A governance como ponto de partida para escalar a IA nas organizações

Depois de uma fase marcada pela experimentação, as organizações começam agora a olhar para a inteligência artificial com outro nível de exigência. Escalar a tecnologia implica definir modelos de governance, assegurar a qualidade dos dados, gerir riscos e demonstrar impacto real no negócio

A governance como ponto de partida para escalar a IA nas organizações
Luciano Reis / MediaNext

A governance da Inteligência Artificial (IA) esteve em debate no Business Breakfast promovido pela IT Insight, em parceria com a Avanade, no Pestana Palace Hotel, em Lisboa. Sob o tema “AI Governance: Como transformar IA em valor”, a sessão reuniu decisores e especialistas para discutir como as organizações estão a estruturar a adoção da IA.

 

Hugo Gonçalves, Avanade

Na abertura da sessão, Hugo Gonçalves, da Avanade, enquadrou o debate a partir da necessidade de cruzar diferentes visões dentro das organizações, desde o negócio à segurança. O responsável sublinhou a importância de existir uma base comum para que as organizações consigam testar e escalar soluções de IA de forma estruturada. “O desafio é explorar aquilo que pode ser a framework principal e a baseline dentro de uma organização, com políticas de governance que permitam que todas as pessoas, independentemente do departamento ou do objetivo específico, tenham regras claras para escolher, aplicar, testar e, depois, escalar soluções dentro da própria organização”, afirmou.

Fábio de Pasquale, Avanade

 

Na apresentação inicial, Fábio de Pasquale, da Avanade, defendeu que o mercado está a passar de uma fase de experimentação para uma fase de escala. Depois do boom da IA generativa, iniciado com o lançamento do Chat GPT, as empresas começam agora a procurar modelos de governance capazes de suportar a transformação. “Agora, para 2026, entramos numa fase em que as empresas estão a escalar a IA. E, para escalar a IA, aquilo de que precisam é de governance”, explicou, acrescentando que esta governance deve incluir segurança, dados, informação e a forma como se conduz um processo de transformação baseado em IA.

 

Sandro Zeineddin, Portway

Sandro Zeineddin, CTO, Portway: “Com perto de quatro mil colaboradores distribuídos por vários aeroportos e diferentes operações aeroportuárias, um dos nossos maiores desafios era garantir que a informação operacional chegava à gestão de forma estruturada, sem se perder ao longo das diferentes hierarquias. Com a implementação de uma plataforma de comunicação por voz suportada por AI, substituímos o sistema tradicional de rádio e passámos a gerar automaticamente resumos e os principais destaques de cada turno, dando à gestão operacional e à administração uma visão clara do que aconteceu ao longo do dia. Estamos agora a evoluir esta solução, integrando-a com outras aplicações e desenvolvendo novas capacidades de interação com os colaboradores, para que a AI funcione cada vez mais como um suporte operacional”

Marta Cabrita, Vieira de Almeida

 

Marta Cabrita, Head of Digital Acceleration, Vieira de Almeida: “Numa transação de M&A, que é tipicamente de grande complexidade e dimensão, conseguimos identificar onde é possível introduzir IA. Isso obriga-nos a repensar a forma como determinados componentes do serviço são valorizados: a transação em si continuará a ser central, mas há tarefas cujo valor terá de ser justificado de outra forma. Por isso, temos de começar a pensar que novos produtos podemos desenvolver, onde existe espaço no mercado e em que nichos podemos atuar, a pensar no futuro e na sustentabilidade das sociedades de advogados”

 

Miguel Gonçalves, Vinci Energies Portugal

Miguel Gonçalves, Information Security Officer, Vinci Energies Portugal: “Criámos aquilo a que chamamos o AI Passport, ou seja, todos têm de passar por essa formação. Acima de tudo, criámos uma governance. Criámos um modelo de governo, uma estrutura, funções e responsabilidades, bem como peças que suportam esse modelo de governo e os respetivos workflows. Criámos, portanto, uma estrutura, uma framework que, independentemente de hoje ser a solução A, B ou C, de ser o LLM A, B ou C, de ser uma solução interna ou vendável, encaixa dentro da nossa máquina”

Rita Lopes, Airbus

 

Rita Lopes, Security Officer for Sustainability and Communication, Airbus: “O futuro é IA, desde que encarada como uma ferramenta de apoio ao ser humano. Isto exige uma ponderação, não apenas a nível de segurança, mas também na vertente analítica, para compreender como o sistema evolui. Além disso, talvez tenhamos, também, de equacionar a área da sustentabilidade na utilização da IA. Criar agentes e ter bons agentes implica, inicialmente, um investimento substancial de recursos para delinear a melhor estratégia de LLMs. A questão fundamental é avaliar se, a médio e longo prazo, esse esforço adicional trará o retorno esperado”

 

Inês Condeço, Fnac

Inês Condeço, Marketing and Communication Director, Fnac: “A Inteligência Artificial não substitui uma estratégia de cliente, mas pode amplificá-la de uma forma sem precedentes. O verdadeiro desafio não está na tecnologia, está nos dados. Quando os dados estão dispersos por múltiplos sistemas, a IA limita-se a replicar essa fragmentação. No retalho, o valor surge quando conseguimos ligar todas as peças: compras, interações, preferências e contexto. Só assim é possível criar experiências verdadeiramente personalizadas, relevantes e úteis para cada cliente”

Nuno Silva, Universidade Lusíada

 

Nuno Silva, CTO, Universidade Lusíada: “Na educação, a adoção está um pouco mais atrasada, pelo menos relativamente às empresas. As ferramentas deviam estar disponíveis para todos, e não apenas para as instituições muito grandes, deixando as mais pequenas para trás. Ainda assim, não causou grande preocupação. A primeira coisa que faço nas aulas é incentivar os alunos a abrirem a mente para a Inteligência Artificial. Em vez de lhes dizer para não usarem, digo o contrário: usem, experimentem. Por isso, foi finalizado um novo regulamento de avaliação. Vai ser um desafio”

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