Inovação

O que terá de inovador a maior barragem portuguesa?

Em construção no rio Tâmega, o aproveitamento hidroelétrico de Gouvães terá a maior capacidade de produção de qualquer barragem portuguesa, e é a primeira que pode armazenar energia excedentária da produção eólica.

O que terá de inovador a maior barragem portuguesa?
O complexo da Iberdrola na bacia hidrográfica do rio Tâmega, será composto por três barragens: Alto Tâmega, Daivões e Gouvães. A geração de energia elétrica associada a estas instalações terá no total uma capacidade instalada de 1.158 megawatts, sendo capazes de produzir mais de 1.760 GWh anuais, o equivalente a 6% do consumo elétrico em Portugal. Este projeto implica um investimento de 1.500 milhões de euros, bem como a criação de 3.500 postos de trabalho diretos e 10 mil indiretos.
Carla Costa, diretora comercial da Iberdrola, afirma que este projeto “se trata de uma das maiores iniciativas da história de Portugal no setor da energia hidroelétrica, representando mais de 50% do objetivo do Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico”.

O projeto encontra-se em fase intermédia. A barragem do Alto Tâmega está ainda na etapa de construção das vias de acesso. Gouvães está mais avançada, já com a caverna e túneis de acesso para a central subterrânea construídos, em adição à ensecadeira e ao canal que a coneta à albufeira de Daivões. O prazo de conclusão do projeto está calculado para 2023.
 

Infografia que explica como as 3 barragens são interdependentes, trabalhando Daivões com reservatório para Gouvães utilizar os momentos de sobre produção eólica convertendo-a em energia "futura"

O aproveitamento de Daivões terá uma barragem de 78 metros de altura, com uma potência instalada de 114 MW e uma produção de 142 GWh. Além disso, terá um grupo adicional para a vazão ecológica de 4 MW, que acrescentará uma produção de 17 GWh à instalação. Por sua vez, a central do Alto Tâmega terá uma potência de 160 MW, também dividida em dois grupos, com uma altura de barragem de 106,5 m. A produção estimada da instalação é de 139 GWh.
Dos três, o aproveitamento de Gouvães apresenta o maior potencial. Com uma potência instalada de 880 megawatts, graças às suas quatro turbinas reversíveis de 220 MW, e projetada com uma central subterrânea para maximizar a coluna de água, não só será a barragem com maior potência do complexo do Tâmega, mas de Portugal ( a atual maior potência instalada está no Alto Lindoso, EDP, 630MW) . A parede terá uma altura de 30 metros e sua produção está estimada em 1.468 GWh. O seu potencial, no entanto, está na salvaguarda do sistema elétrico.

 

Obras no túnel de acesso à central subterrânea

 

Porque Gouvães é inovador

Apesar de quase metade da energia produzida em Portugal prover de fontes renováveis, uma parte significativa sobretudo de proveniência eólica, é desperdiçada. A razão é que o timming de produção das renováveis e o timming de consumo podem não ser coincidentes, e quando a produção está excedentária esta tem de ser ou exportada ( o que nem sempre é possível) ou mais frequentemente "queimada" sobre a forma de trabalho inútil utilizando geradores do sistema como motores elétricos para consumir o excedentário.

A verdade é que as redes elétricas como as conhecemos não têm a capacidade para depender exclusivamente de fontes de energia renováveis.

Isto prende-se com o facto de não dispormos de formas viáveis e eficientes de armazenamento de energia a larga escala: como o consumo é altamente variável, a produção tem de ser feita em função do mesmo, e em tempo real. O que, apesar de pouco eficiente, não constitui um obstáculo no uso de combustíveis fósseis, que podemos queimar consoante o necessário para responder às variações no consumo. O mesmo não se pode dizer em relação a energias renováveis, pelo que o seu aproveitamento é sempre limitado. 

De momento, a única forma viável de armazenamento de energia a larga escala é através de sistemas de bombagem presentes em alguns aproveitamentos hidroelétricos. Estes consistem na construção de um paredão secundário a jusante da barragem, que acumula a água libertada na turbinação. Em alturas em que a produção excede o consumo, o sistema utiliza o excedente de energia para bombear água de volta para a albufeira superior, onde poderá ser de novo utilizada para gerar energia quando necessário.

A instalação de bombagem de aproveitamento hidroelétrico de Gouvães consegue isto através de uma ligação com o reservatório de Daivões, bombeando e turbinando água de uma albufeira para a outra consoante necessário. Isto equivale a um armazenamento de energia suficiente para fornecer a zona metropolitana do Porto durante 24 horas.

Portugal não carece de energias renováveis, e não é aí que está o potencial deste projeto. Podemos cobrir o país de barragens e eólicas norte a sul, mas sem uma rede elétrica apropriada grande parte dessa energia vai continuar a ser desperdiçada, e vamos continuar a queimar enormes quantidades de combustíveis fósseis. A verdadeira mais-valia do complexo do Tâmega está em Gouvães—não nos seus 880 MW de potência instalada, mas na sua contribuição para o aproveitamento das muitas fontes de energia renovável de que já dispomos.
 

Da publicação associada Smartbuildings.pt

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