"Temos de tentar, o mais possível, manter a normalidade do nosso funcionamento"

Clara Raposo, Dean do ISEG, deixa uma mensagem de esperança para os momentos difíceis que se avizinham e alguns conselhos do que as organizações devem enfrentar para a atual crise.

"Temos de tentar, o mais possível, manter a normalidade do nosso funcionamento"

Tendo em conta aquilo que conhecemos do passado e aquilo que já aconteceu, o que é que podemos aprender que nos permita navegar nestes tempos que aí vêm?

Esta crise tem a diferença de ser uma crise motivada por um outro tipo de problema, que é a questão da saúde e as pessoas terem medo. E, na retoma, podermos encontrar aqui uma dificuldade de dar segurança às pessoas e de as pessoas sentirem segurança de saírem à rua e de retomarem as suas atividades nos moldes em que estavam a funcionar anteriormente. Penso que essa é a questão mais diferenciadora em relação a outras crises por que temos passado. Das crises anteriores, acho que chegámos à conclusão de que com mais dificuldade ou menos, com mais austeridade ou menos, os países acabam por conseguir ultrapassá- -las com o sacrifício de muitas pessoas.

Há a necessidade de as economias se reinventarem e de explorarem novos setores de investimento; por exemplo, nesta última crise, em Portugal, o setor do turismo foi essencial para a nossa recuperação. Neste momento, se pensarmos nisso, numa altura em que ninguém viaja e que a questão geográfica é tão importante, se calhar estamos um bocadinho mais preocupados porque estamos a ver que aquele que foi um dos grandes pilares da nossa recuperação económica está bastante comprometido até conseguirmos restabelecer a confiança desse ponto de vista.

Há um elemento que penso que nos pode ajudar na recuperação, que é o facto de ser pandémica, ou seja, de afetar todo o planeta e todas as nações. Por um lado, isso é muitíssimo grave; por outro lado, temos a consciência de que não queremos propriamente culpar um país ou outro. Desse ponto de vista, é necessária alguma coordenação dos grandes decisores pelo mundo inteiro. Quer a nível das empresas, que acabam por encontrar soluções que nos ajudam a manter algumas das atividades económicas que são essenciais para o nosso funcionamento; quer em termos dos Estados e dos grandes decisores dos Governos, e de outro tipo de entidades públicas que estão atentos ao problema e que estão a tentar coordenar e encontrar algumas soluções.

Isto é uma anormalidade completa; esta coisa de vivermos todos em casa, pessoas que não tinham contacto nenhum com soluções tecnológicas... têm demonstrado alguma capacidade de adaptação. Do ponto de vista da experiência, até está a ser uma experiência interessante. Temos encontrado vários negócios e várias áreas de atividade – e as universidades até são um exemplo – em que, bem ou mal, se calhar começa-se de uma forma um bocadinho mais artesanal inicialmente, mas as organizações têm de conseguir dar a volta e – esta para mim é a mensagem essencial desta crise –, nós temos de tentar, o mais possível, em qualquer setor de atividade, manter a normalidade do nosso funcionamento.

É certo que não é presencial, é certo que não é com o mesmo tipo de contacto, mas tudo aquilo que nós conseguirmos fazer para manter atividade, para manter as trocas comerciais, para manter os nossos padrões de consumo o mais parecido com aquilo que eram antes de estarmos fechados em casa; tudo isso é uma ajuda que damos, também, à própria economia e à nossa capacidade de recuperarmos, mais tarde. Porque se nós, de facto, pararmos tudo, depois chega uma altura em que deixamos de saber o que é que é recuperável, e o que é que não é. Nesta crise, o que acho que é mais diferenciador, é o medo e a necessidade de o regresso à vida no mundo exterior ter de ser feito com muita confiança das pessoas, em que elas sabem exatamente os riscos que correm e, mesmo assim, sentem a confiança de voltar ao mundo exterior.

Alguns analistas dizem que isto pode ser a emergência de uma economia menos baseada no contacto. O que é que crê que se esteja a fazer nesta altura, de toda esta experiência a nível global de colocar as pessoas a trabalhar online? Crê que isto pode ser a base para uma nova vertente desta economia “sem contacto”?

É uma pergunta difícil porque vamos dar uma opinião sem conhecermos o futuro. Há uma tendência para trabalharmos mais à distância e para sermos capazes de estar mais autónomos com um conjunto de aparelhos que nos permitem desempenhar muitas tarefas à distância sem termos o contacto físico. 

 

Enquanto experiência pessoal de gestão e de liderança, senti a necessidade de comunicar mais e de forma mais decidida e transmitir mais confiança 

 

Mas também acho que isto não vai substituir completamente tudo o que são as nossas funções humanas e o contacto presencial, acho que continua a ser importante nas relações interpessoais.

Quanto mais tempo estivermos assim, mais nos habituamos a este estilo de vida com trabalho remoto; por outro lado, faz-nos sentir falta do resto. Vai fazer, na minha opinião, com que nos tornemos bons a fazer o nosso trabalho à distância, sem o contacto físico, e vai tornar-nos ainda melhores no trabalho que também fazemos presencialmente.

Acho que vamos conseguir chegar a um ponto em que conciliamos os dois tipos de atividade, e em que aquilo que é mais racional de ser feito via computador, vamos fazê-lo, e acho que vamos aproveitar melhor o tempo em que, de facto, estamos presencialmente uns com os outros, para não ser um tempo tão repetitivo, em que aqueles momentos de contacto pessoal podem passar a ser aproveitados de outra forma.

Temos um problema em Portugal de um interior envelhecido, abandonado. O interior poderá ganhar alguma relevância a partir do momento em que as pessoas se apercebem que não precisam de estar todos os dias no centro para conseguirem desempenhar o seu trabalho. Esta transformação é possível ou é utópica?

Não acho nada utópico; acho que é uma realidade. A localização geográfica é, hoje em dia, menos importante.

Esta experiência, que já começa a ser de bastantes semanas, faz com que muitas pessoas comecem a pensar se em vez de estarem naquele apartamento, ali fechados em Lisboa a trabalhar, e a irem todos os dias para o trabalho... se não seria mais agradável viverem num sítio mais tranquilo, e poderem ter um outro tipo de oportunidades e um outro tipo de qualidade de vida, tendo em conta que neste momento já o fazem. É uma tendência que se alarga, mas não necessariamente 100% a toda a gente e a todos os setores.

Este mundo globalizado torna-nos muitíssimo competitivos uns com os outros e temos que ser mesmo muito bons na atividade que desempenhamos. É nessa qualidade, na formação dos nossos quadros, na imaginação, na criatividade, é essa a aposta que temos que fazer. Seja com as pessoas em casa, o que quer que seja. Podemos ter grandes negócios feitos a partir de Lisboa, a partir de qualquer aldeia, por aí fora, mas temos que ser distintivamente bons na qualidade e na diferenciação dos produtos que oferecemos.

A professora é responsável por uma instituição de ensino e, como gestora, qual é a perspetiva que tem neste momento?

As nossas universidades funcionam sempre com muitas pessoas. Há sempre muita necessidade de comunicar e de tomar decisões que nunca são unanimemente bem aceites. No momento atual, ainda mais decisões têm que ser tomadas e, uma coisa que me pareceu particularmente interessante nesta crise, enquanto experiência pessoal de gestão e de liderança – e acho que acontece nas universidades, mas que é transversal a todos os setores – foi a necessidade de comunicar mais e de forma mais decidida, transmitir mais confiança.

As pessoas estão em casa, muito preocupadas com a saúde e com tudo. Aquilo que me pareceu essencial foi que se tomassem decisões e que encorajássemos as pessoas pela positiva, apelando ao seu sentido de missão e de responsabilidade, e salientando a sua capacidade de conseguirem atingir aqueles objetivos.

Em qualquer organização, tanto nas universidades como nas empresas, é muito importante que a comunicação seja motivadora, que ninguém desmoralize e que as pessoas se sintam capacitadas para conseguirem cumprir os seus objetivos. Isso, para mim, foi o mais desafiante até agora. Primeiro, foi pôr toda a gente a dar aulas, a fazer reuniões online, manter as atividades de investigação e tudo aquilo que fosse necessário. E agora é a nova luta, que é a preparação de avaliações à distância. Também temos que garantir que todos somos capazes de, de forma decente, comunicar uns com os outros. Com os estudantes, isto é muito importante porque precisam de sentir que o lado humano continua, para além da tecnologia a ajudar-nos, e que temos que ser acompanhados regularmente com comunicação próxima.

Falou na qualificação. As empresas, neste momento, estão com várias preocupações e a qualificação - ou requalificação - dos quadros não surge como a mais prioritária, mas esta realidade pode ajudar na qualificação, talvez com novos modelos de ensino, não só para os estudantes regulares, mas também para todos os outros?

Faz parte das nossas missões irmos acompanhando as pessoas ao longo da vida com mais formação, e à medida que surgem novas necessidades. A experiência que estamos a fazer agora é uma experiência de empreendedorismo, estamos todos a aprender ao mesmo tempo e não se pode perder aquilo que aprendermos agora.

Compreendo que as empresas, neste momento, algumas delas com dificuldades de liquidez, não estão a pensar propriamente na formação ou no reskilling dos seus quadros porque não sabem o que vai acontecer; mas certamente já perceberam que passaram a funcionar de outra forma, e se querem ter as pessoas ativas e capazes, se calhar agora é que é a altura para começarem a pensar em preparar-lhes formações diferentes, para que consigam adaptar o tipo de trabalho que faziam antigamente a esta nova realidade.

Acho que assim que chegarmos ao verão, e começar a retoma, todos temos oportunidade de dar formação sobre como nos adaptarmos a estas mudanças, como fazermos uma melhor gestão do nosso tempo entre teletrabalho e trabalho presencial, o que é que deve e pode ser feito nas melhores condições das duas formas, e identificar melhor que capacidades é que faltam aos colaboradores das várias empresas, em que é que as pessoas estão a sentir, neste momento, mais dificuldade, e se a empresa quer dar o salto para desenvolver a sua atividade de outra forma, o que é que lhe falta, e o que é que tem aqui de adquirir de diferente.

Nós, obviamente, no ISEG – assim como, imagino, noutras escolas –, estamos a acompanhar aquilo que nos dizem os nossos parceiros, as pessoas com quem temos mais contacto habitual, e também estamos a desenhar soluções de formação nessa matéria.

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