Os serviços na cloud no centro do negócio

Os modelos as-a-Service, baseados na cloud, assistiram a um crescimento enorme durante 2020. Mas, depois da pandemia, será que muitas das organizações vão manter este modelo de consumo? Numa mesa-redonda que teve a Accenture como major sponsor, várias empresas, nomeadamente a Accenture, a Alcatel-Lucent Enterprise, a Claranet, a Commvault, a Logicalis, a Noesis, a Sage, a Schneider Electric e a Warpcom, partilham a sua opinião sobre o mercado de cloud e de as-a-Service

Os serviços na cloud no centro do negócio

Muito mudou num curto período de tempo. A tecnologia de cloud está a ajudar as empresas e organizações a ultrapassar a tempestade provocada pela pandemia que constitui um acelerador da transformação digital.

As organizações que já tinham iniciado a sua jornada para a cloud tiveram uma enorme vantagem. SaaS, PaaS, IaaS, CaaS pertencem agora ao léxico empresarial e viram um crescimento exponencial na sua adoção. A tecnologia em cloud passou de um objetivo de futuro para uma necessidade urgente de ininterrupção de negócios.

Balanço

A primeira metade do ano ainda foi muito afetada pela pandemia. Portugal, por exemplo, viu-se a braços com um novo confinamento e as organizações tiveram de manter ou mandar os seus colaboradores novamente para casa.

Hugo Oliveira, Sales Director na Sage Portugal, indica que “a primeira metade do ano foi de recuperação evidente da economia e dos negócios em relação ao ano passado. Notou-se que os consumidores passaram a ter outras prioridades e pontos de contacto, o que forçou os clientes a necessitarem de se transformarem. As empresas começaram a procurar a capacidade de se adaptarem com velocidade” às alterações que se vive no mercado.

Hugo Silva, Business Unit Manager – Data Center & Multicloud na Warpcom, relembra que “o último ano foi muito difícil para alguns setores em Portugal e, aos poucos, têm vindo a tentar a recuperar. Temos visto um claro investimento no IT, principalmente na parte de cloud, seja em infraestruturas internas, como para apoio ao utilizador ou na parte de clouds públicas. Os próprios desenvolvimentos tecnológicos dos fabricantes de cloud também estimulam esse movimento”.

Necessidade das organizações

Luís Feitor, Remote Specialist Systems Engineer na EMEA CSS na Commvault, partilha que, neste ano, existe um crescimento no mercado de software e produtos que “evidencia, claramente, esta nova transformação digital e a forma como as empresas utilizam a tecnologia e, também, como mudámos os nossos hábitos; o comportamento cultural é fundamental para adotar a tecnologia que já existe”.

José Manuel Gomes, IT Operations, Cloud & Security Associate Director na Noesis, diz que, “impulsionadas por o que aconteceu em 2020 e o advento da pandemia, as organizações ficaram a saber que a transformação digital não era só um termo bonito, mas sobretudo uma necessidade real. Em 2020, assistimos a uma aceleração brutal da digitalização da economia de forma completamente transversal – de todos os segmentos de atividade, todos as dimensões – e a cloud desempenhou um papel essencial”.

Pedro Magalhães, Secure Power System Engineer na Schneider Electric, afirma que “cada vez mais utilizamos a cloud como um serviço de monitorização e verificamos que, na área de serviços, toda a gestão de dados é mais simples e fácil através da cloud. Esta pandemia veio trazer uma novidade: a digitalização. Muitos empresários que considerariam que o teletrabalho eram umas miniférias para os seus empregados, hoje estará convencido que o teletrabalho é algo para o futuro. Tudo isto aumenta a digitalização e o recurso à cloud”.

Definir o sucesso

Sempre que se adota uma nova tecnologia, é preciso que as organizações definam os pontos e as características que podem definir o sucesso na continuidade da utilização da cloud e, simultaneamente, aquelas que podem constituir uma barreira para o sucesso na adoção do modelo.

Ricardo Sousa, Cloud Lead na Accenture, defende que “as vantagens da cloud são várias. A inovação e a disrupção positiva é, provavelmente, um dos aspetos mais importantes. Acho que é inegável que a cloud é um berço de inovação; tudo o que vimos hoje de inovação no mercado de IT, ou nasce diretamente na cloud ou tem uma forte ligação à cloud. Ao darmos o passo de adoção de cloud de forma séria, significa que vamos estar totalmente permeáveis a esta inovação que esta disrupção vai trazer nos negócios”.

Pedro Dias, Country Manager na Alcatel-Lucent Enterprise, menciona que “a facilidade de deployment ou a migração de CapEx para OpEx são a ponta do iceberg” das vantagens da adoção de cloud. No entanto, estas vantagens “não devem ser levadas como as verdadeiras motores de sucesso e dinamização. O resto – o que está escondido – obriga a um trabalho diferente, complexo e moroso; é preciso casar todas as vantagens que os modelos de cloud nos dão e associar à capacidade de transformação digital e com o negócio, como é que o evoluímos”.

Rui Brás Fernandes, BDM de Digital Cloud Services na Logicalis, assinala que, “muitas vezes, quando se pensa em cloud – e que acaba por ser um erro – pensasse em pegar no workload que está a funcionar no data center e migrá-lo as it is para a cloud. Isso é uma abordagem, mas não é a mais correta e isso, por vezes, traz problemas. Uma primeira adoção pode ser a redução de custos, mas, ao fazer o lift and shift, essa redução de custos nem sempre acontece”.

Hugo Oliveira, da Sage, refere que “o sucesso a curto prazo tem a ver com a continuidade de negócio e a resiliência digital; a flexibilidade, mobilidade e disponibilidade, etc., são as características que a mudança para a cloud seja um sucesso. A longo prazo, está relacionado com a parte estratégica, de inovação e disrupção, que só se atinge adotando a cloud nas organizações”.

Segurança e compliance

A cibersegurança é um dos temas mais importantes para qualquer organização. Assim, a segurança e o compliance devem ser tidos em conta na tomada de decisão por parte das organizações.

Pedro Teixeira, Cloud Sales Specialist na Claranet, aponta que “a segurança vai muito da necessidade de ter recursos que saibam trabalhar com ela. Estamos a falar das empresas que fornecem este serviço e que investem milhares de milhões de dólares todos os anos; quando se pergunta onde é que os dados estão mais seguros, na minha opinião estão mais seguros na cloud pública uma vez que estas empresas investem de tal maneira que nenhuma outra empresa cliente consegue chegar a este nível de investimento para chegar a este nível de segurança”.

Luís Feitor, da Commvault, indica que “a conformidade e a segurança são, talvez, os maiores temas e de maior complexidade para quem vive no mundo on-premises para conseguir assegurar todos os standards de mercado em concorrência com os serviços na cloud. As empresas ainda vivem muito na proteção do dado, mas não sabem que informação existe dentro do dado”. Deste modo, é preciso entender que a imutabilidade dos dados continue a existir, independentemente do ambiente.

Pedro Magalhães, da Schneider Electric, diz que “a segurança é uma das fragilidades da cloud” que “obriga claramente a uma escolha criteriosa dos providers, de saber onde está localizado, quais são as regras de segurança dos dados no local a que está obrigado. Mas também gostava de chamar a atenção para os SLA e para a disponibilidade que impacta claramente para a questão da infraestrutura e da garantia que nos pode oferecer”.

Pedro Dias, da Alcatel-Lucent Enterprise, declara que, “quando comparamos a segurança on-premises com a segurança na cloud, a segurança na cloud é – e muitas vezes os clientes não têm essa perceção – sempre brutalmente maior. O único sistema 100% que conheço é o que não tem qualquer tipo de conectividade nem interação com o utilizador e que não serve para nada”. No entanto, alerta, o facto de os dados estarem on-premises ou na cloud “não muda em nada aquelas que devem ser as boas práticas de utilização e acesso a essa informação”.

Migração

A migração dos workloads para a cloud é, possivelmente, a chave do sucesso na implementação das estratégias as-a-Service e de cloud. No entanto, por vezes é necessário fazer um rollback. Para que esse rollback não existe, é preciso ter em conta algumas recomendações para quem está a iniciar a jornada.

Hugo Silva, da Warpcom, refere que “é preciso definir uma estratégia, fazer o refacturing dos workloads, pensar na estratégia de segurança à volta daquilo tudo e depois em toda a parte que é partilhada pelo cliente. A avaliação para a migração para a cloud é crítica no sentido em que é preciso perceber que as responsabilidades devem ser de alguma forma partilhadas. É preciso desenhar e implementar” para perceber todas as necessidades do workload antes da migração ter lugar.

José Manuel Gomes, da Noesis, partilha que “há algumas etapas que têm necessariamente de acontecer e que não devem ser deixadas de parte. A primeira, diria, é a criação da estratégia, da arquitetura e do roadmap de cloud que sejam adequados ao negócio e aos objetivos. O segundo é a identificação e a priorização dos workloads que estejam alinhados com esta estratégia. Depois, o desenvolvimento dos processos de migração, integração, automatização e operação da própria cloud. O quarto passo – que é contínuo – é não esquecer que tudo isto deve ser permanentemente equacionado e perceber que as premissas iniciais podem mudar de um momento para o outro”.

Planear a estratégia

Ricardo Sousa, da Accenture, menciona que “definir uma estratégia, definir um planeamento e fazê-lo cumprir” é um dos pontos mais importantes. “A base deste planeamento é que é aqui o foco; o foco tem de ser as aplicações. Não nos podemos cingir às infraestruturas – que obviamente são uma parte inegável deste processo –, mas são as aplicações que nos vão trazer problemas, são as aplicações e o seu funcionamento integrado que vão causar, muitas das vezes, situações de rollback, é o tempo de resposta das aplicações e o que isso implica naquilo que é o desenvolvimento de negócio do cliente que nos levantam as maiores dificuldades”, diz.

Pedro Teixeira, da Claranet, indica que “antes de tudo, é preciso compreender se o cliente está preparado” para a migração para a cloud. Ou seja, “se tem os processos já desenvolvidos para trabalhar cloud público – que não são os mesmos que trabalhar em data center local –; a situação muda, é preciso perceber se as pessoas estão preparadas para gerir recursos em cloud pública, ainda que seja fundamental ter o parceiro certo para trabalhar neste sentido, mas a formação faz parte deste processo de evolução. Tem de existir um mindset de alteração de processos”.

Abordando as competências necessárias, Rui Brás Fernandes, da Logicalis, afirma que “o networking tradicional hoje, em cloud, é diferente. As funcionalidades são as mesmas, mas as forma como se opera é diferente. O Infrastructure-as-a-Code é algo que traz essa diferença que aproxima o networking do coding, de quem programa. Hoje, temos competências necessárias que às vezes até existem nas empresas, mas estão noutro departamento. É preciso fazer o bridge the gap entre estas duas competências”.

Antecipar e prever

O custo é um tema que costuma estar nas prioridades de quem decide. Antecipar e prever os custos é, assim, uma necessidade para muitas organizações. Evitar o lock-in é, também, um aspeto importante numa estratégia de cloud e as-a-Service.

Pedro Dias (Alcatel-Lucent Enterprise) diz que “não faz sentido olhar para um projeto de cloud de forma radicalmente diferente de qualquer projeto que seja estruturante, impactante ou crucial para uma empresa. Esse projeto terá de ser gerido como um projeto e terá que haver um cuidado intensivo de duas componentes: o planeamento e o teste. Recomendamos a partilha de casos de sucesso e ter muitas vezes a atenção para verticalizar esses casos de sucesso para que os ganhos sejam semelhantes”.

José Manuel Gomes (Noesis) afirma que, relativamente ao lock-in, a resposta passa por “diversificar fornecedores de serviço. A jornada para a cloud deve ser acompanhada por uma estratégia e essa diversificação deve passar por, por exemplo, implementações multicloud. Ouro aspeto importante é a escolha de um cloud provider que tenha API compatíveis com as clouds mais conhecidas de forma que não se fique condicionado a um determinado cloud provider”.

Luís Feitor (Commvault) refere que, nesta componente, “é fundamental uma oferta cloud. Permitir ao cliente subscrever um serviço que não tem custos na retenção ou crescimento dos dados é fundamental em alguns workloads. Nesta componente, tem de existir uma forma de simplificar – tal como a migração para a cloud – os custos controlados dentro da cloud porque, de outro modo, pode existir a migração entre cloud providers, como também a migração para on-premises de alguns desses workloads”.

Hugo Silva (Warpcom) indica que “o cliente pode chegar a um qualquer momento onde precisa de romper com o fabricante. Deve ter uma estratégia onde tem o fornecedor de serviço debaixo de olho e onde deve evitar ficar preso para assumir soluções que sejam mais económicas. Ter uma estratégia assim passa, muitas vezes, por ter conhecimento das soluções dos fornecedores de cloud pública; o cliente pode não ter esse conhecimento, mas pode-se apoiar em integradores ou consultores que ajudam a definir a correta estratégia da sua empresa”.

Futuro

Uma coisa é certa: o futuro das organizações e dos negócios passa obrigatoriamente pela cloud e pelos modelos as-a-Service. Mas, com algumas destas ofertas ainda a nascer ou a crescer, importante pensar quais serão os próximos grandes ‘hits’ neste mercado.

Rui Brás Fernandes (Logicalis) menciona que “há algumas coisas que estão a acontecer no mercado que permitem prever o que deverá acontecer nos próximos tempos. Uma delas tem a ver com o 5G, que vai permitir que o edge seja uma realidade. Hoje falamos em cloud, mas o edge computing vai trazer uma nova camada muito mais próxima do utilizador que nos vai permitir ter use cases que respondam a estas necessidades” de baixa latência.

Ricardo Sousa (Accenture) partilha que “a cloud vai continuar numa evolução mais ou menos previsível de criar cada vez mais ofertas das tipologias PaaS e SaaS. O IaaS vai ficar, gradualmente, mais focado em temas ou de suporte a sistemas tradicionais que, pela sua natureza, não conseguem tirar partido de soluções do tipo PaaS ou mais evoluídas, ou para tudo o que seja de desenvolvimento onde ainda não há solução nativa em cloud”.

Tendência de crescimento

Pedro Magalhães (Schneider Electric) defende que “ninguém pode dizer qual será o futuro da cloud. Se a pandemia de COVID-19 veio acelerar significativamente o trabalho na cloud e a digitalização, o que é facto é que 47% das empresas reconhecem que a cloud é mais complexa do que aquilo que esperavam. Embora seja um mercado com uma tendência de crescimento, os fornecedores terão de dar passos para consolidar os modelos de negócio e criar, também, novas soluções ou serviços com maior fiabilidade”.

Hugo Oliveira (Sage) assinala que, “no futuro, vamos ver mais inteligência artificial, data liberation, ver mais Software-as-a-Service verticais e, em alguns casos, micro Software-as-a- -Service para equipas ou departamentos e mais situações que permitem às empresas adotarem e personalizar aquilo que precisam na cloud. Acho que tudo o que será desenvolvido terá, obrigatoriamente, uma mentalidade mobile-first e as coisas que vão aparecer vão ser desenhadas nessa perspetiva”.

Pedro Teixeira (Claranet) afirma que, “acima de tudo, vamos assistir a uma inovação do ponto de vista de negócio bastante importante. A tecnologia vai continuar a crescer e, pelos vistos, de uma forma acelerada. O setor bancário, por exemplo, já está a utilizar inteligência artificial nos chatbots; no tratamento de dados, também utilizam esta tecnologia para acelerar os procedimentos internos. O mundo será híbrido; em vez de termos uma cloud centralizada – seja público ou local –, vamos ter uma cloud distribuída”.

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