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Mobilidade tecnológica

A mobilidade inteligente, longe de ser um tema recente, é, nos dias de hoje, um tema emergente, motivado pelos problemas decorrentes de um aumento consistente e exponencial da população nas grandes metrópoles

Mobilidade tecnológica

O desenvolvimento das grandes cidades e o seu crescimento populacional, muitas vezes associado a uma expansão urbana desordenada, tem como principais consequências a insuficiência de infraestruturas urbanas e serviços que respondam às necessidades, as preocupações de cariz ecológico, e multiplicidade de meios de locomoção e transporte.

A concentração populacional num mesmo espaço urbano, ainda que proporcionando a longo prazo um crescimento da dimensão das metrópoles, gera também problemas de poluição sonora e visual, introduzindo preocupações ecológicas e de disponibilização de serviços.

As alterações climáticas motivadas por essa mesma concentração populacional são também um desafio enorme com que as cidades se debatem, já que estamos apenas a 11 anos de evitar um aquecimento global de 1,5 graus celsius em comparação com o período pré-industrial.

O movimento pendular, realizado das zonas limítrofes para o centro das grandes cidades no início do dia - e o movimento contrário no final do dia - aliado ao aumento do uso dos automóveis, em contraste com uma escassez de lugares de estacionamento, introduz pressão ao estacionamento da via pública e respetiva fiscalização. A mobilidade urbana representa nos dias de hoje cerca de 40% do total de emissões de CO2 em cidades.

A crescente preocupação com a mobilidade reduzida e outros espaços específicos como bolsas de veículos motorizados e de Sharing, introduzem pressão sobre o trânsito, aliada à preocupação pela gestão logística de bens e serviços em lugares de cargas e descargas.

A mobilidade inteligente, sendo um dos segmentos das smart cities, é um dos verticais que permite – no seu auge - um fluxo constante e eficiente de pessoas e bens da forma mais automatizada possível resolvendo todos estes problemas.

A tecnologia funciona neste segmento como um facilitador, integrador e agregador. Os avanços recentes de temas como a Inteligência Artificial, o Blockchain, o Big Data e o IoT, aliados a um aumento da capacidade de armazenamento e processamento elástico característicos de plataformas como a Google Cloud, Azure ou Amazon, aceleram hoje a transformação necessária do conceito de mobilidade inteligente.

É comum hoje a resposta do mercado a esta equação, através de Plataformas de Mobilidade que têm por missão integrar com mais ou menos sucesso um conjunto de sistemas, disponibilizando uma “visão única” das cidades.

Se os centros de controlo operacionais têm já alguns anos de existência, juntando num mesmo espaço físico entidades municipais, a agregação de toda esta informação, tirando partido da inteligência destes dados, só é possível recentemente com a maturação destas tecnologias.

O recente aparecimento de novos meios alternativos de locomoção associados à mobilidade elétrica, como sejam as bicicletas e o recente boom das trotinetes, garantem também hoje uma vasta escolha para o last mile, e uma forma mais ágil de mobilidade, dando empowerment ao consumidor final de escolher o meio mais conveniente para o seu percurso.

A componente de sensorização (IoT) é nos dias de hoje uma aposta das principais cidades. São exemplos disso mesmo a introdução de dispositivos de sensorização em serviços de saneamento (introdução de sensores para validar o nível de enchimento de contentores), a utilização de sensores em contadores de energia e água e a utilização de beacons em pagamentos de meios de transporte.

Neste capítulo, também a analítica de vídeo tem evoluído, assumindo um papel muito relevante na gestão da atividade da via pública, deixando de estar associado apenas à atividade criminal. A utilização destes dispositivos levanta no entanto questões de ordem ética, considerando que a sua utilização permite mais que uma atividade reguladora e fiscalizadora.

É neste tema de resto que se coloca o principal desafio em termos de regulação, ética e moral, estando a norma regulatória um pouco mais desatualizada em relação à velocidade tecnológica e ao surgimento de novas soluções que acontecem a um ritmo quase diário.

A utilização dos milhões de transações geradas pela sensorização, aliada a inteligência artificial e analítica de vídeo são um instrumento poderoso na gestão das cidades, mas apenas se utilizado de forma consciente, ética e sem colocar em causa a liberdade dos indivíduos. Um exemplo negativo da utilização desta tecnologia é a mais recente utilização da inteligência e analítica de vídeo para classificar indivíduos na China, atribuíndo-lhes um rating de cidadania.

Um outro tema associado a estas plataformas é o tema da segurança da informação. Com a convergência das atuais plataformas para soluções de cloud, bem como a utilização cada vez comum de soluções IoT, obriga as organizações a um investimento elevado neste ponto – até aqui muitas vezes descurado – e introduzindo a necessidade de gerir a todo o momento o acesso a esses mesmos componentes.

Apenas uma correta construção de base tecnológica – contrária à urgência de construção destas soluções – permitirá simplificar este processo e garantir a salvaguarda da informação. Neste ponto, empresas emergentes e que nascem já na “era digital” – como exemplo muitas das startups – adquirem vantagem competitiva face às incumbentes.

Também o setor automóvel sofre nos dias de hoje uma grande transformação, motivada pela quarta vaga de industrialização, explorando novos caminhos como a interconexão de veículos, quer entre si, quer com sistemas de sensorização, sinalização e semaforização, quer na componente de carregamento elétrico.

Se outros países exploram já tecnologias como o hidrogénio – uma tecnologia bem mais limpa e amiga do ambiente – a descarbonização é claramente uma necessidade urgente, quer pelo impacto ecológico, quer pela eficiência.

A introdução de veículos autónomos – self driving cars – é atualmente um desafio das cidades, pela coabitação com os veículos convencionais, introduzindo todo um mundo novo de desafios e oportunidades, alavancado por novas tecnologias de sensorização (IoT) e comunicação (tecnologias como 5G e similares), colocando-se neste ambiente híbrido – carros e pessoas – desafios de ordem jurídica e ética.

Com a existência de um ambiente urbano apenas com veículos autónomos, a mobilidade trará um ganho significativo, quer em eficiência, quer no evitar de perdas de vidas humanas, mas, até lá, as questões éticas e legais terão de resolver as questões deste mesmo ambiente híbrido de homem/máquina.

Neste setor, a componente financeira é claramente a que ainda tem mais espaço de evolução, considerando que os novos meios elétricos ainda são mais onerosos que as soluções anteriores, e que no que diz respeito à mobilidade elétrica, a gestão de baterias elétricas é um desafio a considerar. O mercado tem tendência a mover-se para um conceito de renting de mobilidade, e essa será claramente uma aposta do setor para os próximos anos.

Também o mindset da população urbana tem sofrido alterações. As novas gerações preferem meios de mobilidade mais rápidos, baratos e sustentáveis. A posse do meio de transporte, característica das gerações anteriores, tem vindo a ser desvalorizada, em detrimento de soluções de sharing.

Todos estes desafios e evoluções representam a oportunidade de as cidades se reinventarem na forma de gerir todos estes meios.

O Município de Lisboa tem apostado numa plataforma agregadora de serviços e informação, sobre a qual pretende implementar uma inteligência de dados que sirva não só a cidade e os seus serviços, mas também os utentes.

A utilização de uma Plataforma Gestão Inteligente permite não só a interligação de informações dos diversos serviços municipais, como também a interligação de procedimentos e, com a sua maturação, a utilização de inteligência sobre esses mesmos processos, devolvendo ao cidadão final informação útil que lhe permita utilizar o espaço urbano de uma forma mais sustentável, eficiente e conveniente.

Esta agregação de informação e a sua consequente exploração por motores de inteligência e oficinas de dados, aliados a um conceito de dados abertos, traz ao município algo inacessível até aos dias de hoje: um conhecimento vasto sobre a mobilidade na cidade de Lisboa. Em resultado disto, Lisboa é, nos dias de hoje, o laboratório por excelência da mobilidade, também pela criação dos diversos hubs tecnológicos já existentes na cidade.

A consolidação de todos os serviços de mobilidade, e a horizontalização de todos os verticais de mobilidade será a forma de o Município prestar o serviço exigido pelos cidadãos, apresentando um catálogo vasto de serviços que responda a todo o momento a todas as necessidades, criando ao mesmo tempo novos modelos de negócio que poderão ser explorados quer por entidades públicas, quer pelo setor privado.

A mobilidade é, por estas razões, cada vez mais algo fundamental na vida das cidades, e a sua gestão - ainda que em colaboração estreita com entidades privadas - será tão relevante como os restantes serviços de gestão, ainda que com o apoio das instituições privadas. Cabe por isso a cada um dos municípios e respetivos organismos públicos a gestão e interligação de todos estes verticais, abrindo portas à interligação intermunicipal.

O alavancar deste conceito de integração numa tecnologia estruturada ao serviço do município, criando todo um ecossistema integrado de informação de mobilidade e gestão da cidade traduzir-se-á numa melhoria de utilização de recursos disponíveis (a grande maioria das vezes escassos), uma utilização muito mais eficiente e sustentável do espaço urbano, criando novas formas de negócio associadas.

A evolução nas principais tendências de programação Agile permite o desenvolvimento de soluções mais integradas e customizáveis, em detrimento de soluções proprietárias que causam dependência dos municípios, assim estas tenham capacidade de assumir a responsabilidade por esse mesmo desenvolvimento. Para que tal aconteça, é necessário dimensionamento das equipas tecnológicas, quer na tradução das principais orientações de mobilidade em requisitos funcionais, quer na garantia de execução de um código fonte sempre vivo e atual, recorrendo às ultimas técnicas de programação.

A criação de silos de informação segundo um conceito de serviços que poderão ser ou não partilhados via open data (e com mais ou menos segregação) e uma correta estruturação inicial orientada a serviços e objetos, aliada às ultimas tendências cloud, deverá garantir uma agilidade até aqui difícil de alcançar, sobre a qual deverá assentar a componente de inteligência artificial.

Existem já tecnologias comprovadas para que um qualquer indivíduo se possa deslocar do ponto A para o ponto B e estacionar a sua viatura – ou uma viatura de sharing - sem nunca ter de tocar num volante ou numa app de estacionamento, tecnologia esta que garantirá uma correta mobilidade de cidadãos e indústria, e salvará a vida de milhões de pessoas, traduzindo-se numa nova experiência de mobilidade, e abrindo a perspetiva de novos modelos de negócio – poder viajar do ponto A ao ponto B da forma mais eficiente possível e sem ter de prestar atenção à viagem, faz com que esse mesmo tempo de viagem possa ser melhor aproveitado.

Para que tal aconteça será necessário que os principais players de mobilidade – municípios e respetivas empresas municipais, setor privado, industria automóvel, empresas de consultoria e tecnológicas - trabalhem em conjunto, e que as questões éticas e morais possam ser ultrapassadas numa decisão comum e universal, e que leis agora restritivas e desatualizadas possam finalmente ser alteradas para estarem de acordo com o grau de maturidade das tecnologias emergentes.

Num negócio que será brevemente mais rentável que o negócio de comunicações, o alinhamento destes players será fundamental para uma mobilidade tecnológica convergente, e que beneficie todos os cidadãos.

A utilização correta destas tecnologias e a agregação de serviços trará claramente mais vantagens do que os riscos inerentes associados, assim se possa utilizar corretamente essa mesma tecnologia.

 

por Paulo Nunes, CIO da EMEL

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