Juan Olivera, CEO da Ericsson Portugal, considera que a cobertura móvel já não é suficiente para avaliar a qualidade das redes. Num encontro com jornalistas, o responsável defendeu a aceleração do 5G standalone, alertou para as novas exigências da inteligência artificial e pediu maior rapidez na modernização das comunicações críticas e na criação de condições para o investimento
Portugal dispõe de uma infraestrutura de conectividade competitiva no contexto europeu, mas precisa de acelerar a evolução das redes móveis para acompanhar as exigências da Inteligência Artificial (IA), das empresas e dos serviços públicos. O alerta foi deixado por Juan Olivera, CEO da Ericsson Portugal, durante um encontro com jornalistas esta quarta-feira, 28 de outubro, no qual defendeu que o país deve passar de uma estratégia centrada na cobertura para outra orientada para a qualidade, a capacidade e a resiliência das comunicações.
O responsável considera que o debate sobre a transformação digital tem privilegiado os investimentos em IA, data centers e capacidade de computação, deixando frequentemente a conectividade móvel em segundo plano. Embora reconheça as vantagens de Portugal na disponibilidade de energia renovável, nas ligações internacionais por cabos submarinos e na infraestrutura de fibra ótica, entende que estas condições não serão suficientes sem redes móveis preparadas para suportar novas aplicações. “Quando leio os meios de comunicação, todos falam de IA, de gigafábricas e de capacidade de computação. Mas não podemos ignorar o papel da conectividade móvel”, afirmou Juan Olivera. 5G standalone e qualidade de serviço tornam-se prioritáriosSegundo os dados referidos pela Ericsson, a cobertura 5G em Portugal alcança cerca de 98% da população. Para Juan Olivera, este indicador demonstra o progresso realizado, mas não permite avaliar, por si só, a capacidade das redes para responder às necessidades futuras. A distinção está relacionada com a arquitetura utilizada nas implementações de 5G. As primeiras redes recorreram sobretudo à configuração non-standalone, que combina acesso rádio 5G com um núcleo de rede 4G. Embora esta abordagem permita melhorar o desempenho, não disponibiliza todas as capacidades de uma infraestrutura integralmente 5G. A evolução para o 5G standalone, que utiliza tecnologia 5G tanto no acesso rádio como no núcleo da rede, abre caminho à chamada conectividade diferenciada. Através de funcionalidades como o network slicing, os operadores podem disponibilizar segmentos lógicos de rede com requisitos específicos de desempenho e qualidade de serviço. “Até agora, as redes móveis funcionavam, de certa forma, segundo um modelo de melhor esforço. Com a conectividade diferenciada, podemos reservar recursos para determinados serviços e utilizadores e garantir indicadores específicos de qualidade”, explicou o responsável. Esta capacidade poderá assumir particular importância para organizações que dependem de comunicações fiáveis, incluindo empresas industriais, hospitais e serviços de emergência. Juan Olivera considera que o 5G standalone já começou a ganhar expressão em Portugal, mas defende que a sua utilização deve ser alargada para concretizar o potencial da tecnologia. A mudança representa também uma oportunidade para os operadores desenvolverem ofertas empresariais com características de serviço diferenciadas, em vez de competirem apenas com base na cobertura e na velocidade de acesso. IA está a aumentar a pressão sobre o tráfego de uplinkA adoção crescente de aplicações de IA deverá alterar significativamente os padrões de utilização das redes móveis. Historicamente, as infraestruturas foram dimensionadas sobretudo para o consumo de conteúdos, privilegiando o downlink, ou seja, os dados recebidos pelos utilizadores. Com a utilização de aplicações que dependem do envio de informação para processamento remoto, o uplink ganha uma importância crescente. Segundo os dados apresentados pela Ericsson, o tráfego de uplink está a crescer três vezes mais depressa do que o de downlink. “Até agora, o foco da conectividade móvel estava na cobertura e na velocidade de receção de dados. Isso está a mudar com as aplicações de inteligência artificial, que são muito exigentes em termos de uplink”, indicou. O responsável explicou que esta evolução coloca desafios à configuração das redes e à utilização do espectro, tradicionalmente orientadas para maiores volumes de tráfego descendente. Acresce a diferença entre a capacidade de transmissão das estações-base e a dos dispositivos móveis, que condiciona o envio de informação a partir dos equipamentos dos utilizadores. Na perspetiva da Ericsson, as redes terão de evoluir para responder simultaneamente ao crescimento do tráfego e à necessidade de garantir níveis de desempenho adequados a aplicações mais exigentes. Esta transformação reforça a importância do investimento em capacidade, modernização tecnológica e conectividade diferenciada. Resiliência e modernização do SIRESP exigem maior rapidezA resiliência das comunicações foi outro dos temas centrais do encontro. Juan Olivera considera que o apagão elétrico que afetou Portugal e Espanha demonstrou a dependência crescente da sociedade relativamente às redes de telecomunicações, tanto para as atividades empresariais como para os serviços públicos. O CEO da Ericsson Portugal manifestou preocupação com o ritmo de evolução das medidas destinadas a reforçar a capacidade de resposta das infraestruturas perante interrupções prolongadas. Durante o encontro, foi indicado que a consulta pública da ANACOM sobre resiliência das comunicações continuava em curso. A modernização do SIRESP foi apontada como uma prioridade particularmente relevante. A rede de comunicações de emergência utiliza tecnologia TETRA, que Juan Olivera considera necessário substituir progressivamente por soluções baseadas nos standards móveis 3GPP, nomeadamente 4G e 5G. “A tecnologia utilizada atualmente pelo SIRESP tem cerca de 25 a 30 anos. É uma tecnologia antiga e não faz sentido continuar a investir nela indefinidamente. Estas redes vão evoluir para os standards 3GPP, para 4G e 5G. A questão é quando”, afirmou. O responsável reconheceu que a transição exige cuidados especiais, uma vez que envolve comunicações utilizadas por bombeiros, forças de segurança e serviços de proteção civil. Por esse motivo, antecipa um período de vários anos durante o qual as tecnologias atuais e futuras terão de coexistir. Apesar de reconhecer a existência de um plano de evolução, considera que Portugal deve acelerar a sua execução e assegurar os recursos financeiros necessários. Na sua perspetiva, a maturidade das tecnologias disponíveis permite avançar sem esperar pelo desenvolvimento do 6G. Regulação e espectro condicionam o investimento nas redesA capacidade de investimento dos operadores europeus constituiu outro dos pontos destacados por Juan Olivera. O responsável considera que a fragmentação do mercado europeu limita a escala das empresas de telecomunicações, colocando-as em desvantagem face a operadores de mercados como os Estados Unidos e a China. Neste contexto, manifestou apoio à orientação do Digital Networks Act, iniciativa europeia que procura criar condições mais favoráveis ao desenvolvimento das infraestruturas de conectividade. Entre as prioridades identificadas estão a simplificação regulatória, a previsibilidade das condições de acesso ao espectro e a criação de maior escala para os operadores. “A escala é absolutamente fundamental num negócio de infraestruturas. Quando é necessário pagar pelo espectro e construir a rede, a dimensão dos operadores faz uma enorme diferença”, afirmou. O responsável defendeu ainda que as políticas de espectro devem favorecer o investimento nas redes, em vez de privilegiarem a receita obtida com a atribuição das frequências. Para a Ericsson, a estabilidade regulatória é essencial para permitir aos operadores planear investimentos de longo prazo. Questionado sobre as divergências existentes em Portugal relativamente aos modelos de atribuição de espectro, Juan Olivera mostrou-se preocupado com a falta de alinhamento entre intervenientes do setor. Evitou, contudo, tomar posição sobre a utilização de leilões, defendendo sobretudo um enquadramento que proporcione previsibilidade e incentive a modernização das infraestruturas. Soberania europeia e redes de satélite entram na discussãoA soberania tecnológica foi igualmente abordada pelo CEO da Ericsson Portugal, que considera necessário avaliar não apenas a segurança dos equipamentos e das operações, mas também o controlo sobre os ativos e as dependências tecnológicas. O responsável destacou o papel de fornecedores europeus de infraestruturas de telecomunicações, como a Ericsson e a Nokia, num contexto geopolítico em que as redes móveis assumem uma importância crescente para a segurança nacional e o funcionamento dos serviços essenciais. Na sua perspetiva, as políticas relativas a fornecedores considerados de elevado risco devem ser enquadradas numa estratégia mais ampla de redução de dependências, sem que isso implique necessariamente atrasos na evolução tecnológica. As redes não terrestres, incluindo as comunicações por satélite, constituem outra dimensão deste debate. Juan Olivera reconhece o seu potencial para assegurar cobertura em zonas remotas e disponibilizar ligações de contingência, mas não considera que possam substituir as redes móveis terrestres no curto e médio prazo, sobretudo em ambientes urbanos e no interior dos edifícios. Quanto ao 6G, o responsável indicou que a Ericsson já está a investir no desenvolvimento da próxima geração de redes e antecipa primeiras provas de conceito entre 2028 e 2029. Ainda assim, considera prematuro colocar esta tecnologia no centro das prioridades nacionais. Para Juan Olivera, o desafio imediato de Portugal passa por aproveitar plenamente as capacidades do 5G standalone, reforçar a resiliência das comunicações e garantir condições de investimento que permitam acompanhar as necessidades das empresas e dos serviços públicos. A evolução das redes, defende, será determinante para que a crescente aposta na IA e na digitalização se traduza em aplicações capazes de funcionar com a qualidade e a fiabilidade exigidas. |