O novo dinheiro

O sistema financeiro atravessa uma profunda mudança de paradigma. Mais digitais, mais fáceis e mais imediatos – assim têm de ser os pagamentos e as transações na era da economia digital

O novo dinheiro

O ato de fazer um pagamento ou de transferir dinheiro é, para qualquer um de nós, tão simples como digitar um pin de um cartão de débito ou utilizar uma aplicação móvel. Nesta indústria, como em todas as outras, as nossas expetativas estão a elevar a fasquia da mudança. “Os clientes estão mais informados, esperam o imediato, confiam na multidão e estão mais sensíveis ao preço”, indica Hugo Lemos, manager da Accenture. No caso concreto dos pagamentos, diz, espera-se que sejam “rápidos e invisíveis”, em nome de uma experiência “personalizada, digital e one-click”. A Mastercard revelou recentemente que um quarto dos europeus pretendem começar a utilizar pagamentos contactless "tap and go" em smartwatches, pulseiras, porta-chaves ou outras formas de pagamentos através de wearables1. “Os meios de pagamento vão continuar a digitalizar-se e a adaptar-se às novas realidades. Aquilo que hoje temos, com aplicações móveis e outras formas de pagamento, está adaptado à nossa vida quotidiana e ao que procuramos para corresponder às nossas necessidades”, comenta Sebastião de Lancastre, CEO da Easypay, fintech portuguesa que atua na área dos pagamentos eletrónicos.
 

Complexidade é problema

A verdade é que qualquer transação financeira, mais ou menos mobile, tem inerente uma complexidade que Paulo Rodrigues da Silva, global technology leader da área de financial services da IBM, apelida de “substancial”. Qualquer interação, por mais simples que seja, “facilitada por uma app, um toque num botão ou uma leitura de uma impressão digital”, observa, “esconde toda uma vasta rede de ligações entre diversos intervenientes”. Desta rede fazem parte bancos, processadores de mensagens, emissores de cartões, comerciantes, entre outros. O objetivo é acautelar transações seguras e fidedignas. À complexidade do sistema financeiro acresce a que foi introduzida pela própria globalização. “Com o contexto transfronteiriço, os câmbios e as taxas envolvidas resultaram em maiores atrasos e em custos superiores”, justifica.
 

Criptomoedas, a base de uma nova era

Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), reconheceu em outubro do ano passado, no encontro anual do FMI, que as instituições bancárias e os reguladores têm de levar muito a sério as moedas digitais. A bitcoin, a criptomoeda mais transacionada no mundo, valorizou mais de 900% durante 2017. Sem surpresas, há quem apelide as moedas digitais, ou criptomoedas, de “ouro digital”. A sua ascensão é inseparável do desenvolvimento da economia digital, que não se coaduna com meios de pagamento complexos, caros ou lentos. Mas o que as torna tão apelativas? Anonimato, segurança e descentralização, caraterísticas que derivam do modelo tecnológico subjacente, o blockchain, que permite que “o rasto do dinheiro possa ser seguido, sendo por isso identificável”, indica Sebastião de Lancastre.

Além do mais, cada transação é cifrada e agrupada de forma sequencial em múltiplos blocos, ao longo de um registo descentralizado, deixando um histórico que pode ser consultado por todos os envolvidos. Deste modo assegura-se que qualquer falsificação de moeda ou de transação é imediatamente sinalizada e “desmascarada”. Por este motivo, por funcionarem num regime peer-to-peer de autorregulação, as moedas digitais dispensam controlo por parte de uma autoridade única. A ausência de um intermediário para a realização das transações significa que tudo acontece muito mais depressa e que não é necessário pagar a terceiros para transferir dinheiro, outros dois motivos pelos quais as criptomoedas são tão populares. Para Hugo Lemos, da Accenture, blockchain e e-currencies são “a base para a nova era digital dos pagamentos”. Maria Antónia Saldanha, diretora de marca e comunicação da SIBS, confirma que “mais do que a moeda virtual em si, tem-se assistido a um interesse crescente na tecnologia blockchain subjacente às bitcoins”.
 

Blockchain: ainda falta o modelo de negócio

 A modernização dos processos associados às transações tem, necessariamente, de acontecer e a resposta poderá estar no blockchain. “Apresenta-se como um instrumento útil para aumentar eficiências e assegurar maior visibilidade sobre o estado das transações”, refere Paulo Rodrigues da Silva, da IBM, porque possibilita “uma superior capacidade de controlar, em tempo real, a liquidez e os fluxos financeiros de uma empresa no contexto da sua relação com parceiros, fornecedores e clientes”. Para Sérgio Santos, responsável da Direção de Banca Digital no BPI, o blockchain é, neste momento, “potencialmente disruptivo”, por “abalar os próprios fundamentos do sistema financeiro, da intermediação”. Porém, adverte, os intervenientes neste setor ainda estão a olhar para este modelo tecnológico numa lógica de longo prazo, por estarmos perante uma alteração tão estrutural. “Ainda é difícil perceber qual o business case, porque à data de hoje não existe”.

Até porque, para que se torne num novo paradigma, obriga a que todos os intervenientes, mesmo concorrentes, o utilizem, o que exigirá a criação de um ou mais ecossistemas. José Fonseca, head of IT, também no BPI, classifica a atual fase de “disrupção tecnológica” e entende que o desafio é materializá-la em novas ofertas. “A tecnologia está lá, mas falta o modelo de negócio”. A SIBS considera a tecnologia blockchain “interessante” para diversos use cases e necessidades de negócio especificas e está, de momento, a acompanhar, com um grupo de estudo constituído para o efeito, “a evolução associada e as oportunidades que pode proporcionar, a médio e longo prazo, aos negócios, clientes e stakeholders”, adianta Maria Antónia Saldanha.

Porém, a empresa também entende que a tecnologia “não está ainda suficiente amadurecida” para permitir que sejam tomadas decisões sobre novos serviços ou produtos. “A SIBS vê maior aplicabilidade em novos contextos de negócio ao invés da substituição de modelos de negócio e tecnologia hoje existente”, adianta a diretora de comunicação.
 

Diretiva PSD2 - open banking a caminho

No sistema financeiro, é frequente que a mudança seja imposta por forças externas e é o que está a acontecer com a diretiva europeia PSD2, de cumprimento obrigatório desde janeiro de 2018, que institui a possibilidade de os pagamentos poderem ser realizados sem a intermediação dos bancos, desafiando fortemente o seu relacionamento com os clientes. Na realidade, instituirá uma era de open banking na Europa. A premissa da PSD2, esclarece Hugo Lemos, é “fomentar a concorrência no setor”, por um lado, e, por outro, aplicar regulamentação à prestação de serviços de pagamento, “que já começava a ser realizada por outros players que não as instituições financeiras”. A diretiva estabelece que as instituições bancárias passam a ter de assegurar a prestadores de serviços — Third Party Providers (TPPs) — o acesso, através de APIs, a uma conta à ordem ou de pagamentos, de forma regulada e segura – desde que o titular o autorize. Esta regra de “Access to Account” (XS2A) leva a que o banco deixe de ser, obrigatoriamente, o intermediário duma transação no contexto de um pagamento. “Existe uma preocupação com o preço associado a operações de pagamentos”, sublinha o manager da Accenture, e a diretiva pretende também “eliminar encargos adicionais”.

No entanto, a desintermediação deverá acontecer “gradualmente” e fruto da própria dinâmica de um mercado mais aberto: “Como consequência de existirem cada vez melhores experiências de cliente a um custo adequado, sejam elas oferecidas por bancos ou por novos players”, prevê. Ao possibilitar que a iniciação do pagamento seja feita por terceiros, a PSD2 revoluciona não apenas a banca mas também as atuais redes de pagamentos por cartão, que ficam fortemente ameaçadas. No entanto, também estas instituições, à semelhança da banca, olham para a diretiva de forma positiva. “É uma oportunidade para entregar aos consumidores experiências de pagamento mais inovadoras, integradas e seguras, em áreas como os pagamentos peer-to-peer ou comércio online”, aponta a country manager da Visa em Portugal, Paula Antunes da Costa. A mesma opinião tem Paulo Raposo, country manager da Mastercard. “Acreditamos que as alterações introduzidas só podem aumentar o mercado de pagamentos europeu e promover uma maior concorrência, que favorecerá o desenvolvimento de soluções de pagamento novas e inovadoras”.
 

Ameaça ou oportunidade para a banca?

Segundo um estudo da Accenture, os bancos que adotem um modelo digital de open economy beneficiarão de um aumento potencial de 20% das receitas, enquanto os restantes correm o risco de perder 30% destas para novos concorrentes, até 2020. “Uma postura passiva aportará prejuízo às instituições incumbentes”, assegura Hugo Lemos. E embora a nova regulamentação incida sobre os pagamentos, o seu efeito deverá ser mais abrangente. “Tanto a vinculação do cliente como produtos de depósitos, contas correntes, empréstimos e gestão de ativos serão afetados pelo efeito disruptivo desta nova era”. Assim, a banca de retalho “terá muito a ganhar” se se posicionar como um player chave na relação com os TTP. “Os novos players vão competir pela ‘montra’ e até poderão estar confortáveis na oferta de serviços inovadores e na transformação de dados em informação. No entanto, os bancos são quem melhor conhece os serviços e produtos financeiros e terão toda a vantagem em posicionar- se como first movers, criando um ecossistema à sua volta que aporte valor acrescentado”, aconselha o manager da Accenture.

José Fonseca, do BPI, entende que a perceção de segurança que os clientes terão, ao nível do tratamento da sua informação, será determinante. Porque “o maior ativo da banca é a confiança”, nota. Para Sérgio Santos, da direção de banca digital do banco, a base instalada de clientes de qualquer instituição bancária oferece uma valiosa visão abrangente e dá às instituições a oportunidade de “transcender a sua própria produção” e de não se cingirem “apenas à proteção do seu espaço”. A maior dificuldade é saber, entre o open banking e a regulação, até onde é possível ir. Para o CEO da Easypay, Sebastião de Lancastre, as fintech, mais do que concorrentes à banca, são novos parceiros. “Pretendemos ajudar os bancos nestes processos”, assegura, dizendo esperar que estes continuem a mostrar- se mais ágeis e adaptáveis, “como já acontece com os bancos mais pequenos”.
 

Segurança em primeiro plano

A SIBS pretende contribuir para que o sistema de pagamentos nacional beneficie das oportunidades que a nova diretiva apresenta. Um dos benefícios que a empresa pretende concretizar é o de maior segurança na execução ção de pagamentos eletrónicos, através da utilização de métodos de autenticação que “obedeçam às normas europeias e da responsabilização dos prestadores de serviços de pagamentos em caso de execução de operações não autorizadas”, detalha Maria Antónia Saldanha.

Assegurar uma maior proteção contra fraude e incidentes, para consumidores e comerciantes, é outro dos objetivos. Com a PSD2, a União Europeia pretende, efetivamente, dotar de maior segurança os pagamentos móveis e online. Paulo Raposo realça que as mudanças na legislação "também exigem a adaptação dos sistemas de autenticação de alguns operadores do mercado”. Sistemas biométricos, por exemplo, “terão um papel fundamental na redução de quaisquer atritos provocados por alterações ao quadro regulamentar”. Segundo a Accenture, “o investimento avultado” que as instituições bancárias terão de realizar nos sistemas de informação está até a ser levado “um pouco mais além”, já que estas reconhecem a importância de dotar- -se de sistemas e processos que as preparem para a nova era digital e lhes permitam oferecer “de uma forma consistente, mais rápida e ágil, novos serviços e produtos para o novo consumidor”, indica Hugo Lemos.

 

SIBS está a criar ecossistema de open banking

Para a empresa que é responsável por assegurar todos os processos de pagamento, em Portugal, a PSD2 é a oportunidade para lançar o ecossistema Open Banking API, que abrange a comunidade bancária nacional através de uma plataforma comum partilhada, permitindo que novos prestadores de serviços de pagamento, nacionais ou europeus, desenvolvam serviços inovadores, tirando partido da PSD2. “As instituições financeiras podem potenciar serviços de valor acrescentado, como por exemplo uma certificação de morada ou dados de identificação fiscal”, indica a diretora de marca e comunicação da SIBS, Maria Antónia Saldanha. “Os novos prestadores, por sua vez, podem desenvolver novos serviços com informação agregada das contas de pagamento de várias instituições financeiras”. Para reforçar esta aposta, a SIBS dedicou à diretiva a 2ª edição do acelerador do programa SIBS Payforward, o Payforward Accelerator, de forma a selecionar startups com soluções para empresas e particulares no contexto do Open Banking API, que possam incorporar o desenvolvimento da referida plataforma da SIBS. “Esta estratégia cumprirá também a visão de criar um modelo colaborativo e de partilha entre vários tipos, segmentos e níveis de intervenientes, resultando numa oferta que será, seguramente, muito mais benéfica para os utilizadores finais, cumprindo-se assim a visão da PSD2”.

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