Que futuro para o data center?

Na era da cloud, há mudanças que se impõem ao data center empresarial. Decunify, Eaton, Itconic, Lenovo, Maxiglobal, Nutanix, Rittal, Schneider Electric e TBA refletem sobre a sua evolução e desafios

Que futuro para o data center?

Infraestruturas têm de ser renovadas

As organizações nacionais estão agora a olhar para a necessidade de renovarem as suas infraestruturas de data center para fazer face às exigências da transformação digital, depois dos investimentos terem arrefecido consideravelmente durante o período da crise económica.

“Este é claramente um momento de crescimento. Nota-se um dinamismo e uma maior procura”, realçou Carlos Paulino, country manager da Itconic. Apesar da afirmação da cloud pública, “os data centers empresariais continuam a ter um volume e um peso muito elevado”, segundo Maria de Lurdes Carvalho, VP Data Center & Industrial Solutions da Schneider Electric, e, sobretudo, terão a necessidade de ser em breve renovados.

A responsável enalteceu ainda que, na cloud pública ou no data center privado, os desafios pouco diferem – são eles custo, velocidade e performance. “Há que adaptar as arquiteturas de computação, que são muito impactadas por estes três fatores”, frisou. José Manuel Oliveira, CEO da Decunify, confirmou que “o core business continua a ficar on-premises, mas já num conceito de cloud privada, não na arquitetura cliente-servidor”. Tiago Caneiras, data center segment & 3Ph UPS key account, na Eaton, apontou que em Portugal os data centers estão hoje “muito desatualizados”, defendendo um caminho pautado por data centers smart, preparados para “abordar o novo IT e os novos desafios, como a cloud”. Até porque já está a ocorrer uma mudança de paradigma. “Nos últimos anos tem havido um reposicionamento no consumo da infraestrutura do data center, para que seja mais transparente, mais automática, mais orquestrada, dando serviço à empresa e muito ligada ao negócio”, explicou José Duque, territory manager da Nutanix.
 

Um imperativo chamado elasticidade 

O modelo de consumo da cloud pública aportou uma nova flexibilidade ao nível do consumo do IT. “A adoção do as-a-service, por parte dos utilizadores finais, foi explosiva”, apontou José Duque. “Os departamentos de IT ficaram com um dilema: ou permitiam o shadow IT ou deixavam de ser um ponto central na definição das políticas de IT. Desde então que as estratégias foram repensadas”.

E porque no data center on-premises permanecem dados que não migram para a cloud por questões de regulamentação, garantias de SLA ou de performance, as empresas são agora impelidas a adotar modelos de IT mais web scale. “Isto leva a que tenham de existir condições para ter sistemas de self-filling, com um nível de uptime o melhor possível, em nome de um modelo pay as you grow”. A Lenovo, que integrou software Nutanix nas suas appliances com o objetivo de as dotar da elasticidade necessária ao negócio, partilha desta visão. “Hoje o data center existe para responder às necessidades do negócio do cliente, mais variável e com exigências de flexibilidade e agilidade”, esclareceu Luciano Zoccoli, enterprise server sales do fabricante, que falou na tendência para integrar os padrões das clouds dentro do data center, “de forma a que seja uniformizado e fácil de gerir, de propor e de utilizar”.

A capacidade do data center privado para competir com a cloud pública é crescente, e quem o dita é a própria evolução tecnológica, tanto do hardware como do software. “Até há alguns anos, ter um armazenamento fiável e com segurança era uma questão crítica e alcançável apenas com equipamentos muito caros”, lembrou José Rodrigues, diretor-geral e founder da TBA, distribuidor de IT. “Hoje, com o software- -defined storage e o software-defined data center, com a virtualização ao nível da hiperconvergência, em que toda a definição de rede, storage e computação ocorre ao nível da máquina, o jogo começa a mudar”.

Há um fator que, em breve, promete desequilibrar ainda mais o tabuleiro, a favor do data center privado: a Intel lançará este ano os novos CPUs, a sua maior inovação dos últimos cinco anos. “Poderemos ter máquinas com três terabytes de memória, com SSDs à mesma velocidade da memória RAM”, anteviu. Como salientou Carlos Paulino, a tendência é para uma convivência entre a cloud pública e o data center. “Temos clientes que edificam as suas infraestruturas híbridas, recorrendo a outsourcing, tendo a sua parte de cloud privada e a sua componente de cloud pública na nossa instalação. As latências e a largura de banda são as duas variáveis que regulam as decisões de colocação e construção de data centers”, adiantou.
 

Micro Data Centers, a resposta para novas exigências

Os micro data centers são uma das maiores tendências, pela necessidade crescente de existir computação local. “O mercado está a adaptar-se à construção dos micro data centers e de data centers in a box, muito mais próximos das organizações”, referiu José Manuel Oliveira. Todos os setores beneficiam deste modelo – do retalho à saúde, passando pela banca, setor financeiro, indústria ou autarquias. “A cloud não é inesgotável”, alertou Jorge Mota, CEO da Rittal. “A Internet of Things e a Internet of Things industrial – que é muito mais exigente, dado que a produção depende diretamente do gateway – exigem maior disponibilidade e menos latência”.

A IoT não é, porém, a única impulsionadora dos micro data centers. “Grande parte dos data centers médios em Portugal, com 6, 8 ou 10 racks, têm vindo a ser reduzidos. A cloud privada é uma necessidade para quem quer um SLA de 100%. Isto leva a que a computação tenha vindo a diminuir e, como tal, as necessidades de espaço são menores. Temos observado que os data centers têm ‘encolhido’ e pode haver aqui alguma adaptação, para criar micro data centers”, indicou Luís Pinho, CEO da Maxiglobal.

A Schneider Electric também tem vindo a apostar nesta área e a adaptar a sua oferta. “Entendemos que há determinadas aplicações residentes numa cloud e que, por questões de largura de banda e latência, não são compatíveis com os requisitos dos utilizadores”. Para o fabricante, os micro data centers podem ser constituídos por um, dois, três ou quatro bastidores, dependendo da carga que estiver em causa. “Todo o tipo de utilização que esteja dependente de uma latência necessariamente inferior a 100 milissegundos, ou que seja passível de ter problemas com largura de banda, tem de recorrer a computação de proximidade”. No caso da Eaton, os data centers até 10 racks são “uma excelente oportunidade de negócio”, nas palavras de Tiago Caneiras.
 

- Todos os setores beneficiam dos Micro Data Centers: Do retalho à saúde, passando pela banca e indústria -

 

IT ao serviço do negócio- implicações para o CIO

E porque agora é o negócio que comanda o IT, o CIO passou a ser também um gestor. “Por pressão do CFO”, indicou José Manuel Oliveira, da Decunify. “O CIO estava muito focado em conseguir a melhor solução do ponto de vista tecnológico e a partir de certa altura teve de acrescentar o que era melhor do ponto de vista financeiro”. Mas houve outras mudanças. No que diz respeito ao data center, por exemplo, há hoje no IT uma preocupação que antes não existia, segundo José Duque – o custo da gestão operacional das soluções.

“O número de pontos de rede, o tipo de switching, a possível dificuldade ou custo de gestão de uma arquitetura de rede. Todos estes pontos se relacionam com a gestão operacional e com o custo do IT para dar serviço ao negócio”. O territory manager da Nutanix realçou ainda que o CIO tem de ser tão flexível quanto possível, para dar resposta ao que é pedido, “caso contrário a sua relevância no comité executivo desaparece”, e que as aplicações têm hoje um papel diferente. “É através destas que o negócio chega ao cliente final. Isto tem um impacto tremendo na infraestrutura que é necessário ter e na forma como esta tem que servir o desenvolvimento aplicacional”.
 

Olhar para a fatura energética de forma global

A fatura energética representa o maior custo de exploração de um data center. “Os equipamentos têm de ser eficientes, mas os grandes ganhos alcançam-se quando se tem em conta todas as variáveis no momento de desenhar todo o data center, como o cooling, por exemplo. A arquitetura é que faz a grande diferença na eficiência”, indicou Maria de Lurdes Carvalho.

Luís Pinho apontou a climatização como “o ponto-chave da eficiência” e os micro data centers afirmam-se como uma solução por norma mais adequada, por ser mais concentrada. “Se a computação o permitir, é possível alojar soluções de climatização extremamente eficientes, que podem ser uma combinação de sistemas de condensação, a gás ou não”. Dependendo da dimensão do data center, é possível adaptar a solução em conformidade com os workloads.

“Na Maxiglobal temos por norma cargas até 40/60 KW, com sistemas de condensação por gás, a dita suspensão direta”. Um outro ponto importante, e que a empresa está a implementar bastante, é a contentorização. “Por norma contentorizamos o corredor frio, que pode trazer vantagens ao cliente, no sentido de que é necessário menor volume de ar para garantir a climatização dos servidores”. Do lado das UPS, as evoluções também são assinaláveis, dado que estão cada vez mais eficientes – de momento, 96/96.5 de eficiência é o que o mercado oferece.

Para Tiago Caneiras, no entanto, não chega olhar apenas para as UPS. “Há outras formas de entregar energia, a nível de qualidade e distribuição, mais eficientes do que apenas através da bateria que habitualmente conhecemos”, defendeu, referindo-se às especificidades dos data centers hiperconvergentes, por norma mais eficientes, pela elevada componente de virtualização, e à necessidade de monitorizar toda a infraestrutura. “Os custos estão muito relacionados com o TCO da solução”.

Mas o total cost of ownership nem sempre preocupa como deveria. Segundo Luciano Zoccoli, “em 99,9% das vezes não é um fator de decisão”. Pelo contrário, “se existir um equipamento que consuma mais, mas que custe menos, a opção tende a recair sobre esse”. Esta situação justifica- se, segundo o próprio, “pelo facto da decisão sobre a compra já não depender de um departamento mais técnico”.

- Os grandes ganhos energéticos alcançam-se aquando do design do Data Center -


Compliance com o RGPD

O Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD), obrigatório de implementar pelas empresas a partir de maio de 2018, trará um conjunto de alterações no modo como as organizações tratam, comunicam e preservam os dados dos seus clientes. “Uma das maiores diferenças será a responsabilidade da informação. Quem a gere é responsável pela origem e destino da mesma”, notou Jorge Mota.

Segundo José Duque, “irá mexer bastante com as organizações, seja do ponto de vista do processo, da aplicação, das layers de infraestrutura”, dado que teremos de saber quem vê o quê, onde e quem consome que tipo de informação. “A recolha será imensa, a retenção de dados será enorme. Outro tipo de processamento e de métricas serão exigidas”. Os prestadores de serviços e os fabricantes terão de trabalhar de mãos dadas para que as empresas respondam de forma eficaz a este novo desafio.

Para o territory manager da Nutanix, o RGPD remete diretamente para a questão do data center definido por software, pela rapidez de resposta que exigirá. “O modelo software-defined é interessante porque permite acompanhar o que vai sendo solicitado em termos de regulamentações. A própria plataforma terá de ter inteligência suficiente para se adaptar a algum potencial risco que possa ocorrer, não só a nível de alarmística mas também para repor a sua configuração inicial”. A componente de infraestrutura deverá ser uma das grandes beneficiadas a curto prazo – um dos principais impactos será a necessidade das empresas adquirirem uma maior capacidade de armazenamento.

 

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