A computação distribuída está a passar da experimentação para a infraestrutura – e a questão mais relevante para as organizações passa a ser o que deve, de facto, estar no Edge.
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Em Portugal habituámo-nos, nos últimos anos, a discutir tudo aquilo que está a ser empurrado para a periferia. Na tecnologia, felizmente, ainda podemos escolher. Durante anos, a centralização da capacidade computacional na Cloud respondeu eficazmente às necessidades de escala, eficiência e flexibilidade das organizações, mas o aparecimento de workloads para os quais a distância passou a ser uma variável crítica desafia a validade desse modelo: sistemas que precisam de tomar decisões em milissegundos, operações em que transportar grandes volumes de dados custa mais do que processá-los localmente ou requisitos de soberania e resiliência que condicionam o local onde os dados podem ser tratados. É nestas situações que o Edge deixa de ser apenas uma opção arquitetural e passa a ser uma necessidade operacional, porque diferentes workloads devem correr nos ambientes mais adequados às suas características. É aqui que terminam as semelhanças entre “periferias”, porque no nosso cenário tecnológico, não se trata de substituir a Cloud ou deslocar indiscriminadamente a capacidade computacional para a periferia, mas sim de ampliar os recursos disponíveis para criar o modelo apropriado, gerindo as várias opções de acordo com as necessidades. A Europa já traduz esta evolução em metas concretas. No âmbito da Década Digital, a União Europeia definiu o objetivo de ter 10 mil nós Edge climaticamente neutros e altamente seguros até 2030 e de 75% das empresas europeias utilizarem tecnologias Cloud-Edge. Em Portugal, o Plano Nacional de Nuvem Soberana e o Plano Nacional de Centros de Dados mostram também que capacidade computacional, resiliência e soberania digital passaram a fazer parte da discussão estratégica sobre as infraestruturas do país. Criar capacidade é, contudo, apenas uma parte da equação. A decisão fundamental continua dentro das organizações. E aqui importa resistir à tentação de tratar o Edge como uma orientação tecnológica que deve ser adotada por inteiro. Insisto: Cloud-Edge são complementares e não mutuamente exclusivas. Para cada caso, há que colocar, desde logo, quatro questões essenciais. A operação exige tempos de resposta que uma infraestrutura centralizada não consegue garantir? O custo ou a complexidade de transportar os dados justifica processá-los localmente? Existem requisitos de soberania, segurança ou residência dos dados que condicionam o local de processamento? O sistema tem de continuar a funcionar quando a ligação ao centro falha? Dependendo das respostas, uma plataforma centralizada pode continuar a ser a decisão técnica e economicamente mais racional. No Edge devem estar workloads que se justifiquem e é precisamente neste ponto que a arquitetura híbrida ganha importância, permitindo colocar cada workload no ambiente onde cria mais valor, e mantendo uma camada coerente de gestão, segurança e governação. Neste cenário, Cloud, data center e Edge não são opções concorrentes, mas componentes de uma mesma arquitetura. Esta lógica é particularmente importante quando falamos de soberania, que nos exige saber onde estão os nossos dados, quem os controla, sob que jurisdição são tratados e que nível de autonomia é necessário em função da sua criticidade. Portanto, o desafio não é, necessariamente, a obrigatoriedade desses dados permanecerem num determinado local; trata-se de classificar dados e workloads e aplicar a cada um os requisitos adequados de soberania, segurança e resiliência. Mas decidir onde processar é apenas o início. Um piloto de Edge em poucas instalações pode ser relativamente simples de gerir e, mais tarde, quando se escala o projeto, manutenção, monitorização, atualizações e segurança tendem a revelar-se mais complexos. A automação passa então a ser indispensável, tal como as competências necessárias para operar sistemas distribuídos de forma segura e consistente. Por isso, a capacidade para operar, automatizar, monitorizar e proteger uma infraestrutura distribuída tem de fazer parte da decisão de investimento desde o início, prevendo a possibilidade de evolução para um modelo de computação distribuída. E, sendo esse o caso, não se elimina a necessidade de controlo centralizado, porque quanto mais distribuída for a infraestrutura, mais coerentes terão de ser a sua governação, segurança e operação. A pergunta a levar para a próxima decisão de investimento não é, portanto, se a organização já tem uma estratégia de Edge ou se está a caminho de empurrar tudo para a periferia. O essencial é perceber que workloads precisam efetivamente dela, onde devem correr e se a organização está preparada para os escalar e operar. Ao contrário do que acontece nas nossas cidades, na tecnologia a periferia continua a ser uma escolha - e é essa escolha, feita com critério, que separa quem tira partido do Edge de quem apenas lhe cede espaço por inércia.
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