“As empresas deviam estar a pensar seriamente que os seus ativos principais deviam estar fortemente informatizados”

José Alves Marques, Fundador e CEO da Link Consulting, aborda o tema do relançamento da economia nacional e qual será o papel da tecnologia nessa missão

“As empresas deviam estar a pensar seriamente que os seus ativos principais deviam estar fortemente informatizados”

Como é que caracterizaria a situação atual nos sistemas de informação empresariais em Portugal, tanto no setor público como no privado, face, sobretudo, aos desafios que este último ano colocou?

A pandemia teve, obviamente, os efeitos todos negativos que conhecemos, mas em determinadas áreas acelerou sete anos o desenvolvimento; todos tiveram que, de alguma maneira, saltar etapas em várias das coisas que faziam normalmente.

Acho que há duas coisas diferentes a distinguir: as empresas e o Estado. Acho que das empresas, se falarmos das grandes empresas, todas elas estavam de alguma forma relativamente evoluídas do ponto de vista dos seus sistemas de informação e do modo como também geriam as suas redes e conseguiram fazer estes saltos com relativa facilidade.

Num patamar mais abaixo, nota-se que muitas empresas não davam realmente valor a qualquer coisa que hoje sentimos que neste ambiente é fundamental. A empresa não pode estar dependente de que os seus processos estejam restritos a uma máquina, a um indivíduo.

A situação no Estado é mais homogénea? Como é que sentiram esta transformação nos organismos estatais?

O Estado tem várias entidades com velocidades muito diferentes. Quando se comparam uma AT ou um Instituto da Segurança Social com outros organismos do Estado, há uma diferença muito significativa. A sensação que tive, pelo menos em alguns aspetos, é que estas questões de confinamento e os impactos que tiveram inicialmente foram mais sentidos em algumas entidades estatais do que propriamente até às vezes nas empresas.

Nas médias e grandes empresas, as plataformas de computação são homogéneas, o modo como o software é feito, o update… todas essas coisas estão minimamente estruturadas. Não será a norma, mas no Estado ainda há coisas dificílimas, como conseguir pôr os PC em casa das pessoas, com o software certo. Na realidade, nem havia às vezes um software que era usado por todos e existiam versões diferentes. Aí, notou-se essa menor capacidade que existe dentro do Estado de olhar para a componente informática como ativo fundamental do seu processo.

Quando começámos há 20 anos aqui na Link, lembro-me que fiz nessa altura uma conferência em que o Estado devia fazer o seu ABC na informática. O A era a administração saber falar com a administração. O B era a administração ser útil e simples para o negócio, para o business. O C era dos cidadãos. Acho que nestes três campos, em 20 anos, alguns aspetos não mudaram muito. Acho que o Estado continua a não ter uma visão integrada dos seus sistemas de informação e continua a ter coisas como autenticações diferentes em organismos do Estado. Cada um usa o seu. Há organismos dentro do Estado que têm mais uma visão de competição, uns com os outros até nestas questões de informática. E há uma questão que acho que não andou, ou que andou muito pouco, que era esta fluidez de ter o Estado ligado com o Estado.

Na vertente do Estado com o negócio, o que sinto é que isso não são propriamente os sistemas de informação, mas também lá chega, é que esta questão do simplex – que já foi também prometido N vezes – a maior parte das vezes não aconteceu. Se vir qualquer processo de licenciamento camarário, continua a ser aquela coisa de 20 documentos, 30 taxas, para a frente para trás, ninguém sabe bem porquê.

Acho que com os meios que estão hoje à nossa disposição do ponto de vista da informática, quer na estruturação de processos, quer na capacidade de interação com os sistemas dos utilizadores – pelos seus telemóveis, por chatbots, por essas coisas todas – que era o terceiro aspeto, a capacidade que teríamos de ter indicadores podiam ser uma forma de medirmos, quer o Estado quer os intervenientes do lado privado exigirem do Estado que esteja também a mostrar isso.

Temos quase um ano desde que as pessoas começaram a ir para casa. Neste ano, muita coisa mudou. No final de 2020 todos tinham esperança de que este ano fosse o ano da retoma. Está a passar o primeiro trimestre e voltamos ao confinamento. Neste momento, qual é a perspetiva que tem para o resto do ano?

De certa maneira, acho que as empresas de core IT não sentiram muito os efeitos da pandemia. Para mim pessoalmente, que já vi muita coisa, foi uma surpresa.

Um aspeto que acho que melhorou significativamente, pelo menos para nós, é que estávamos a fazer investimentos um bocadinho insípidos; temos um polo em Leiria, outro em Viseu, e outro no Porto. Aquilo que sentíamos quer de clientes, quer equipas, não aceitarem muito bem que a pessoa estivesse a 300km ou 200km, atualmente é o mais natural, não há diferença estar no Porto ou Almada a trabalhar, e isso melhorou.

Acho que esta questão de apostar na universidade e politécnicos dão também essa capacidade. Acho que é um fator de esperança sobre esta discussão de como é que vamos desenvolver o interior… é velha receita. Isto desenvolve- se metendo lá a capacidade universitária, a capacidade de fixar as pessoas pelas boas razões. Do ponto de vista de TIC, isso é positivo, mas também do desenvolvimento do país. Esta questão de estarmos mais despertos e recetivos a trabalhar em rede a nível de organizações no país.

A única questão que fica mais em dúvida, do ponto de vista Link, é se a crise vai afetar ou não os grandes clientes dos mercados TIC; por enquanto, isso não se sentiu. Também sinto que nesta área um conselho de administração de uma grande empresa que pense que o primeiro sítio para cortar é eventualmente no IT é um pouco estranho; todos devem sentir que é dos sítios onde se deve investir mais.

Referiu a questão do interior e do recrutamento. Às vezes pode ser um "pau de dois bicos". Toda a gente está remota e vêm os outros de fora buscar os nossos recursos e não precisam de se mudar para outro país. O remoto é o normal. Sentem de alguma forma isso e essa tendência para o remoto melhora ou piora a nossa posição competitiva enquanto país?

Duas coisas que vimos aqui e que se tem mantido, é que quando nós conseguimos entrar na confiança de clientes internacionais – e neste momento estamos a manter clientes na Suíça, Emirados Árabes Unidos, na Arábia Saudita, no Gana, em Jerusalém e por aí adiante –, eles aceitam cada vez mais com alguma naturalidade que as equipas de manutenção evolutiva e mesmo equipas de controlo de redes e de infraestruturas estejam deslocadas porque isto pode funcionar assim. Por um lado, há aqui uma oportunidade. Podemos dizer, e como mostrámos durante a pandemia, que isto se consegue fazer a partir de Portugal, com preços mais interessantes com gente muito boa e, reconhecem pelo menos nas geografias mais avançadas da Europa, que temos outra capacidade de encaixar certas coisas.

Outro ponto do que refere e que não sentimos o impacto, mas é muito óbvio, é que realmente uma pessoa pode perder um bocado a cultura ou a ligação emocional à empresa, porque não está ali no dia a dia. Se calhar, se lhe pagarem um pouco mais, prefere ir para outra situação. É um risco que se pode vir a ter. Acho que o problema entre risco e ameaça existe sempre quando temos situações destas, e que as empresas portuguesas devem tomar uma atitude mais agressiva de ir à procura dos mercados.

Não sabemos exatamente quando, mas isto vai passar. Vamos herdar um problema, mas as empresas têm de olhar para a frente. O que é que as organizações deviam estar a fazer?

Acho que as empresas deviam estar a pensar seriamente que os seus ativos principais deviam estar fortemente informatizados. Um ativo principal nas empresas são os seus processos de negócio. Os processos de negócio distinguem uma empresa de outra.

Se isto tiver retoma, os processos de negócio vão ter de acelerar, vão ter de ter outro desempenho. Se aproveitarem o momento para o fazer e pensar significativamente, há imensas hipóteses de melhoria, sobretudo, nas pequenas e médias empresas e mesmo nas grandes. Nas grandes, uma coisa que temos visto nos últimos tempos foram muitas iniciativas de automatização de pequenas partes dos processos, como robôs de software, com os mecanismos digitalização, com o Business Process Management, mas quando às vezes se analisam o processo end-to-end, de uma ponta à outra, o que se percebe é que existiram ilhas que se tornaram melhores, mas não se tornou tudo.

Se as empresas tivessem este ativo como um ativo principal, o otimizassem e o colocassem em suportes informáticos que funcionem bem – isto pode querer dizer estruturar os processos melhor e aplicar-lhes uma automatização de processos, usarem robôs para tarefas inúteis em que têm pessoas a carregar só em teclas e que poderiam ser feitas automaticamente, ter mecanismos inteligentes de digitalização que evitam estar a copiar informação que é inútil – se fizessem esse investimento, quando os processos acelerarem, não só não precisam tantas pessoas para fazerem o staffing desses processos, como eventualmente vão até correr melhor, com menos erros, com menos questões de qualidade para os clientes e coisas desse tipo, porque estão num suporte que pode ser mais bem gerido.

Há uma grande mudança de processos, mas as empresas internacionais têm grandes equipas de desenvolvimento, sistemas próprios, tratamento de dados avançado, mas as empresas portuguesas não.

Não vejo as empresas nacionais a competir nessa liga. Mas as empresas nacionais eventualmente podem tirar partido até dessas empresas, têm é de ter o streamline dos seus processos modo para ancorar, para interligar com esses grandes hubs, que vão ser usados e que vão decidir eventualmente grande parte da comercialização, tem de ter isso bem feito, porque se não conseguirem ligar-se eles, eles não vão desculpar.

Uma coisa é, eventualmente, as empresas não terem a capacidade de ter os mesmos mecanismos e as mesmas estruturas de ir ao mercado, os canais que essas grandes empresas têm; outra é ficar fora desses, nem sequer lá consegue ir porque não conseguem ancorar nessas nessas plataformas porque não vão aceitar funcionamentos abaixo do nível de benchmark que têm.

Sentem, no vosso contacto com clientes, o benchmark ativo com o que de melhor se faz lá fora, ou ainda estamos na fase do good enough?

Depende das empresas. Na Link, a maioria dos clientes são das áreas financeiras, utilities e telcos. Aí, fazem os benchmarks internacionais e têm uma visão do que é que se está a fazer lá fora; podemos estar ao mesmo nível ou não. Depois há as questões de investimento. Quando se desce patamares realmente é muito mais difícil porque muitas delas ainda não estão aí, se bem que começam a ter esses desafios.

Qual deve ser o foco das empresas?

Acho que a parte positiva na parte empresarial é dizer, apesar de tudo, que as empresas se adaptaram e estão, de uma maneira geral, melhor do que as perspetivas que tinham em março. Acho que é muito positivo porque cria uma lógica que acho que é muito a arrepio do pensamento português, que ficamos logo só a pensar no governo. Avançou-se, fez-se e continuou. Isso é muito positivo.

Isto pode ser uma oportunidade para a maior parte das empresas de pensarem realmente que o mundo mudou. Se calhar, andámos sete anos nesta área da digitalização. Como é que vamos tirar partido disso para estar no leque de vencedores, em vez de ficarmos num leque de pessoas que têm um legacy que tem de se adaptar a várias coisas que estão no ano passado.

Acho que se devem focar em alguns dos aspetos fundamentais das empresas, que são os seus processos de negócios, estruturação do modo como os fazem, a sua capacidade de interligação informática, esta questão muito falada de que uma empresa que está presa dentro do seu sistema informático, que não tem capacidade de o ancorar, de o ligar a todos estes players que vão estar por aí.

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