Entre a ambição e a pressão: Portugal prepara-se para a corrida global dos data centers

No passado dia 26 de março, a PortugalDC reuniu mais de 350 participantes para celebrar o Dia Internacional dos Data Centers no Núcleo Central do Taguspark, em Oeiras

Entre a ambição e a pressão: Portugal prepara-se para a corrida global dos data centers

A PortugalDC, Associação Portuguesa de Centros de Dados, assinalou o Dia Internacional dos Data Centers com um novo formato de evento: o Data Center Summit. A iniciativa decorreu durante uma tarde dedicada à reflexão sobre o setor, com destaque para temas como a Inteligência Artificial (IA), energia e competitividade digital.

Na sessão de abertura, Jorge Andrade, Board Member da PortugalDC, sublinhou a crescente relevância destas infraestruturas. “Este é o ano em que os data centers como infraestrutura deixam de ser invisíveis”, afirmou, apontando para o aumento de anúncios de investimento e para a maior atenção por parte de entidades públicas e do Governo.

Também Luís Duarte, Presidente da PortugalDC, destacou a urgência do tema, justificando a evolução do formato do evento. “O tema, de facto, aparece agora em todos os campos, é falado nos media, no campo geoestratégico e no contexto de guerra”, referiu, acrescentando que “Portugal está muito bem preparado e posicionado, mas, ao mesmo tempo, existe uma pressão enorme sobre o país para poder responder em condições a este desafio”.

No final da intervenção, deixou ainda uma nota sobre o papel da comunidade: “o poder da comunidade é bastante maior do que qualquer ato isolado”, reforçando a missão da PortugalDC como “voz do setor”.

Plano nacional quer acelerar setor, mas execução será decisiva

O Secretário de Estado para a Digitalização, Bernardo Correia, marcou presença no evento e partilhou aprendizagens recolhidas numa recente visita a Silicon Valley, em São Francisco.

Uma das primeiras e grandes aprendizagens é a importância do investimento nas melhores ideias e em quantidade suficiente que as faça progredir e ter espaço para evoluir”, afirmou. O Secretário de Estado destacou ainda que, num dos maiores fundos de deep tech do mundo, a Playground, o foco não está apenas em áreas isoladas como IA, robótica ou computação quântica, mas sim “num investimento no potencial combinado destas três tecnologias”.

Outra das conclusões retiradas foi a velocidade de execução do ecossistema norte-americano, que permite “oferecer vantagens aos próprios consumidores. Não é só conversa, é inovação que tem impacto na vida das pessoas”. A capacidade de atrair talento global foi apontada como a terceira grande aprendizagem, considerada essencial para o futuro do setor.

A propósito do recente Plano Nacional de Centros de Dados, aprovado em Conselho de Ministros e integrado na estratégia de digitalização, Bernardo Correia destacou o seu papel estruturante num pacote de investimento superior a mil milhões de euros. “Queremos que o Plano Nacional de Centros de Dados seja uma bússola”, afirmou, sublinhando a importância da execução.

Segundo o Secretário de Estado da Digitalização, o plano surge também para colmatar falhas institucionais, nomeadamente processos de decisão morosos e incerteza regulamentar, que criam um “panorama que nos impede de florescer o setor como gostávamos”.

Para concluir, deixou um aviso: “Portugal não tem só condições, como agora também tem um plano, mas o que vai fazer a grande diferença é a execução”.

Energia, capacidade e regulação: os nós críticos do crescimento

O impacto dos data centers na rede energética esteve em destaque numa mesa-redonda que reuniu Ana Luís de Sousa, Partner da Vieira de Almeida, Ana Quelhas, EVP Hydrigen and Data Centers da EDP Renováveis, e António Vidigal, consultor em sistemas de energia e ex-CEO da EDP Inovação.

Ana Quelhas apontou o principal desafio atual: “o principal desafio do desenvolvimento dos data centers, atualmente, é o acesso à potência”. Ainda assim, considerou que existe capacidade instalada, sendo sobretudo necessário planear e otimizar recursos, num contexto em que há “uma oportunidade muito grande de criar novos investimento, mas também de tirar partido daquilo que já existe de forma mais eficiente”.

Já António Vidigal destacou o exemplo da Irlanda como referência para Portugal, “quer no ponto de vista de data centers, quer no ponto de vista do sistema energético”, sublinhando os esforços em curso tanto no setor energético como no desenvolvimento destas infraestruturas.

Do ponto de vista jurídico, Ana Luís de Sousa reconheceu a existência de “alguns constrangimentos” legislativos, mas defendeu uma abordagem equilibrada. “Se não estivéssemos num desafio de acesso à rede e com vontade muito acelerada de fazer acontecer estes projetos, as coisas aconteceriam de forma normal”, afirmou. Ainda assim, considerou que o regulador deve intervir “sempre que se torna necessário disciplinar para conseguir garantir que alguma coisa se faça”.

Infraestruturas digitais já são base da economia moderna

O último painel da tarde centrou-se no impacto dos data centers na sociedade digital, com a participação de Adolfo Mesquita Nunes, Country Co-chair and Partner da Pérez-Llorca, Advogado e Professor, Pedro Siza Vieira, Advogado, Sócio PLMJ e Professor na Nova School of Law, e Sandra Maximiano, Presidente do Conselho de Administração da ANACOM.

Pedro Siza Vieira destacou o aumento da procura por estas infraestruturas, impulsionado pela crescente dependência de dados. “Existem fatores favoráveis que levam a uma procura mais acentuada por data centers, e também o facto de a economia precisar cada vez mais de dados e destas infraestruturas para o seu próprio funcionamento”, afirmou. Para o advogado, não é possível ter uma “economia moderna assente no conhecimento se não tivermos as infraestruturas digitais que a suportem”.

Adolfo Mesquita Nunes defendeu uma visão mais abrangente do impacto económico, alertando para a necessidade de olhar além do posicionamento de Portugal como destino atrativo. Os investimentos realizados “ao longos anos terão impacto em todas as matérias da economia portuguesa”, afirmou, defendendo um modelo híbrido de desenvolvimento, com colaboração entre setor público e privado.

Por sua vez, Sandra Maximiano sublinhou a importância da simplificação regulatória. A ANACOM pretende “ter o menor número de identidades possíveis para que as plataformas se dirijam apenas a uma, ou não mais do que umas poucas”, promovendo maior coerência no processo de investimento.

A responsável considerou ainda que este momento representa “uma oportunidade para se falar na estratégia digital nacional e pensá-la de uma forma mais completa, mais para todo o ecossistema digital”.

Por entre a ambição e a pressão do setor, o Data Center Summit demonstrou que Portugal está pronto para se afirmar no mapa europeu dos data centers, enquanto enfrenta desafios significativos ao nível da execução e da agilidade regulatória. O futuro do setor dependerá apenas da capacidade real de transformar planos em resultados reais.

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