“Precisamos de garantir que a base está solida para a IA poder retirar valor do mundo real”

Para Sofia Tenreiro, Presidente Executiva da Siemens Portugal, o desafio da inteligência artificial já não assenta apenas na tecnologia, mas envolve também dados, processos e pessoas que são determinantes para transformar o potencial em impacto

“Precisamos de garantir que a base está solida para a IA poder retirar valor do mundo real”
Luciano Reis / MediaNext

A Sofia está hoje à frente da Siemens Portugal, mas o seu percurso fala por si: cargos de liderança em setores muito diferentes - tecnologia, energia, indústria - e em organizações com origens muito variadas, desde logo norte-americanas e europeias. Com uma experiência tão diversificada, quais são as principais diferenças e adaptações que são necessárias numa liderança?

O nosso estilo de liderança não só tem de se adaptar ao sítio onde estamos, à organização, à equipa, mas também ao desafio que temos em mãos e à fase que estamos a nível mundial.

Os líderes têm de ser muito camaleónicos. Há uma parte nossa de valores e de crenças que não muda, mas em termos de formato e até de energia tem de mudar. Dependendo da maturidade das organizações, do grau de transformação que é pedido, do que está a acontecer à nossa volta, tudo impacta a forma como temos de liderar.

Primeiro procuro absorver a cultura da organização, sendo que é tudo rápido e quase imediato. Podemos influenciar a cultura da organização local, mas não vamos mudar os grandes princípios e valores da multinacional. Temos também de perceber muito bem qual é a estratégia e o desafio que nos é pedido para depois adaptarmos o nosso estilo e a nossa estratégia também a esse momento.

Uma das grandes características que os líderes têm de ter é, por um lado, esta capacidade de adaptação muito rápida porque, muitas vezes, também temos de nos adaptar dentro da mesma organização e no mesmo contexto; por outro, temos de ter uma grande velocidade em tudo o que fazemos porque o mundo está a mudar muito rapidamente. O cliente final é sempre muito mais rápido em termos de necessidades, de conhecimento, muitas vezes até dos nossos próprios produtos e dos produtos dos nossos concorrentes.

Se os líderes tiverem inerentes características como a mudança, a transformação, a reinvenção e a velocidade, será mais fácil adaptarem-se quando abraçam um novo desafio.

Se há uns anos falávamos da Siemens como uma empresa essencialmente industrial, hoje termos como digital twins e Inteligência Artificial (IA) também fazem parte do ADN da organização. Como é que define atualmente a Siemens? Quais as mudanças estratégicas que ocorreram na organização com a chegada da Sofia, em 2025?

A Siemens é um caso de sucesso porque é uma empresa tecnológica com 180 anos na Europa. Tem acompanhado as grandes revoluções que têm marcado a história da Humanidade – ajudámos na eletrificação, em toda a parte da industrialização – e agora estamos a ajudar na nova revolução da inteligência artificial.

A nossa estratégia é ligar o mundo real e digital, e acreditamos muito que é esta ligação que maximiza o valor dos clientes e das empresas. Estamos todos, a nível profissional e pessoal, a caminhar para o digital, mas a verdade é que o mundo real acontece, desde logo nas máquinas industriais, nas camas dos hospitais, nos transportes e na logística. Quando pensamos de forma consciente e criamos estas ligações entre o mundo digital e real, estamos a colocar a tecnologia ao serviço do real.

Acreditamos que, ao focarmo-nos nesta componente tecnológica, alicerçada no que chamamos de inteligência artificial industrial, estamos a ser diferenciadores ao colocar a inteligência artificial em cima deste contexto que é único, com estes 180 anos de conhecimento e todos os dados que temos connosco. A junção dos motores mais avançados de IA com o conhecimento e dados que temos permite-nos ajudar os clientes na aplicabilidade da inteligência artificial ao core das suas operações.

A Siemens Portugal tem trabalhado para ajudar os clientes a adotarem esta inteligência artificial industrial, alicerçada em temas de simulação como os digital twins, que nos permite não só conceber, como também implementar, operacionalizar e manter fábricas, hospitais e sistemas de distribuição da água.

Também estamos a trabalhar com equipas internacionais através do nosso Portugal Tech Hub, onde temos cerca de 1.600 pessoas a produzir soluções digitais para o mundo, muitas que incorporamos na nossa forma de trabalhar, mas outras que são projetos em que estão a trabalhar com clientes a nível mundial.

Temos uma equipa muito grande de serviços partilhados em Portugal, também alicerçada em soluções digitais, a servir 60 Siemens a nível mundial desde Portugal, para termos estes ganhos de eficiência e conseguirmos uma maior homogeneização na forma como trabalhamos a nível global.

Onde é que a Siemens se está a posicionar neste enablement da IA para os próximos anos?

A verdade é que os EUA, e especialmente a China, estão muito mais à frente do que a Europa – partiram claramente mais rapidamente e estão a conseguir ter um efeito de escala que nós não estamos a conseguir. Falamos de uma Europa, mas nós não somos uma Europa, somos um conjunto de países.

O continente europeu está um bocadinho atrás, mas acho que as pessoas têm a perceção de que está mais atrás do que está. Sem dúvida de que, como um todo, não está tão avançado, mas temos muita inovação a acontecer e acredito que temos um potencial enorme porque somos um continente industrial.

Portanto, se conseguirmos modernizar a nossa indústria rapidamente, se calhar conseguimos dar um salto quântico de aproximação aos outros dois países, que é o que queremos todos.

A reindustrialização e a soberania tecnológica marcam cada vez mais a agenda atual do bloco europeu. Como é que Portugal pode beneficiar desta mudança?

Portugal tem condições incríveis, não só de qualidade de vida, mas também por estarmos numa ponta da Europa, mais próximos de África, Estados Unidos e da América Latina, e por sermos um país pacificador.

Temos, acima de tudo, um talento incrível e reconhecido. Hoje, somos 4.300 pessoas no Grupo Siemens em Portugal. Somos o sexto maior país em termos de área tecnológica [na Siemens], o que não é muito comum dada a dimensão do país. A razão para esta relevância a nível mundial assenta numa estratégia de vários anos de atrair headquarters para Portugal, alavancando essencialmente no talento. Temos muitas empresas que exportam, a nível global, mas deveríamos conseguir ter esta atração de talento e de investimento para criarmos mais centros de competência de valor acrescentado no país.

As grandes tecnológicas têm grandes consultoras e grandes centros na Índia, mas acreditamos que Portugal é muito complementar. Somos muito bons a executar também, mas temos uma grande criatividade e capacidade de inovação, uma grande proatividade e, portanto, não só executamos o que nos é pedido, mas acrescentamos esta vontade de impactar e liderar os projetos. Não somos tão seguidores; lideramos.

E devemos pensar como é que conseguimos atrair mais este tipo de investimento para Portugal, sabendo que temos um ecossistema de startups incrível, muitos empreendedores com reconhecimento a nível mundial e empresas de génese portuguesa que cresceram cá dentro e hoje são multinacionais. Temos empresas muito credíveis em Portugal.

No entanto, precisamos, por um lado, de ter mais exemplos de atração e de captação de investimento para Portugal; por outro lado, devíamos pensar em áreas como inteligência artificial, cibersegurança, dados, analítica, e como é que conseguimos utilizar o talento que temos para nos assumirmos como hub para o mundo inteiro.

Um terceiro ponto tem a ver com PME. Sabemos que têm menos recursos e, muitas vezes, menos capacidade de investimento, mas a transformação tecnológica pode começar a ser feita sem grande investimento porque qualquer pessoa pode experimentar e perceber qual o valor que consegue tirar da IA. No fundo, é capacitar as equipas das empresas, olhar para os processos, reinventá-los, olhar para os dados e limpar os mesmos.

Quando conseguirmos ter estas três foundations, já estamos a acrescentar valor à empresa e a permitir que possa dar depois outros saltos em termos de investimentos de IA. Tem de haver uma adoção muito mais rápida por parte das PME e, para isso, temos de partilhar mais conhecimento, dar mais confiança. Não é uma revolução que só está ao alcance de grandes empresas com um grande investimento; está ao alcance de todos e deveríamos estar a tirar partido e a criar impacto da sua utilização.

Para quem tem uma visão transversal de mercados e de um conjunto grande de empresas, o que é que falta para, de facto, atingirem a tal velocidade que referia anteriormente? Estamos a falar de transformação tecnológica, mas há algo mais que tem de ser transformado?

A transformação tecnológica tem de existir, mas essa está ao alcance de todos; acho que a maior transformação é de mindset, e por vários motivos. Para já, é uma questão de confiança de que estes sistemas vêm para ajudar e acho que ainda há, por falta de conhecimento, muitos líderes de PME com alguma desconfiança sobre qual é o real valor que estas ferramentas podem trazer à sua própria empresa e se vão ajudar mais do que trazer risco.

Depois há o tema de mindset. Há muitas pessoas e empresas que olham para trás e pensam ‘eu sempre tive sucesso sem inteligência artificial, porque é que eu tenho de investir tempo ou dinheiro com esta ferramenta se eu nunca precisei dela?’ Mais uma vez, é preciso muito conhecimento, é preciso experimentar e partilhar casos de sucesso que estão a ser feitos noutras empresas porque esta transformação é muito invisível.

Depois há um terceiro ponto que está também a impedir, e que tem a ver com as foundations que referi, sobre algumas pessoas dizerem que a IA ainda não está a criar impacto e se calhar é uma bolha: precisamos de garantir que a base está sólida para a inteligência artificial poder retirar valor do mundo real. Temos de garantir que há uma estratégia forte de dados, que estão bem identificados e categorizados, bem estruturados e acessíveis, para que quando a inteligência artificial trabalhar em cima dos dados, o output seja bom.

Um segundo ponto tem a ver com os processos que existem hoje nas empresas e que sempre existiram. Nunca houve urgência de os repensar, muitas vezes nem estão documentados. Temos de ter coragem de pensar que se construíssemos hoje a nossa própria empresa do zero, havia muitas coisas que não faríamos ou faríamos de forma diferente.

Se tivermos processos complexos, muitas vezes nem conseguimos aplicar a inteligência artificial porque a complexidade é tão grande que não vamos conseguir ter impacto.

E o terceiro ponto, o mais importante, são as pessoas e o mindset. Temos de conseguir ajudar as nossas equipas para que ninguém fique para trás e para que as pessoas percebam qual o verdadeiro valor que podem tirar e o que é que podem fazer com a IA. É algo que tem de vir de cima, das chefias.

No fundo, as empresas portuguesas têm de trabalhar primeiro nestes três pilares – processos, dados e pessoas –, e depois pedirem ajuda a empresas tecnológicas.

Qual o tipo de perfil profissional que a Siemens procura para os próximos anos?

Recrutamos com base nas atitudes, no potencial, nas skills da pessoa, mais do que no histórico. Temos pessoas com as mais variadas experiências, também porque o nosso portfólio e atuação são muito variados. Apostamos muito na formação, por isso criámos em Portugal as academias Siemens, focadas em tecnologias específicas.

O espírito colaborativo nunca foi tão importante. Não só cada pessoa tem de trabalhar em ecossistema, mas as próprias empresas têm de trabalhar com os seus clientes, com a academia, com as próprias entidades governamentais. Nunca foi tão importante termos esta co-criação e aproveitarmos as mais-valias e as capacidades de cada uma das organizações – também é assim com o talento.

Na Siemens Portugal temos cerca de 600 estrangeiros, mais de 70 nacionalidades e, portanto, acreditamos também nesta riqueza, de ter pessoas de diferentes backgrounds, de todos os géneros e de diferentes nacionalidades.

Quais serão os principais setores de desenvolvimento da economia portuguesa nos próximos dois, três anos? E no caso da Siemens Portugal?

Os dois estão ligados. Se pensarmos, as grandes atuações que temos como Siemens Portugal são na eletrificação, e temos inclusive uma fábrica em Corroios de superchargers e trabalhamos também com os grandes e pequenos clientes para os ajudar a fazer a eletrificação, para garantir uma melhor gestão das redes elétricas, muito mais eficiente e resiliente, também com cada vez mais incorporação de energias renováveis.

Trabalhamos na automação, ao ajudarmos as empresas a serem muito mais automatizadas, e também na transformação digital, desde a cibersegurança à inteligência artificial, trabalhamos com tudo. Um exemplo cada vez mais premente é como é que nós ajudamos os edifícios a serem não só inteligentes, mas autónomos e a gerirem-se a si próprios.

Portanto, trabalhamos estas três áreas que são as grandes áreas de investimento das empresas. Os verticais e as áreas de foco do país serão sempre as nossas porque as empresas acabam por nos pedir ajuda.

O OT, por exemplo, foi um bocadinho mais descurado e agora percebe-se que é muito importante porque representa muitas fragilidades para as empresas porque está todo interligado.

Em termos de verticais, temos o tema da energia, que tem vindo a ser muito importante e no qual vamos continuar a ser um player muito relevante; todo o tema da indústria e da reindustrialização de Portugal que também tem de acontecer; setores como a defesa são muito importantes, não só pela nossa posição geográfica – todo o palco geopolítico –, mas também porque temos esta indústria muito forte.

Não posso deixar de referir a questão dos data centers e das gigafactories, onde nós estamos muito presentes e acreditamos que Portugal também tem aqui um papel muito relevante na Europa, por todos os motivos e mais alguns – renováveis, acesso à energia, cabos submarinos –, com variáveis que nos tornam únicos e onde a Siemens tem um portfólio muito abrangente.

Temos tudo para ser um país com crescimento incrível. Às vezes precisamos de um pouco mais de ajuda, não só na desburocratização, na rapidez de processos, licenciamento, mas também mais coragem no sentido de não acharmos que somos pequeninos. Temos de pensar “nós somos muito grandes” porque quando olhamos para o mundo, a verdade é que nós podemos ser muito, muito grandes.

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