortiLink estende a Security Fabric até aos access points, com microssegmentação e controlo de acesso à rede desde o momento da ligação. Para ambientes com dispositivos IoT industriais, esta capacidade é particularmente relevante, uma vez que permite segmentar tráfego OT sem depender de soluções externas. A questão do lock-in é, neste contexto, incontornável. Ricardo Silva defende que a Cisco tem uma filosofia aberta, com participação nos standards e interoperabilidade multivendor onde necessário, e que a fidelização resulta do valor gerado, não de restrições artificiais. Hugo Azevedo reconhece os trade-offs da abordagem Fortinet: existe um equilíbrio entre custo e resiliência e a transição para um modelo security-driven implica decisões sobre depreciação de ativos existentes e planeamento faseado. O que os decisores devem reterAs três perspetivas recolhidas convergem em alguns pontos essenciais para os decisores portugueses. A infraestrutura de switching é o gargalo real da adoção de Wi-Fi 7. Antes de decidir sobre access points, é necessário avaliar o estado dos switches de extremidade. Migrar para portas MultiGigabit não é opcional se se quiser extrair valor real do Wi-Fi 7 e esse custo tem de entrar nos cálculos de TCO desde o início. A convergência rede-segurança deixou de ser uma tendência para se tornar num requisito operacional. Gerir redes e segurança como entidades separadas aumenta complexidade, custo e risco. A questão não é se convergir, mas a que ritmo e com que modelo de transição. O planeamento continua a ser o fator que separa implementações bem-sucedidas de projetos que falham as expectativas. Dimensionamento RF, envolvimento executivo, gestão da depreciação de ativos legados e pilotos validados antes do rollout total são praticamente que aparecem, de forma consistente, nas histórias de sucesso. E, por fim, a escolha do fabricante deve ser conduzida por adequação às necessidades reais da organização, não por posicionamento de mercado. Uma PME portuguesa do setor da hotelaria tem requisitos muito diferentes de uma organização industrial com ambientes OT complexos ou de uma empresa financeira com dezenas de filiais. O mercado oferece, hoje, opções sólidas para cada um desses perfis. |