Para lá dos robots que saltam: a era da inteligência artificial já chegou

O robot dança, desce escadas, escorrega num chão polido, cai – e levanta-se. Mas corre em quatro patas, ou salta por cima de uma barreira com uma precisão e uma estabilidade que são simultaneamente espantosas e assustadoras

Para lá dos robots que saltam: a era da inteligência artificial já chegou

Estas são imagens que não se esquecem facilmente e podem ser encontradas nos vídeos gravados pela Boston Dynamics, atualmente uma empresa do grupo da Google. A Boston Dynamics é um dos líderes no desenvolvimento de robots avançados, e será certamente das empresas que mais perto estão de realizar a visão mais comum relativamente à evolução da inteligência artificial e da robótica.

Há, contudo, muito mais neste campo, para lá dos robots corredores e acrobatas. Na verdade, os retratos assustadores e futuristas da Inteligência Artificial (IA), que dominam os filmes e as novelas e enfor- mam a imaginação popular, são ficções. A IA já está a mudar as nossas vidas, quase inteiramente de formas que melhoram a saúde humana, a segurança e a produtividade. E se o potencial para os abusos está lá (e é fácil vê-los nas aplicações da Boston Dynamics, mas também nas ameaças à privacidade baseadas em tecnologias nascidas com a IA) o seu potencial é, entre outras coisas, tornar a condução mais segura, ajudar na aprendizagem das crianças, e alargar e melhorar a vida das pessoas.
Um dos principais exemplos de onde esta transformação está a ocorrer é na área dos transportes, onde um conjunto de tecnologias chave propulsionaram (literalmente) a adoção da IA para velocidade espantosa. Os veículos autónomos serão, em breve, de utilização comum – ou, pelo menos, muitos veículos poderão começar a vir equipados de origem com esse tipo de tecnologias, incluindo camiões de transporte. A Mercedes já apresentou o seu protótipo Future Truck que deverá estar operacional daqui a oito anos. É previsível que a revolução dos camiões autónomos possa ser ainda maior, numa primeira fase, do que a dos carros autónomos – não apenas porque o incentivo económico é significativo, mas porque poderão trazer enorme impacto ao mercado laboral na área dos transportes de mercadorias – com as consequências políticas e regulamentares que daí advirão.

Outra das principais dimensões da IA nos próximos anos ocorrerá na área da saúde, onde nos ajudará a tratar das quantidades massivas de informação geradas por dispositivos de monitorização pessoal, mas também na criação – por exemplo – de robots que auxiliem nas inter- venções cirúrgicas.

 

Repensando os modelos tradicionais de computação

Na área da investigação, o trabalho a ser realizado nas áreas de IA é vastíssimo e centra-se em aspetos como: machine learning em grande escala, deep learning, reinforcement learning, robótica, visão computacional, processamento de linguagem natural e sistemas colaborativos. Naturalmente que haverá uma realimentação dos resultados destes projetos para as áreas de aplicação empresarial. Por exemplo, na área de investigação conhecida como neuromorphic computing, que endereça o próprio fundamento da computação atual, as arquiteturas ditas de Von Neumann – que separam os módulos de input/output, de processamento de instruções e memória.

Com as redes neurais, os fabricantes estão a trabalhar em novos modelos de computação – especialmente os inspirados em redes neurais biológicas – com o objetivo de melhorar a eficiência e robustez. Por enquanto, estes sistemas computacionais ainda não conseguiram de- monstrar cabalmente o seu valor, e estão apenas na fase de se tornarem comercialmente viáveis. Mas é previsível que se tornem comuns nos tempos próximos, quer de forma autónoma, quer como extras aos seus antecessores baseados em Von Neumann.

Apesar de se basearem numa fonte comum de investigação, cada um dos domínios acima indicados reflete diferentes influências e desafios da IA, como a dificuldade de criar hardware seguro e confiável (robots de transporte e de serviço), a dificuldade de interagir suavemente com es- pecialistas humanos (saúde e educação), o desafio de conquistar a confiança do público (segurança pública), o desafio de superar os receios de marginalizar os seres humanos (emprego e local de trabalho) e o risco social de diminuir as interações interpessoais.

Sim, os robots da Boston Dynamics são uma face bem visível do futuro. Mas seja nos carros, nos hospitais ou nas empresas, a Inteligência Artificial está a fazer um caminho lento, invisível quase – muitas vezes – para se tornar ubíquo. A pergunta não é quais são os setores que a IA irá transformar, mas antes, quais os que não serão por ela revolucionados.

 

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