O preço inflacionado da informação perfeita

À medida que a informação é descoberta, é livre de se mover por todo o mercado de forma a que os preços reflitam toda a informação aí presente. Isto é frequentemente descrito como a teoria da informação perfeita

O preço inflacionado da informação perfeita

Basta pensar nisto durante tempo suficiente, para se concluir que um dos princípios económicos mais estimados do mercado tem uma falácia. É suposto que o preço assinale o potencial valor futuro ou benefício económico que algo ou um serviço poderá auferir a quem o adquirir. Se o mercado, como um todo, acredita que o benefício económico futuro de uma coisa sobre outra é mais baixo, então o seu preço cairá relativamente à outra coisa. Isto está, claramente, cheio de lacunas.

Primeiramente, o mercado não é um todo nem um organismo singular. É, ao invés, uma amálgama de conjuntos de lacunas – alguns como eu ou o leitor, enquanto investidores individuais, muito mais um pequeno lote de grandes grupos de investidores, como veículos de reforma. Logo, não há qualquer “lacuna”, embora se fale como se houvesse.

Em segundo lugar, a ideia de expetativas racionais durou bastante e sugere que tendamos a ser seres racionais. Esta é uma afirmação e uma suposição sobre como nos deveríamos comportar dadas certas condições. Por vezes a teoria dos jogos aparece como uma ferramenta para modelar essas condições. Por exemplo, renunciaria hoje a uma tablete de chocolate que se encontra a determinado preço, por uma tablete de chocolate maior que se encontrará a metade do preço na próxima semana? Os economistas gostam de pensar que somos também um “todo” e que nos movemos em formas similares. E sim, existem diversas situações em que parece que nos comportamos da mesma forma. Porém, tal como sabemos, existem crescentemente situações em que os outliers são muito menos do que isso, e assim o modelo das expetativas cai por terra.

Finalmente, existe o próprio mecanismo de preços. O preço é suposto ser um sinal da amálgama de todo o conhecimento do mercado. Noutras palavras, tudo o que pode ser conhecido é aparentemente conhecido e definido no preço. Nesse sentido, a única informação ausente do conhecimento dos mercados é aquela que não deve ser conhecida e que o colocaria em problemas por “insider trading”. Ao mesmo tempo, o preço pode flutuar. Ou seja, à medida que a informação é descoberta, esta é livre de se mover por todo o mercado de forma a que os preços reflitam toda a informação do mercado. Por vezes isto é descrito como a teoria da informação perfeita. Mais uma vez, tudo isto não é totalmente preciso, visto que todos conhecemos exemplos que criam assimetria da informação onde uma parte sabe algo sobre alguma coisa ou um preço que a outra parte desconhece.

Mas, mais especificamente, o preço em si e a forma como é partilhado dentro do mercado é um problema. Tecnicamente, é suposto o preço ser líquido, isto é, não existem impedimentos sobre como o preço é alterado e comunicado. O preço necessita de mudar quando aparece nova informação e a comunicação e partilha dessa alteração deverá estar disponível para todos. O problema é que o mercado apenas funciona se os preços estiverem rígidos. Aquilo que eu pretendo transmitir é que se os preços fossem perfeitamente dinâmicos, nunca haveria hipótese de regulamentar, logo não existiria a oportunidade de ganhar uma vantagem através de uma parte extrair uma margem maior de outra. Sabemos que isto é absurdo.

Existem dois artigos que refletem a falácia da ideia da informação perfeita. No “Economist” foi publicado um texto denominado “How Price-bots can conspire against consumers – and how trustbusters might thwart”. O artigo reporta uma operação ilícita entre os aumentos de preços e a definição dos preços de gasolina nos EUA. Também no “Wall Street Journal” foi publicado um artigo intitulado “To Set Prices, Stores turn to Algorithms”, que reporta a uma história similar passada na Alemanha. O ponto da mensagem é que quando os algoritmos são carregados com a maximização de certos objetivos, poderão acidentalmente agir em conluio (mais precisamente, comportar-se como se eles estivessem em conluio, quando não estão) e o resultado tem sido, tal como mostram as observações, um aumento dos preços. Como pode isto acontecer?

O motivo é bem capturado no artigo do Wall Street Journal: o artigo salienta o facto de todos nós termos uma diferente propensão para comprar e selecionar estações de serviço baseados na sensibilidade ao preço e respetivos níveis. Os algoritmos poderão, com dados suficientes, determinar como é que cada um de nós poderá responder a certos preços. Por exemplo (e eu simplificarei demasiado) alguns de nós poderão ter a disponibilidade económica suficiente para não escolherem as bombas de forma a pouparem uns cêntimos aqui, outros acolá. Assim, não reagimos ou nem necessitamos de um desconto no preço do combustível. Como resultado, o preço que nos é apresentado é um pouco mais alto comparado com os preços médios. Outro automobilista poderá ser bastante sensível ao preço, e o mesmo preço apresentado a ele e a mim pode resultar nele recorrer a um posto de abastecimento concorrente. O algoritmo pode oferecer aquele consumidor um preço ligeiramente mais baixo comparativamente com a média. Isto se, claro está, o algoritmo for capaz de estimar a minha presença e a altura do dia em que eu mais apareço no posto de abastecimento. Portanto, logicamente um algoritmo pode “aumentar” os preços devido a condições específicas. Um algoritmo concorrente pode notar os preços crescentes, ou a variação dos mesmos, e pode reagir a esta situação baixando os seus, ou mantendo-os. Logo, é bastante possível que consigamos arranjar argumentos lógicos para justificar o motivo pelo qual os preços subirão com o aumento da informação perfeita.

O artigo da Economist analisa como a regulamentação pode tentar resolver esta questão. Mas é este um problema real? Por que não aceitamos a ideia de que somos todos diferentes? Por que temos de exigir que todos paguem o mesmo preço quando na verdade não recebemos todos os mesmos salários? A variabilidade de preços deve ser, certamente, uma técnica lógica, ou mesmo até valiosa, para ajudar a atribuir recursos? Poderia a ideia estender-se a mantimentos? À água?

Isso já acontece, de facto, com bens de riqueza e moda. Apenas uma pessoa rica, ou endividada, pode comprar um Rolex. Logo, embora os preços estejam estabelecidos, existe logo uma atribuição em curso. Por que razão não podemos aceitar os mesmos princípios com itens de preço mais baixo, onde há oferta abundante? Talvez aqueles com rendimento acima da média devessem pagar apenas um pouco mais.

 

Artigo original Gartner,

Por Andrew White, research VP, Gartner

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