“Pretendemos disponibilizar a mesma facilidade e benefícios da cloud pública na cloud privada”

A Hewlett Packard Enterprise (HPE) comemorou em novembro um ano de existência, após a separação da tecnológica norte-americana em duas empresas distintas. Carlos Leite, diretor-geral para Portugal, identifica as áreas estratégicas, desvenda as prioridades para os próximos tempos e reflete sobre as mudanças atualmente exigidas às organizações e aos seus líderes tecnológicos

“Pretendemos disponibilizar a mesma facilidade e benefícios da cloud pública na cloud privada”

IT Insight- Qual é, atualmente, o posicionamento da Hewlett Packard Enterprise (HPE)?

Carlos Leite– A génese da HPE é ajudar os clientes a transformarem-se dentro desta revolução digital. Entendemos que todos somos digital, e cada vez mais, esta exigência da nossa vida pessoal também se reflete no meio empresarial e aumenta consideravelmente a pressão junto das equipas que gerem os ambientes tecnológicos e os sistemas de informação. A nossa missão é ajudar a nossa ampla base instalada de clientes – temos 52% de quota de mercado em servidores, segundo a IDC, e tocamos muitas empresas, desde as grandes organizações às PME. Pretendemos ajudar o tecido empresarial a transformar-se e a disponibilizar novas experiências de utilizador aos seus clientes.

Quais as principais áreas de aposta?

O data center, juntamente com a conetividade, devido à aquisição da Aruba Networks, e com a Internet of Things (IoT). É inevitável a obtenção de dados provenientes de um conjunto de dispositivos aos quais, outrora, não ligávamos tanto. Hoje, em qualquer indústria ou setor, a IoT está cada vez mais presente. Qual a oferta da HPE para a IoT? Temos uma plataforma que permite tratar este volume grande de dados e transformá-los em informação relevante. Existem outras utilizações possíveis para estes dados, que requerem um sistema computacional e uma analítica próximos dos sensores. Estamos, por isso, a apostar fortemente no edge computing. O nosso portfólio contempla, inclusive, produtos para ambientes hostis, para a componente de smart cities, por exemplo, com a capacidade de interpretar diferentes protocolos de comunicações, tendo built-in uma analítica que disponibiliza informação online, atempadamente, para uma tomada de decisão mais rápida. Nos carros autónomos, por exemplo, isto é um requisito. A aquisição da Aruba Networks trouxe-nos valor acrescentado adicional, do ponto de vista dos access points e também dos beacons. As nossas soluções são convergentes, integram processamento, armazenamento e redes, com alguma analítica.

Como veem, atualmente, a transformação do data center?

No data center, entendemos que o IT é híbrido. Há aplicações legacy que, numa ótica de custo-benefício, não faz sentido que deixem de correr nas plataformas atuais. Há no entanto determinados processos e workloads para os quais, pelas automatizações e repetição de processos que requerem, a cloud privada pode ser a solução, criando maior agilidade na disponibilização de serviço. A cloud privada é uma tendência e em Portugal temos bons exemplos. A nossa missão é providenciar diferentes modelos de consumo aos nossos clientes, e não queremos que se constituam mais silos do que aqueles que já existem. Estamos por isso a construir modelos de gestão que nos permitem olhar para esta infraestrutura híbrida de uma forma holística. Independentemente dos workloads estarem no data center, na cloud pública ou privada, as empresas querem ter uma visão unificada.

Como o estão a fazer?

A nossa aposta está em construir meios que facilitem a operação do data center, para facilitar a gestão dos ambientes híbridos. Estamos a desenvolver soluções software-defined e queremos incorporar no hardware uma camada de inteligência, de software, agnóstica. Estamos também fortemente empenhados em soluções de composable infrastructure, que integram computação, armazenamento, rede e gestão. Estas soluções, de uma forma dinâmica e inteligente, autoconstroem-se e providenciam os serviços em função dos requisitos solicitados pela aplicações.

O modelo tradicional de computação não está ajustado ao grande volume de dados que se começa a verificar. Mesmo do ponto de vista financeiro, porque exigiria um incremento substancial constante dos orçamentos, incomportável para as empresas. Na HPE estamos, neste campo, a empreender uma disrupção tecnológica. Dentro de um ano devemos disponibilizar uma nova arquitetura computacional para data center, intitulada “The Machine”. Será revolucionária porque baseia-se em fibra e é muito escalável. É uma forma totalmente distinta de construir os sistemas computacionais completamente. É uma solução mais ajustada à gestão do grande volume de dados que os data centers dos clientes começam a ter.

Terá um modelo diferente de comercialização?

Estamos a construir modelos de consumo que permitem que os benefícios reconhecidos na cloud pública – o pay per use, a flexibilidade, o poder retirar e acrescentar serviços – existam na cloud privada. Pretendemos disponibilizar aos nossos clientes a mesma facilidade e benefícios da cloud pública na cloud privada. Hoje já temos o Flexible Capacity, um modelo integrado de prestação de serviços, com SLAs associados, que permite traduzir os benefícios da cloud pública na utilização da cloud privada. Os equipamentos são nossos, o cliente paga uma parte das infraestruturas e, se precisar de crescer com rapidez ou de uma provisão célere de serviços, consegue aceder no momento a essa capacidade instalada. É uma área na qual estamos a apostar fortemente em Portugal, havendo um grande interesse. Este modelo, OPEX, tem sido muito bem recebido mas há, no entanto, empresas para as quais o CAPEX continua a ser referencial.

Como avalia a maturidade das empresas portuguesas na transição para o digital?

Portugal é early adopter e estamos ao nível dos outros países no que diz respeito à implementação de novas tecnologias. Para o comum dos utilizadores, é pouco visível o benefício da implementação destas novas tecnologias. O IT é relevante do ponto de vista do controlo de custos e de disponibilização mais rápida de serviços, mas não é tão visível para o cliente final. Estamos, nesse sentido, a concentrar-nos verdadeiramente nas alterações dos processos de negócio. Estamos empenhados em transformá-los de forma a que entreguem uma melhor experiência de utilização aos clientes das empresas e para que resultem numa melhoria dos seus negócios. Conseguimos fazê-lo porque temos um portfólio que cobre as necessidades tecnológicas do data center, um conjunto de recursos humanos que nos permitem prestar serviços de consultoria e a capacidade de transformar e de apoiar a operação.

 

"Dentro de um ano devemos disponibilizar uma nova arquitetura computacional para data center intitulada 'The Machine', que será revolucionária"

Quais as barreiras, em Portugal, à alteração dos modelos de negócio?

Ainda há uma grande preocupação em manter os atuais sistemas a funcionar e, em simultâneo, ter a capacidade de inovar. Para que tal aconteça não necessários perfis distintos de recursos humanos. Encontrar este equilíbrio tem sido a principal barreira. As empresas enfrentam uma grande pressão para que os sistemas não falhem. No entanto, também tem de haver alguém que veja mais além e a maioria das empresas portuguesas ainda não conseguiram encontrar a solução.

As que já a encontram, o que fizeram de diferente?

Passa por identificar recursos das diferentes áreas de negócio e por aliar alguns dos stakeholders do modelo tradicional a novos e mais dinâmicos recursos humanos. As pessoas não querem projetos de um ou dois anos, pretendem quick wins, daí que o efeito dos DevOps funcione na plenitude. Essas empresas têm pessoas das áreas de negócio que aportam know-how sobre os processos. É então necessário identificar alguns stakeholders, e não são muitos, para criar uma task force reduzida, com três a quatro pessoas, que devem ser alocadas a um projeto concreto, com um outcome definido a três meses. Isto é importante para que se mostre à gestão que este é o caminho. É também necessário encontrar soluções e áreas aplicacionais que tenham relevância na relação com o cliente.

Que mensagem deixaria a um CIO?

Cada vez mais a função do CIO é extremamente relevante. Requer, no entanto, alguma alteração na forma de promover as competências da digitalização no seio empresarial. Cada vez mais a aproximação do CIO ao CEO, como elemento ativo, é imperativa. O CIO tem de estar mais próximo do negócio e entender melhor as suas necessidades para, posteriormente, poder aportar benefícios, através das soluções tecnológicas. E isso ainda não acontece, porque vemos muitos CIOs a reportar ao CFO.

Ainda é entendido como centro de custo e não como driver de negócio...

Relaciona-se com a própria postura do CIO. A revolução digital está a acontecer e a relevância dos elementos da estrutura de IT dentro das organizações será cada vez maior, sobretudo se estas pessoas estiverem mais próximas do negócio. Porque é o IT que proporciona rapidez e agilidade no lançamento de novos produtos e serviços. As barreiras não são tecnológicas, dizem respeito às pessoas e aos processos.

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IT INSIGHT Nº 6 Março 2017

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