A terceira edição do Siemens Tech Day, que decorreu na NOVA SBE, deu a conhecer aplicações concretas da Inteligência Artificial na melhoria da produção e no apoio à decisão, numa altura em que se discutem também os limites da sua autonomia
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A NOVA SBE, em Carcavelos, abriu portas para receber líderes, especialistas e decisões para acolher a terceira edição do Siemens Tech Day. Inovação, confiança e comunidade são algumas das palavras que Sofia Tenreiro, CEO da Siemens Portugal, utilizou para descrever mais uma edição do evento anual da organização que pretendeu promover o presente e futuro da Inteligência Artificial (IA). Em declarações à IT Insight, a executiva revelou que o impacto da iniciativa tem sido “muito positivo” desde o início, o que culminou numa terceira edição mais ambiciosa e impactante, com a presença de mais clientes, parceiros e partilha de desafios e resultados reais. O impacto da Inteligência Artificial na operação e tomada de decisão nas organizações esteve em grande destaque ao longo da tarde, num convite para que as empresas explorem mais rapidamente, e com mais confiança, o potencial da IA. “Qualquer atraso de decisão tem um impacto negativo versus avançar com experimentação desta tecnologia”, reforçou a gestora. O contributo da IA aplicado à indústriaSofia Tenreiro convidou Ronny Matthijs, Plant Director da Pringles, para uma conversa em palco sobre o trabalho desenvolvido pela Siemens na criação de um digital twin do processo de produção da marca norte-americana de batatas. O sistema tem por base a combinação dos dados recolhidos ao longo da linha com modelos de IA para antecipar a evolução da massa e permitir, assim, ajustes antes de ocorrerem desvios no produto. “Estamos a passar da arte de produzir alimentos para a ciência de produzir alimentos”, afirmou Matthijs, num projeto que cruza a experiência humana dos operadores com dados, simulação e IA. Ao fim de quatro anos, o projeto já permitiu aumentar em 7% a capacidade de produção, com redução de 13% do desperdício e diminuição do consumo energético em 7%. O próximo passo passa por utilizar dados reais, IA e simulação para testar processos e novos produtos em ambiente virtual antes da implementação física. Onde fica a tomada de decisão em plena era da IA?A inteligência artificial foi também a grande protagonista na mesa-redonda com o tema “AI vs CEO. Who’s in charge?”. O painel, composto por Susana Rebelo, Data Science & AI Manager da Siemens Portugal, Luke Watkins, Consumer Success Manager da Anthropic e José Maria Pimentel, Diretor da Pós-Graduação em Pensamento Crítico e Tomada de Decisão do ISCTE, foi unânime na ideia de que a IA está ainda longe de substituir os decisores humanos quando estão em causa decisões críticas ou irreversíveis. “As decisões irreversíveis ainda devem ser tomadas pelos seres humanos”, defendeu o responsável da Anthropic. Na sua perspetiva, a confiança é o combustível para o avanço de sistemas com maior autonomia mas, ainda assim, “tudo se resume à disposição das pessoas para confiarem nas decisões da IA”.
Apesar da elevada capacidade de análise de grandes volumes de informação, a fiabilidade dos resultados provenientes da IA permanece dependente da qualidade, da quantidade e do contexto dos dados disponibilizados pela empresa. Susana Rebelo considera mesmo que existe ainda muito ceticismo sobre o fornecimento de dados a modelos de IA: por um lado, há quem considere muito positivo e acabe por fornecer toda a informação às ferramentas; por outro lado, há colaboradores que ainda não estão dispostos a experimentar. “No fim, tudo se resume aos dados”, reiterou Susana Rebelo que, no contexto empresarial, sugere uma abordagem baseada em casos de uso concretos que permitam, numa primeira fase, começar por reduzir tempo ou melhorar processos. Na tomada de decisão pesam ainda fatores como a experiência, o julgamento, as relações humanas, a confiança e o conhecimento contextual permanecem fatores relevantes na decisão. José Maria Pimentel, do ISCTE, destacou a segurança como outra das barreiras à adoção de IA. Aqui estão contemplados riscos, não só no acesso aos dados, mas também no próprio delegar das decisões, uma vez que os sistemas podem produzir resultados com impactos significativos para as organizações. Uma das recomendações deixadas pelo académico sugere a utilização da tecnologia no final do processo de raciocínio e não no início: “A melhor forma de utilizarmos IA não é perguntar primeiro à IA, mas perguntar no fim”, explicou. Quando o debate se centrou num possível impacto da IA nos postos de trabalho, Luke Watkins foi assertivo ao afirmar que, de acordo com a própria experiência, a Anthropic registou inclusivamente um aumento da produção, fruto da eficiência da IA. A empresa manteve simultaneamente a necessidade de contratar mais pessoas, num claro sinal de que a interação humana continua a desempenhar um papel de relevo em plena era da IA. Acelerar a adoção de IA na Administração PúblicaO encerramento desta edição esteve a cargo de Gonçalo Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado, que deixou bem patente o desejo de acelerar a adoção da IA nas organizações e Administração Pública. O governante defendeu que Portugal pode tornar-se num “caso de estudo mundial” no que diz respeito à utilização da IA para processos de licenciamento mais rápidos. “Podemos reduzir o prazo de quatro ou cinco anos para um par de meses”, frisou, numa intervenção que procurou demonstrar como a IA pode ser adotada de forma mais transversal, em particular na Administração Pública, mas também nas Pequenas e Médias Empresas, com condições de acesso e de utilização mais responsáveis. A infraestrutura necessária para suportar parte desta transformação não ficou fora do discurso. Gonçalo Matias reforçou a pretensão de Portugal de captar investimento para a fixação de data centres e AI gigafactories em território nacional, um desejo que terá, contudo, de ter repercurssões na economia portuguesa com “projetos sólidos, robustos e sustentáveis”, ao contrário dos que “vêm especular ou negociar licenças ou acesso à energia”, atirou. O ministro reiterou a ideia de que para receber projetos de cloud soberana e AI gigafactories, Portugal deverá assegurar, sobretudo, capacidade computacional própria: “A capacidade computacional de que precisamos agora, e de que vamos precisar no futuro, está disponível no nosso país, sob o nosso controlo e soberania”, afirmou. |