A cloud deixou de ser o único destino

A cloud, o edge e a infraestrutura on-premises coexistem numa arquitetura cada vez mais distribuída. Fatores como a latência, os dados, a segurança e a IA contribuem cada vez mais para mudar a decisão sobre onde executar cada workload

A cloud deixou de ser o único destino
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Depois de anos de concentração de workloads em cloud, as organizações estão hoje conscientes de que nem todos os dados, aplicações e processos devem ser executados no mesmo local.

Estará o conceito de cloud-first a evoluir para uma ideia de workload-first, onde a latência, o custo, a segurança, a soberania dos dados e o consumo energético assumem um papel central quando pensamos em arquiteturas distribuídas?

De forma a aproximar a computação do local onde os dados são produzidos, o edge computing está a posicionar-se como uma arquitetura de eleição, especialmente em ambientes altamente distribuídos, como é o caso de ambientes industriais, telecomunicações, retalho ou saúde, onde determinados processos não podem ficar dependentes da disponibilidade da ligação ou sujeitos à latência associada ao processamento remoto.

 

Hugo Rego, Senior Manager, Global Edge Solution Architects da Red Hat

“É uma mudança de paradigma, mas não do tipo que substitui a cloud”, começa por referir Hugo Rego, Senior Manager, Global Edge Solution Architects da Red Hat. Em setores como indústria, energia, utilities e logística, onde grande parte dos dados é gerada no edge, transportar toda essa informação para a cloud, garante Hugo Rego, “nunca foi sustentável”.

Mais do que deslocar para o edge workloads que anteriormente estavam na cloud, Hugo Rego distingue a existência de workloads nativos de edge, que, pelas suas próprias características, precisam de operar junto da origem dos dados, ainda que necessitem de um modelo operacional semelhante ao da cloud. É o caso, exemplifica, de sistemas executados em subestações, PLC industriais, lojas ou mesmo ambientes de defesa sem conectividade. De acordo com o que observam no terreno, as organizações que começaram outrora com cloud-first “estão agora a perceber que precisam de uma estratégia de ‘operar em qualquer lugar’”. A real mudança está, por isso, a acontecer numa vertente de “cloud como destino” para “cloud como modelo operacional, implementado em qualquer lugar”.

O workload dita a arquitetura

Pedro Teixeira, Hybrid Solutions Manager da HPE Portugal

 

Pedro Teixeira, Hybrid Solutions Manager da HPE Portugal, considera que depois de ter respondido “eficazmente às necessidades de transformação digital da última década”, o conceito de cloud-first precisa agora de “ser complementado por uma visão mais flexível”.

Na visão da empresa, a questão deixou de ser onde executar uma aplicação para passar a ser qual o ambiente que melhor se adequa a cada workload. “As organizações estão a evoluir de estratégias cloud-first para abordagens cloud-smart ou hybrid-by-design, onde cada aplicação é posicionada de acordo com critérios de negócio, desempenho, conformidade e eficiência operacional”, contextualiza Pedro Teixeira.

Com a centralização tradicional a dar lugar a ambientes distribuídos, Ricardo Silva, CTO & Leader, Sales and Solutions Engineering da Cisco Portugal, defende que as estratégias “devem ser mais abrangentes, integrando cloud, edge e ambientes híbridos”.

 

Victor Gago, Data Center & C&SP Sales Manager da Schneider Electric

Victor Gago, Data Center & C&SP Sales Manager da Schneider Electric, afasta a ideia de que esta evolução retire relevância aos grandes data centers. Mais do que uma descentralização da capacidade de computação, acredita que estamos perante uma “distribuição mais inteligente das cargas de trabalho”, em que data centers, cloud e edge desempenham funções complementares em função dos requisitos de cada aplicação.

A mesma ideia é defendida no estudo “State of the Edge 2026”, lançado pela The Linux Foundation Projects. Numa análise ao futuro do edge, Victor Lu, Independent Consultant e Former Senior Solution Specialist da Oracle, destaca a introdução do conceito compute continuum que pretende pensar nos dispositivos, no edge, na infraestrutura central e na cloud como “pontos da mesma arquitetura”, e não ambientes separados. A ideia não é criar uma dicotomia entre cloud e edge, mas centrar a questão sobre qual o melhor local para executar cada workload.

O edge para lá da inteligência artificial

A opinião dos responsáveis é unânime no que diz respeito à evolução da arquitetura empresarial: nos últimos cinco anos, as arquiteturas progrediram de modelos centralizados para infraestruturas híbridas e distribuídas, onde o edge passou a fazer parte do argumento.

De acordo com a Gartner, 40% das grandes organizações terão adotado edge computing nas infraestruturas IT até ao final de 2027. Dados da IDC mostram inclusivamente que a despesa mundial em edge computing poderá alcançar os 380 mil milhões de dólares em 2028.

Por detrás desta evolução estão fatores como a automatização de processos, a expansão do IoT e, mais recentemente, a crescente adoção da Inteligência Artificial (IA) que vai contribuir para alavancar o edge para uma plataforma capaz de suportar sistemas mais autónomos.

Esta evolução não significa, contudo, que o valor do edge dependa da atual vaga de IA. Victor Lu recorda que o edge computing respondia já a “problemas concretos”. Se numa primeira fase permitia recolher e processar informação localmente, o recurso à IA acrescenta agora uma nova camada de capacidades, como a interpretação de informação que permite tomar decisões em tempo real.

Beyond cloud or edge: a segurança sempre presente

Escritório, casa, cloud. Quando o tema é Zero Trust, a localização dos vários ambientes distribuídos torna-se num detalhe, uma vez que a política de segurança “tem de acompanhar a identidade, o dispositivo, a aplicação e os dados”, reforça Rui Duro.

Rui Duro, Country Manager para Portugal da Check Point Software

 

O Country Manager para Portugal da Check Point Software detalha que o primeiro passo pressupõe a identificação de utilizadores, dispositivos, aplicações e workloads. “A organização deve depois aplicar acessos mínimos e específicos por aplicação, em vez de conceder acesso generalizado à rede. Cada pedido deve ser avaliado com base na identidade, no estado de segurança do dispositivo, no contexto da sessão, no risco e na sensibilidade do recurso”.

Para isso, Rui Duro destaca também a aposta numa arquitetura SASE porque “aproxima os controlos de segurança de utilizadores e aplicações”, permitindo a aplicação de regras por aplicação e a verificação contínua do cumprimento dos requisitos de segurança.

Ricardo Marciano, Business Development Manager e SASE da Fortinet, reforça a ideia de que “é necessário verificar continuamente a postura de segurança do dispositivo, o contexto de acesso e o comportamento do utilizador ao longo da sessão”, garantindo que, em caso de incumprimento dos requisitos definidos, os privilégios de determinado equipamento podem ser revistos.

 

Ricardo Silva, CTO & Leader, Sales and Solutions Engineering da Cisco Portugal

Na aplicação do Zero Trust, Ricardo Silva, da Cisco, está alinhado com a ideia de que o modelo “exige políticas dinâmicas e contextuais, que se adaptam ao risco e ao comportamento, suportadas por automação e visibilidade unificada”. Neste âmbito, a segurança deve estar, desde logo, integrada da infraestrutura até às aplicações, “com segmentação rigorosa e monitorização constante para mitigar ameaças em ambientes dispersos”.

Onde fica a compliance?

A opinião é comum entre os responsáveis ouvidos pela IT Insight: o edge tanto pode facilitar como dificultar a compliance.

Por um lado, processar e proteger os dados mais perto do local onde são produzidos pode reduzir a circulação desnecessária de informação sensível, apoiar requisitos de residência dos dados e diminuir a exposição associada à transmissão de informação para data centers distantes. Por outro, a diversidade de localizações aumenta também o número de pontos onde é necessário garantir conformidade.

Segundo Hugo Rego, da Red Hat, a resposta “depende da abordagem”. “Se tratamos cada localização edge como um caso único, a complexidade escala; se adotamos uma abordagem de plataforma, com infraestrutura standardizada, ciclo de vida automatizado e configuração declarativa, o edge acaba por reduzir a complexidade ao eliminar processos manuais que nunca foram escaláveis”.

Para o responsável, esta distribuição obriga ainda as organizações a resolver problemas que a cloud permitiu adiar, entre os quais a operação offline, a limitação de recursos, a segurança física e a conformidade regulatória ao nível de cada localização. “Resolver estes problemas de forma adequada torna toda a operação mais resiliente, não mais complexa”, assegura o Senior Manager.

Ricardo Marciano, Business Development Manager e SASE da Fortinet

 

Na perspetiva de Ricardo Marciano, da Fortinet, este tema está muito dependente da forma como “a segurança é implementada e gerida ao longo da infraestrutura”, com a “falta de uniformidade” a abrir espaço para criar “lacunas de controlo”.

Na prática, é necessário garantir não só a proteção de utilizadores, mas sobretudo “assegurar que as mesmas regras de segurança são aplicadas de forma consistente, quer os recursos estejam na cloud, num escritório remoto ou num ambiente operacional crítico”.

Rui Duro acredita que o desafio não reside propriamente no edge, mas sim nesta capacidade de alinhar “políticas, evidências e níveis de proteção consistentes” ao longo de toda a infraestrutura.

“O edge torna a compliance mais eficaz quando aproxima a aplicação dos controlos do risco real; torna a compliance mais difícil quando multiplica infraestruturas sem multiplicar a visibilidade e a capacidade de governação”, resume o Country Manager da Check Point em Portugal.

A gestão de ambientes distribuídos

Ricardo Silva, da Cisco Portugal, recorda que a atual arquitetura está a privilegiar a “orquestração e automação” na gestão de ambientes heterogéneos para garantir “consistência operacional”.

No entanto, esta gestão remota não está isenta de desafios. A garantia da consistência de configurações, a necessidade de operar em locais com recursos limitados e a resposta em caso de incidentes obriga a que estas plataformas sejam capazes de suportar “automação avançada, monitorização centralizada e capacidades de orquestração”, que permitam a gestão eficiente de “milhares de pontos distribuídos, minimizando custos operacionais e riscos associados”, explica Ricardo Silva, que aponta para este tópico como um dos “focos na evolução tecnológica da Cisco”.

Na hora de gerir eficazmente milhares de localizações distribuídas, Hugo Rego relembra que a automação e a standardização são as melhores aliadas. “Na Red Hat, ajudamos os nossos clientes a construir aquilo a que chamamos um blueprint: uma golden image que define todo o stack para um determinado tipo de localização”, explica o Senior Manager. A partir daqui as atualizações necessárias são distribuídas e as implementações acontecem de forma automática. A intervenção humana passa a ser uma exceção, e não a regra.

Alguns dos exemplos práticos encontram-se nas utilities, nomeadamente na gestão de subestações, e na gestão de infraestrutura de lojas de retalhistas. A distribuição da capacidade computacional traz também exigências ao nível da infraestrutura física. Victor Gago, da Schneider Electric, lembra que cada nova localização precisa de assegurar alimentação elétrica, refrigeração e conectividade com níveis de disponibilidade e resiliência adequados às aplicações. Neste contexto, o responsável da Schneider Electric destaca a normalização e a utilização de soluções modulares e replicáveis como formas de acelerar a implementação e manter padrões consistentes entre diferentes localizações.

A visibilidade num ambiente sem perímetro

Do ponto de vista da segurança, a multiplicidade das localizações adicionou uma camada de complexidade à gestão remota, com a visibilidade a surgir como um dos maiores desafios.

Rui Duro relembra que “uma equipa de segurança não consegue proteger adequadamente aquilo que não consegue identificar, classificar e monitorizar”, especialmente em ambientes distribuídos onde podem coexistir os mais diversos contextos.

No fim, o Country Manager resume aquelas que considera serem as três capacidades fundamentais: “visibilidade sobre todos os ativos, políticas consistentes em todos os ambientes e capacidade para responder sem depender da presença física de um especialista em cada localização”.

Ricardo Marciano, da Fortinet, acrescenta mais dois desafios: o primeiro envolve a crescente utilização de aplicações cloud e dispositivos que nem sempre são geridos a partir da própria organização, o que obriga a “complementar os controlos tradicionais de acesso com mecanismos capazes de monitorizar a utilização das aplicações cloud, identificar comportamentos de risco e detetar possíveis configurações inseguras ou exposições indevidas de informação”; o segundo prende-se com a escassez de recursos especializados em cibersegurança.

A dificuldade de diagnóstico aumenta também à medida que a infraestrutura se distribui. Ricardo Marciano dá como exemplo uma situação de degradação do desempenho de uma aplicação: a organização precisa de conseguir determinar se a origem está no dispositivo, na rede local, no fornecedor de Internet, numa aplicação SaaS ou na própria infraestrutura empresarial, tornando a observabilidade de ponta a ponta particularmente relevante.

“O sucesso da gestão remota depende cada vez mais da combinação entre visibilidade operacional, controlo consistente sobre aplicações e dados, e capacidade de resposta contínua aos riscos de segurança, independentemente do local, dispositivo ou modelo de trabalho adotado”, conclui.

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