Cláudio Pimentel, CIO da Cofidis Portugal, foi entrevistado no palco da última IT Insight Talks de 2025 e defendeu uma posição que contraria o consenso da indústria: 99,9% dos dados são processados em data centers próprios e não na cloud. Numa altura em que a migração para hyperscalers parece inevitável, o CIO explicou por que razão o grupo ao qual a Cofidis pertence formalizou uma política de no-cloud e como é que mantém a competitiva tecnológica
|
Qual foi o momento específico em que formalizaram uma política de no-cloud? Foi uma decisão proativa ou reação a algo? Fazemos parte de um grupo que é o Crédit Mutuel Alliance Fédérale e a ambição deste banco mutualista, que é um dos dez maiores bancos europeus, é ser um banco soberano em todas as dimensões. Também se posiciona como um banco tecnológico e aí a soberania passa pelos dados, a independência de fornecedores de hyperscalers. Há uma distinção entre aquilo que são workloads críticos para a missão e também, como não é novidade para ninguém, há uma boa parte da infraestrutura que é a infraestrutura de mainframe, que ainda não está em cloud. Isto não quer dizer que estamos isolados, que estamos sós e que estamos presos a uma tecnologia do milénio passado. Estamos a falar que nos obrigou, do ponto de vista mais estratégico, a tomar outro tipo de decisões, a encontrar outro tipo de parcerias e também a avaliar que o tema da cloud não é só um tema tecnológico; é um tema económico, é um tema financeiro. O facto de pertencermos a um banco mutualista permite- nos pensar a médio e longo prazo e não numa ótica de só OpEx ou só CapEx, permite-nos também pensar como é que queremos evoluir e fazer os nossos investimentos. Quando se atinge um estatuto de uma pegada sistémica na zona euro, as preocupações vão para lá de somente a escalabilidade. Todos estes fatores contribuíram para a tomada de decisão, na altura, pelo presidente do grupo, de sermos uma empresa no-cloud, que se traduz num compromisso de 99,9% dos dados dos nossos clientes são processados nos data centers do grupo. Que workloads específicos avaliaram migrar para cloud e o que vos travou em cada caso? Falando da realidade da Cofidis Portugal, acabamos por seguir a orientação estratégica daquilo que vem do grupo. A partir do momento em que está clara qual é a estratégia e qual é a visão, têm de existir razões muito fortes para avaliarmos se faz sentido ou não colocarmos alguns destes workloads para fora daquilo que são os nossos data centers. A Cofidis Portugal não é uma empresa que tenha Black Fridays ou Prime Weeks; não temos nada destes eventos. O nosso tráfego é constante, é previsível. Mesmo que exista algum pico, o oversizing da infraestrutura mais do que compensa os custos que poderíamos ter com a externalização. Obviamente pensamos sempre na parte dos serviços. Agora temos a Inteligência Artificial [IA]; não podemos usar o Open AI, o Gemini, os Copilots, porque isso tudo está fora. Isso obriga- nos a estarmos num mindset um pouco diferente, que é como é que nós podemos ter esse tipo de serviços. Fazendo aqui um zoom out ao nível do grupo, somos das poucas empresas que tem uma instância do WatsonX a correr on-premises em data centers da empresa. Ao nível da IA, já são coisas que temos vindo a trabalhar ao nível do grupo há mais de dez anos. Primeiro na parte preditiva e na parte de machine learning, agora a parte generativa. Houve algum momento de tensão de como é que a empresa se prepara para o futuro e houve algumas questões, mas chegou-se a esta conclusão. Agora, se calhar, estamos a pensar naquilo que é a computação quântica, qual é que vai ser também o futuro, se vamos ter a possibilidade de ter on-premises ou não. Isso já são coisas que, a nível de grupo, estamos a avaliar, a estudar e a tentar fazer alguns use cases. A cloud oferece escalabilidade e agilidade. Como é que garantem essa escalabilidade? Que trade-offs aceitaram? Optámos por um caminho de cloud privada. Todos estes mecanismos, todas estas questões de CI/CD, de virtualização, tudo isso, todas estas tecnologias estão à disposição das equipas que têm produtos digitais. Temos dois níveis de equipas. Temos equipas para infraestrutura, para redes; temos equipas que se dedicam mais ao tema dos produtos digitais. O trabalho que estas equipas de sistemas e de plataformas acabam por ter é muito de como é que conseguem assegurar esta escalabilidade. Este oversizing de infraestrutura nos nossos data centers e tendo em conta a previsibilidade de crescimento que temos quer de utilizadores, quer de transações, permite-nos tomar decisões a cinco ou seis anos em termos de investimento de infraestrutura e, com isso, vamos gerindo todas estas necessidades de escalabilidade. A não utilização da cloud requer recursos técnicos específicos. Como é que enfrentam este desafio numa altura em que os recursos técnicos especializados disponíveis são escassos? Aquilo que tentamos fazer é criar uma proposta de valor que seja atrativa para este tipo de perfis. Não estamos a falar meramente de configuração, estamos a falar de haver a possibilidade de quem se junta a nós poder entrar debaixo do capô, perceber como é que as coisas efetivamente são feitas, fazer a gestão, poder arquiteturar, poder implementar. Acreditamos que faz uma boa parte da nossa proposta de valor. Tentamos com os desafios que temos e com a necessidade que temos de criar soluções adaptadas à nossa realidade. Acreditamos que isso é um fator diferenciador da contratação. Agora, qual é o problema que temos estado a assistir: existem cada vez menos pessoas a dominar estas competências. Têm as bases, sabem o que é um OSI, sabem o que é um servidor, mas quando depois entramos na perspetiva de hands-on, vemos que muitas das pessoas já têm muito mais competências para a utilização da cloud do que para estas atividades. Hoje, encontrar um verdadeiro administrador de sistemas, ou um arquiteto de sistemas, está mais complicado. Se um CIO estiver a ler esta entrevista e a considerar uma estratégia de no-cloud, qual é o erro mais comum que vêm em quem vai para a cloud e qual é a ilusão mais perigosa de quem fica fora? Quando falamos de no-cloud, não temos de pensar que vamos ficar numa ilha, que vamos ficar isolados. Isso é impossível e nos dias de hoje não vamos a lado nenhum. Temos de encontrar as parcerias certas para nos acompanharem neste desafio. Para quem está a pensar sair, acho que já passámos a fase de quem não está na cloud está morto, esse hype que vivemos nos últimos anos. Olhem para a Cofidis; não é por não estarmos na cloud que estamos pior do que qualquer um dos nossos concorrentes. Mas ao mesmo tempo acho que é muito situacional. A Cofidis tem uma base de clientes, ao nível do banco temos uma outra base de clientes. Estamos a falar se calhar de 30 milhões de clientes no grupo todo e isso leva-nos para determinadas decisões. Quando estamos a falar de coisas mais pequenas ou estamos a arrancar algo, a cloud continua a ser uma excelente oportunidade de acelerar, de experimentar conceitos e acho que aí é, efetivamente, essencial a escolha de o que é que vamos colocar na cloud. Se for um CIO que já tenha algo, o que é que vamos colocar na cloud? Geralmente, quando estamos a falar de grandes volumes de dados, processamento de grandes volumes de dados, aconselho a ter uma perspetiva mais híbrida. Depois, é ter atenção ao lock-in. Todo e qualquer CIO tem de trabalhar no sentido de equilibrar o lock-in. É impossível dizer que não há lock-in porque a partir do momento em que escolhemos uma tecnologia, estamos a escolher uma religião e, de uma forma ou de outra, estamos agarrados a essa tecnologia. É preciso vermos onde é que nós colocamos aquilo que é importante. Por vezes, colocar algo que é mission critical num SaaS que acabou de abrir é um risco grande. Temos de avaliar se compensa ou não. Por fim, na minha opinião, o tema da multicloud. Pode parecer uma forma de evitar o lock-in, mas, no final, os custos de interoperar duas ou mais clouds e dominar essas tecnologias também têm custos. Não vamos pensar, pelo facto de termos cloud, que não vamos precisar de pessoas para fazer essa gestão e, por vezes, caímos nesse ponto de que, na cloud, já não preciso de ter estas competências para dominar, para perceber e como tirar o melhor proveito destas tecnologias. |